Nem querendo

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Nem querendo


* José Ricardo


A atividade policial é verdadeiramente um sacerdócio. Quem já vestiu uma farda e colocou uma arma na cintura jamais conseguirá esquecer do tempo em que combateu o crime. Quem está na ativa não consegue desligar da profissão nem nas horas de folga. É impossível ser apenas um civil, um paisano folgado.
Com o Sargento Moisés não acontecia de forma diferente, embora ele quisesse, e a esposa também, a qual já o havia acordado várias vezes quando ele começava a se debater enquanto dormia. E, naquela noite, os dois iriam ao parque de exposições da cidade para assistir ao show da dupla Victor e Leo.
Na entrada do parque, para não se identificar como policial, Moisés até entrou na fila para comprar os ingressos para ele e para a esposa. Percebeu, porém, que os seguranças estavam efetuando busca pessoal. Como ele estava armado, não teve outra opção a não ser se identificar antes que o segurança lhe revistasse e ficasse assustado com a arma, podendo ter alguma reação inesperada e causar uma tragédia.
Depois, junto com a esposa, procurou um lugar discreto para assistir ao show como um civil qualquer. Aos poucos, o espaço foi sendo ocupado, até se transformar numa grande massa humana. O sargento não conseguia desarmar o espírito policial. Ficava a todo momento espreitando o público.
De repente, ocorreu uma discussão de casal próximo a ele. Moisés decidiu que iria atuar só em último caso. Ficou olhando para o casal, que trocava insultos sem se importar com o escândalo que estava fazendo. O marido nervoso começou a desferir murros na esposa, fazendo com que Moisés se preparasse para levantar. Mas não foi preciso que o graduado atuasse; um grupo de policiais militares que fazia a segurança do evento chegou e pôs um ponto final na confusão.
Minutos depois, surgiu uma briga no meio da multidão. Os policiais se aproximaram dos contendores. O coração do Sargento Moisés acelerou; se percebesse que os colegas estivessem em dificuldade, não exitaria um milésimo de segundo em ir correndo para ajudar os irmãos de farda. Nesse momento, ele já tinha até esquecido da deliberação de ser apenas um civil, um paisano folgado. Contudo, não foi preciso atuar; os policiais rapidamente dominaram os estraga-festas e os conduziram ao posto de triagem.
Por algum tempo, Moisés teve uma trégua e pôde assistir ao show dos artistas conterrâneos. Que vida boa, sapo caiu na lagoa, sou eu no caminho do meu sertão...
Terminado o show, quando ia embora, o sargento sentiu um cheiro de maconha no ar. Olhou em derredor, mas não viu ninguém com cigarro aceso.
- Que foi amor? - perguntou a esposa, preocupada.
- Tá sentido o cheiro?
- Amor, você tá de folga. Desliga um pouco!


Nota: Esta é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com fatos reais é mera coincidência.

 “É livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independetemente de censura ou licença” - Inciso IX do artigo 5º da Constituiçaõ Federal.



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4 comentário(s):

dalmo josé disse...

o negocio é automatico,não dá pra esquivar.ta no sangue.

Anônimo disse...

Tá no sangue só de alguns pois já trabalhei com muito tipo de gente que mesmo vendo passa longe do sangue, dos olhos, da vp,de tudo. É lamentável, é um salário jogado fora, tá ali só para sugar. Tenho nojo desse tipo de gente não só na instituição mas em qualquer setor público.

José Ricardo disse...

Concordo. Mas também vejo muito profissionais que, de tantas injustiças que sofreram, acabaram ficando desmotivados.

Anônimo disse...

Que dahora mano apesar de o passado de meus tios terem sido de bandido e traficante eu tenho na veia a policia,meu pai sempre graças a DEUS me deu e continua dando um bom exemplo
se DEUS quiser um dia vou ser um Tenente da PMMG

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