O sorriso do mal

terça-feira, 19 de agosto de 2008

O sorriso do mal

    * José Ricardo

As duas viaturas, em deslocamento, emparelharam-se. O Sargento Moisés, comandante de uma delas, gritou para os militares da outra guarnição:
- Nós vamos chegar por um lado, e vocês, pelo outro. É pra jogar todo mundo na parede. Beleza?
O Cabo Werneck, comandante da outra guarnição, respondeu:
- Beleza beleza, sargento.
As duas viaturas se separaram; cada qual convergiu para uma rua, a fim de chegarem por lados opostos, cercando quem quisesse evadir do Bar da Esquina. Segundo denúncia anônima, quatro indivíduos estariam consumindo entorpecentes nesse bar. A averiguação de denúncias como essa era rotina para os militares, motivo pelo qual o planejamento foi simples: cercar as saídas e revistar todo mundo. Claro que tudo dentro das técnicas policiais e de acordo com os direitos humanos.
Dirigindo-se para o local, o sargento se preparava. Fez uma inspeção visual na arma e disse para o patrulheiro:
- É pra chegar com energia, beleza?
- Beleza, sargento.
As viaturas, simultaneamente, chegaram defronte ao bar, cada qual por um lado, surpreendendo os circunstantes e não dando chance para qualquer tentativa de fuga. De dentro da viatura, o sargento determinou para os clientes que estavam na entrada do bar:
- Abordagem policial! Todo mundo coloca a mão na cabeça e encosta na parede!
Rapidamente, os militares desembarcaram. Dois ficaram do lado de fora do bar monitorando os clientes, e os outros adentraram no estabelecimento.
- Abaixa o som!- determinou o sargento para o dono do bar. - É uma abordagem policial! Todo mundo saia do bar com a mão na cabeça! As mulheres também!
Nesse momento, enquanto os clientes iam saindo, um rapaz despistou e tentou entrar no banheiro. O Cabo Werneck percebeu a movimentação e gritou:
- Foge não! Volta aqui! Põe a mão na cabeça!
O rapaz, numa tentativa derradeira, jogou um invólucro de plástico no chão. Werneck pegou o invólucro e constatou que se tratava de um papelote contendo uma substância semelhante à cocaína.
- Isto é seu? - perguntou o cabo.
- Eu sou usuário, senhor. Eu sou trabalhador.
- Continua com a mão na cabeça e vai pra fora da bar.
Quando ambos chegaram do lado de fora do estabelecimento, o Cabo disse ao sargento:
- O cidadão aqui tentou dispensar este papelote.
- Fernando, grampeia ele - determinou o sargento para o Soldado Fernando, patrulheiro de sua guarnição.
No momento em que algemava o usuário, Fernando disse-lhe:
- Você está sendo preso por trazer consigo substância semelhante à cocaína. Vamos te conduzir pra delegacia de Lagoa Azul.
- Me prende, não, doutor. Me prende, não. Eu sou trabalhador. Eu não sou traficante, não. Nó… Se minha mulher souber disso…
- Pensasse nisso antes. Você tá financiado o tráfico e quer que eu não te prenda. Pra mim, você é tão criminoso quanto qualquer traficante. É você que municia eles.
- Coloca ele no banco de trás da viatura - determinou o sargento.
- Me prende não, sargento. Me prende não. Eu sou trabalhador.
O sargento fingiu que nem ouviu. O usuário que se danasse. Era ele quem municiava os soldados do tráfico. Ainda estava tendo sorte por estar sendo conduzido no banco de trás da viatura. Se não fosse pelos direitos humanos, ele iria era no porta-malas.
Terminada a revista nos clientes e não sendo encontrada nenhuma outra substância aparentemente ilícita, o sargento tratou de qualificar duas testemunhas. Depois disso, agradeceu os militares da outra guarnição:
- Beleza, gente. Obrigado pelo apoio.
- Beleza beleza. Se precisar, estamos aí - respondeu o Cabo Werneck.
Os militares embarcaram nas viatura e saíram do local. A guarnição do cabo Werneck retornou ao patrulhamento normal; a do sargento, deslocou em direção à delegacia com o conduzido.
Durante o deslocamento, o usuáro começou a chorar. Apesar de surpreso, o sargento ficou indiferente ao choro. Você está financiando a morte de policiais e de pessoas inocentes. Você que se dane, pensou.
Quando chegaram à delegacia, um traficante, que aguardava para ser autuado em flagrante, viu o usuário chorando e começou a rir.
- Que foi, véio - perguntou o traficante, em tom de deboche.
- Os homi me pegaram com pó - respondeu o usuário, em meio a soluços e lágrimas.
O traficante, com sorriso no rosto, ficou olhando para o usuário. Na verdade, quem deveria estar chorando era o traficante, pois era ele quem seria autuado e ficaria atrás das grades até que um juiz expedisse um alvará de soltura. Mas não; a cadeia não era nenhuma novidade para ele. Sabia que seria somente uma temporada; talvez curta. O palhaço tá chorando. Panaca!, pensava o traficante.
O sargento percebeu o escárnio no rosto do traficante.
- Pára de rir! Tem algum palhaço aqui?
O sargentou virou-se para o usuário e disse-lhe:
- Tá vendo. O traficante tá é rindo da sua cara. Ele não tá nem aí pra você. Enxuga esse rosto! Vai, enxuga logo!
- Eu sou trabalhador, sargento. Eu sou trabalhador.
 
Nota: Esta é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com fatos reais é mera coincidência.
 
“É livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independetemente de censura ou licença” - Inciso IX do artigo 5º da Constituiçaõ Federal.



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1 comentário(s):

Cláudio Meireles disse...

Muito bom! Só acho que o usuário não deveria ser conduzido, porque:

1.Tempo dos Policiais, gasolina do Estado, desgaste de peças e pneus da Viatura etc, que poderiam ser utilizados numa ocorrência mais relevante, ocupados num ocorrência irrisória.

2. Vai ser lavrado TCO e provavelmente o Juiz não terá nem a paciência de adverti-lo. Porque... ninguém aqui é inocente de acreditar que advertência de Juiz, ou mesmo pena de prestação de serviços ou restrição de direitos, vai fazer com que alguém pare de usar entorpecente, certo?

3. Mobilizará todo o sistema penal, PM, PC, MP, JEC e etc... pra lidar com um problema que não é do Direito Penal. Enquanto isso, os criminosos que merecem PRIORIDADE, tem prisões toscas, flagrantes sem provas ROBUSTAS, e etc, e ae ficam rindo mesmo, de nós trouxas que gostamos de ficar enxugando gelo e correndo atrás de maconheiro, chincheiro e crackudo.

Tenho um amigo em duma cidade do interior de Minas, que deve ser conhecido de muitos aqui (por isso não coloquei o nome da cidade), maconheiro convicto, que já foi "preso" mais de 20 vezes por portar entorpecente pra uso pessoal.

O Juiz olhava pra ele, gargalhava de rir, mandava ele assinar lá o papel e ir embora.

Ae uma vez eu estava sentado com ele no bar, ele me contando isso e perguntei assim:

__ Fulano, algum dos Policiais CONVERSOU com você?

__ Não, tomei alguns tapas e esculacho algumas vezes, mas conversar ninguém nunca fez isso não.

__ Mas e se ao invés de tapa, esculacho e prisão, um Policial falasse com você assim:

"Cidadão, já que você decidiu por ser usuário de entorpecente, será que você não pode fazer esse uso num local mais reservado, que não incomode outras pessoas? Na sua casa, num local mais afastado. Tem que fumar maconha aqui esparrando na frente de todo mundo? Tem que fumar maconha em baixo da janela da Sra. idosa, pra incomodar ela, e ela chamar a Polícia por causa de maconheiro?


Silêncio... ele pensa e me responde:


__ Uai velho... eu nunca tinha pensado nisso... Se algum Policial tivesse me falado desse jeito que você me falou... Vc (eu) tem razão "mano", vou fumar na minha e não vou incomodar ninguém mais não.

Lamentável que todo "maconheiro" não pense assim. Lamentável que alguns queiram soprar fumaça na cara dos outros, ainda mais agora que estamos a beira da descriminalização. E me furto aqui de opinar sobre, pois isso merece um outro post.

Depois dessa conversa, os PMs desta cidade tiveram um "infrator" a menos com que se preocupar. Até deram falta dele, porque o abordavam no automático.

Enfim, pensemos, reflitemos sobre o alcance e magnitude de nossas ações e decisões.

Grande abraço a todos

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