E se os policiais tivessem morrido?

terça-feira, 19 de agosto de 2008

E se os policiais tivessem morrido?

    * José Ricardo


Numa cidade muito distante daqui, na qual bandidos utilizavam armas de guerra e adotavam táticas de guerrilha, dois policiais mal pagos e, segundo o secretário estadual de segurança pública, despreparados e mal treinados, encontravam-se dentro de uma viatura policial. A rede de rádio estava tumultuada. Informações desencontradas eram passadas a todo momento. De acordo com as primeiras informações, quatro bandidos armados de fuzis estariam fugindo em alta velocidade num veículo escuro. Ainda não se sabia ao certo o modelo e a placa do automóvel; mesmo se essas informações fossem conhecidas, nada impedia que os bandidos trocassem de automóvel para despistar a polícia.
Apesar de serem mal pagos, os policiais queriam encontrar os bandidos e prendê-los. Mesmo sabendo que um tiro de fuzil transfixaria a viatura de um lado a outro com a maior facilidade, os policiais estavam empenhados no rastreamento ao veículo ocupado por quatro bandidos armados de fuzis. Quatro contra dois. Onde estava a supremacia de força?
De repente, os policiais vêem um automóvel de cor escura trafegando em alta velocidade. Devido à escuridão da noite e em razão da velocidade em que os bandidos fugiam, os policiais não conseguiram ver com precisão o modelo certo do veículo. Viram apenas um vulto de um automóvel deslocando em disparada. Os policiais imediatamente iniciaram o acompanhamento visual do veículo, que continuou deslocando em altíssima velocidade. O automóvel realizou diversas ultrapassagens, confundindo os policiais. Os bandidos dispararam seus fuzis, com o objetivo de intimidá-los. Os policiais, de forma heróica, continuaram tentando acompanhar visualmente o veículo dos bandidos.
Estranhamente, um veículo escuro parou. Os policiais acreditaram que fosse o automóvel dos bandidos e sentiram o cheiro da morte se aproximando. Pensaram na possibilidade de rajadas vindas do interior do automóvel lhe tirarem a vida. Simples rajadas disparadas por cada um dos bandidos não lhes dariam a mínima chance de reação. Quatro contra dois; estavam sem supremacia de força. A adrenalina dos policiais subiu a níveis insólitos. O coração deles parecia que ia sair pela boca. Simples rajada disparadas pelos quatro bandidos, e os dois policiais morreriam perfurados tal qual uma peneira.
Ninguém se movimentou no automóvel que parou. Um policial desceu da viatura, gritando para o companheiro:
- Pede apoio! Pede apoio! Fala que localizamos o veículo!
A rede de rádio continuava tumultuada. Enquanto um policial tentava pedir reforço, o outro corajosamente se aproximou do automóvel dos bandidos. Abrigou-se atrás de um poste e verbalizou:
- É a polícia! Saiam do veículo com as mãos levantadas! - o vidro escuro impedia que ele tivesse qualquer visão do interior do automóvel. - Saiam com as mãos levantadas - determinou novamente.
Nada. Nenhum movimento. Percebendo o risco ao qual estava exposto, o policial recuou em direção da viatura, momento em que os quatro bandidos dispararam simultaneamente seus fuzis em direção dos dois policiais. Estes ainda tentaram reagir, efetuando disparos a esmo. Mas as rajadas de fuzis deixaram seus corpos perfurados tal qual peneira. Tombaram quase que instantaneamente.
Os bandidos desceram do automóvel, abordaram um veículo que parou em virtude do tiroteio, mandaram o motorista descer e fugiram, deixando para trás dois policiais metralhados, sem vida. Dois pais de família, mal pagos e, segundo o secretário de segurança, mal preparados e mal treinados. Dois policiais que sacrificaram a própria vida para servir e proteger o cidadão de bem.
Sobre a morte dos policiais, foi publicado apenas notas de rodapé pelos jornais. Dois policiais são mortos em confronto com bandidos, eram os títulos das notícias de pouquíssimas linhas. Não houve nenhuma repercussão na mídia nem na opinião pública. Ninguém da impressa polemizou a morte dos dois agentes da lei que morreram no cumprimento da missão. Nunca mais se falou no assunto.
 
Nota: Esta é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com fatos reais é mera coincidência.
 
É livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença” - Inciso IX do artigo 5º da Constituiçaõ Federal.



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2 comentário(s):

Allana disse...

José Ricardo, sou professora de Português Instrumental no Centro de Educação da Polícia Militar da Paraíba, e gostaria de saber se posso utilizar esse seu texto em uma avaliação escrita com minhas turmas. Vou creditá-lo e colocar o link para seu site. Agradeço desde já.

José Ricardo disse...

Allana, será uma grande honra. Está mais do que autorizado.

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