Troca de Tiros - Entre a excitação e a racionalidade

sábado, 30 de agosto de 2008

Troca de Tiros - Entre a excitação e a racionalidade

Às vezes, policiais recém-formados me perguntam se é legal participar de uma troca de tiros. Percebo certa excitação nessas perguntas, um certo desejo de participar de uma troca de tiros. Eu sempre respondo que, se você sair vivo, pode ser legal. Para o Soldado Anderson Torres, do Batalhão ROTAM, não foi nada legal ter participado de uma troca de tiros, porque, infelizmente, ele não saiu vivo.

Policias novatos têm um imaginário fantasioso acerca de uma troca de tiros; imaginário advindo de filmes como Rambo, Tropa de Elite, ou de jogos eletrônicos, como Counter Strike, Rainbow Six e S.W.A.T. A vida real, porém, em nada se assemelha com filmes e jogos. A vida é algo único. Se você morrer, acabou. Não tem retorno.

No meu início de carreira, eu também tinha esse imaginário falso sobre a troca de tiros. Sentia uma excitação quando via aquelas trocas de tiros entre policiais e traficantes no Rio de Janeiro. Sentia o desejo de estar lá junto dos policiais. Era  quase uma certeza de que eu não morreria. Mas, com o tempo, com a vivência de momentos de dificuldade, nos quais um minuto parece durar uma hora, em que o reforço parece nunca chegar e você percebe que sua vida está por um fio, foi  então que eu percebi que não era Rambo, que meu corpo não era feito de aço e que não há nada mais valioso do que a vida. Repito: Se você morrer, acabou.

Além dessa excitação, eu não sabia das consequências do uso da força. Achava que era só atirar e pronto; nada iria acontecer comigo. Achava que era como nos filmes, em que o herói mata o vilão e vai embora para casa. Na vida real, existem os APFs, os Procedimentos Administrativos, as Corregedorias, as Comissões de Direitos Humanos… Mesmo agindo dentro das excludentes de ilicitude, você pode ficar preso, privado de sua liberdade, atrás das grades, até que um Juiz expeça um alvará de soltura. A vida real é bem diferente dos filmes e jogos eletrônicos.

O uso da força, em qualquer nível, quase sempre suscita apurações e, quem vai julgar se a ação foi legítima ou se houve excesso vai ser uma pessoa que não viveu o que você viveu, que não esteve lá nos momentos em que você ficou em dificuldade. O que o julgador vai decidir, sentado em sua cadeira analisando friamente a legislação, é algo imprevisível.

Nos meus primeiros anos nessa profissão, eu buscava o combate. Com o tempo, fui percebendo que nem sempre vale a pena, pelo menos para nós. Percebi que estava enxugando gelo, mas esta é uma percepção muito pessoal. Nem todos pensam assim, e é bom que não mudem de pensamento, porque reflete em benefícios para a comunidade. Imagine se todo policial ficasse desmotivado depois de prender um homicida ou um traficante e vê-lo solto na semana seguinte? Imagine se todos notassem que estavam enxugando gelo? Pois é, que bom que nem todos pensam assim.

Finalizo manifestando minhas condolências à família do Soldado Anderson Torres, mártir da luta contra o tráfico de drogas, e à família ROTAM, composta de homens de fibra e de coragem.



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5 comentário(s):

soldadopi disse...

recebi uma mensagem e postei. pms foram presos no ceara. dá uma olhada no soldadopi.stive.com.br

Anônimo disse...

Meu caro, josé Ricardo,há muito tempo não aprecio um comentário tão racional e tão realista como o seu. Tenho a mesma linha de pensamento e, além disso, eu acrescentaria ao seu comentário o fato de haver certa resistência por parte de alguns policiais a esta realidade. Infelizmente, existem maus profissionais em nosso meio, que não conseguem enxergar um palmo diante do nariz, que pressionam os policiais mais jovens na tentativa de induzí-los a fazer aquilo que eles gostariam, mas não têm coragem. Isso acontece porque alguns policiais mais experientes tentam se aproveitar da empolgação dos menos experientes, diga-se de passagem numa forma covarde de agir.É percepptível, que até mesmo alguns, considerados mais inteligentes, se enveredam pelos caminhos vaidosos que lhe são apresentados. Consequentemente, os processos na justiça virão e, quando se tem muita sorte, estes ficam somente no âmbito da justiça militar, mas, infelizmente, muitos vão parar no tribunal do júri. Logo, gasta-se o que tem e o que não tem com advogados sem saber o destino certo ficando,assim, entregue a sua própria sorte. Isso quando não vai parar num manicômio ou perde a vida dando cabo de si mesmo. Portanto, ouçam-me, agora, policiais que se empolgam com as trocas de tiro. Vivam intensamente sua fase, todavia controle os seus atos, caso contrário as conequências deles te controlarão. Naõ vá pela mente dos outros, selecione seus amigos, viva a sua vida, siga seus instintos e, principalmente, acredite em Deus, pois ele fará você ser o mais família possível e isso é louvável e funadamental em qualquer profissão. Abraço a todos.

José Ricardo disse...

Excelente o comentário anterior. Excelente!

CESAR disse...

É COMPANHEIROS, CADA VEZ MAIS, ME SINTO FORA DO CONTEXTO, PERSONAGEM DE OUTRO MUNDO, UM GRANDE CONFLITO ME ABATE!OU MORREMOS NUM CONFLITO COM MARGINAIS, OU MOFAREMOS NAS GRADES DE UMA CADEIA MILITAR. MAS ACREDITO AINDA QUE SE CREMOS EM DEUS, ELE NÃO NOS DÁ UM FARDO QUE NÃO CONSEGUIREMOS CARREGAR, POR VEZES COLEGAS ALERTAM PARA QUE EU PARE DE PRENDER, FAZER, MUDAR,MAS, NÃO ME RENDO, SE TODOS ABANDONAREM SEU BRIO, SUA VONTADE DE MUDAR 0,00001% DO MUNDO, ENTÃO PASSAREMOS POR ESSA VIDA E CHEGAREMOS NO FIM, SEM SABER QUEM FOMOS, SEM TER O QUE DIZER AOS SEUS NETOS.NÃO CREIO QUE VOU PASSAR POR ESTE MUNDO, SEM NINGUEM LEMBRAR MEU NOME AS LOUCURAS QUE FAZIA.VIVEMOS NUM MUNDO HIPÓCRITA, MAS COVARDIA NÃO É MEU FORTE. ALGUNS COLEGAS SE ESCONDEM, ATRÁS, DO QUE SERIA O MEDO DE SE DAR MAL NUMA OCORRENCIA, MAS NÃO PENSA QUE POR ISSO, MUITOS PAGARÃO, O MEDO DE ENFRENTAR O LOBO HOJE, VAI CAUSAR A MORTE DAS OVELHAS AMANHA. ACHO QUE SÓ PRECISAMOS NOS APRIMORAR, TROCAR A POLICIA POLÍTICA, PELA POLICIA REALISTA, ACHO QUE NÃO VEREI ESTE DIA, MAS SE ALGUNS PERDERAM SEU BRIO PRÓPRIO, ME ESFORÇAREI PARA CARREGAR, MAIS UM COVARDE NOS OMBROS.

Anônimo disse...

Às vezes, policiais recém-formados[...]

Parei de ler aí, o velhote generalizando pessoal mais novo, como se fosse o fodão.

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