Uma vela pra Deus e outra pro diabo

terça-feira, 19 de agosto de 2008

Uma vela pra Deus e outra pro diabo
 
    * José  Ricardo

O que esse safado tá fazendo aqui?, pensou o Sargento Moisés assim que entrou na igreja e viu o Carioca, traficante de drogas da Favela do Caldeirão. O sargento não estava acreditando naquele paradoxo. O safado acendia uma vela pra Deus e outra pro diabo. Errado. Há mais de dois mil anos, Jesus já dizia que não era possível servir a dois senhores. Ou se servia à Deus, ou se servia ao diabo. Quem vende ilegalmente uma substância que vicia, que arruína famílias e que mata, e mata muito, direta e indiretamente, não poderia jamais servir à Deus. Que dilema; o que uma pessoa dessas poderia estar fazendo numa igreja, na casa de Deus. Hipócrita. O sargento avançou pelo corredor da igreja. Henrique olhou para trás. O olhar dos dois se cruzaram. O traficante identificou o sargento e voltou a olhar para frente, fingindo que não o tinha visto ou que não o conhecia. O sargento continuou olhando o traficante de soslaio e depois sentou-se; passou a missa toda pensando em como uma pessoa poderia ser tão hipócrita. Era uma manhã de um domingo ensolarado. Moisés trabalharia à noite. 
Já em casa, o sargento não conseguira tirar da cabeça a cena do traficante na igreja. O dia foi passando, a noite chegou. Moisés se arrumou, pegou um ônibus, chegou ao quartel, equipou-se, assumiu a viatura e, junto com o Cabo Wilson, foi para as ruas prender vagabundo. Já na primeira abordagem, os dois militares acharam três papelotes de crack dentro da boca de um usuário. 
- Onde você comprou essa porcaria!? 
- Não posso falar, senhor. Os cara lá em cima me mata. - Ah, então você comprou lá em cima, na Favela do Caldeirão. - O usuário ficou calado. 
- Fala! Pode falar! Eu já sei até quem te vendeu. Foi o Carioca, não foi? Fala! Foi ou não foi!? 
- Eu não posso falar, senhor. 
- É um rapaz negro, com uma tatuagem de um caixão no braço, não é!? - O usuário balançou a cabeça, em sinal de concordância. - Wilson, chama no rádio aí mais uma viatura pra gente ir lá pegar o safado. É hoje que nós vamos grampear o Carioca! 
- Eu não vou lá não, senhor - ponderou o usuário. 
- Vai lá sim! Quem falou que você pode escolher. Quando a gente chegar lá, você tampa o rosto com sua blusa e abaixa a cabeça. Pode ficar tranqüilo que ninguém vai te ver. 
Assim que a outra guarnição chegou, os valorosos militares se dirigiram para a Favela do Caldeirão, especificamente para o Bar Esquinão, de propriedade do Carioca. Os policiais já tinham conhecimento de que Carioca traficava drogas em seu bar, mas o difícil não era saber, era dar o flagrante com provas suficientes para a lavratura do APF - Auto de Prisão em Flagrante. 
Alguns circunstantes que estavam próximos ao bar foram saindo despistadamente quando viram as viaturas se aproximando em alta velocidade, com os faróis apagados, mas ninguém conseguiu fugir. Os militares chegaram com energia, com sempre faziam. Ação vigorosa, rapidez. Desembarcaram, entraram no bar, gritando: 
- Abordagem policial! Todo mundo com a mão na cabeça! Rápido! Rápido! 
O sargento imediatamente dirigiu-se para o balcão do bar, onde encontrava-se o Carioca. Este tentou esconder uma porção de papelotes de plástico contendo entorpecentes, mas foi surpreendido pelo militar. 
- Larga isso aí! Coloca a mão na cabeça! 
- Os caras mandaram eu guardar isso pra eles e correram pro beco. 
- A casa caiu. Não vem com desculpa que eu já sei de tudo. 
- Isso não é meu, não. Foi os cara que deixaram aqui e vazaram pro beco. 
- É meu então, né… A casa caiu, você perdeu! Vem cá pra fora. 
Farta quantidade de entorpecentes já embalada para a venda foi encontrada nas dependências internas do bar, sobretudo perto do balcão. Além do Carioca, dois freqüentadores do bar foram detidos por estarem portando pequena quantidade de maconha. 
Quando o sargento colocava o Carioca no xadrez da viatura, este disse: 
- Que isso, sargento. Eu te vejo direto na igreja. Você vai fazer isso comigo? 
- Eu nem sei o que você vai fazer na igreja. Você é um hipócrita. Eu não tô nem aí pra voçê! Você deveria é ter vergonha de entrar numa igreja. Acende uma vela pra Deus de dia e, à noite, outra pro diabo. - O sargentou virou-se para o Cabo Wilson e disse-lhe:
- Fecha a porta, tranca eles aí; vamos levar a turma toda pra delegacia!
 
Nota: Esta é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com fatos reais é mera coincidência.
 
“É livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independetemente de censura ou licença” - Inciso IX do artigo 5º da Constituiçaõ Federal.



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3 comentário(s):

Andre Esteves disse...

Conto irônico, gostoso de ser lido. Original até no título.

Dextermilian SD disse...

ótimo post! isso vai dar pano para mangas!!! quando a lei começa afetar os figurões do crime no brasil ,logo aparece os magistrados a serviços desses bandidos. no futuro ,tomara deus que seja bem distante , vejo uma guerra civil no Brasil, pois paciencia tem limite até para um povo calmo como o brasileiro.

Giovani Iemini disse...

"Quem vende ilegalmente uma substância que vicia, que arruína famílias e que mata, e mata muito, direta e indiretamente, não poderia jamais servir à Deus"
- mas bebida pode, né? até o padre e o pastor gostam...

"os dois militares acharam três papelotes de crack dentro da boca de um usuário. "
- é, grande apreensão, muito relevante.

"Assim que a outra guarnição chegou, os valorosos militares se dirigiram para a Favela do Caldeirão, especificamente para o Bar Esquinão, de propriedade do Carioca"
- poisé, levando À FORÇA alguém que não queria colaborar. seria isso privação de liberdade? bem valorosos esses militares, né!

"Eu não tô nem aí pra voçê!"
- grande exemplo de cristão.

e no fim, eram apenas pms... que se acham senhores da justiça.

gostei da história não. é cheia de preconceitos e inverdades.

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