Vida e morte de um bandido

sábado, 9 de agosto de 2008

VIDA E MORTE DE UM BANDIDO
  • Pracinha
Fruto de uma gravidez indesejada, Di Menor nasceu de uma adolescente de 16 anos. Negra, pobre e semi-analfabeta. O pai e a mãe de Di Menor se casaram por imposição das famílias. O relacionamento durou menos de dois anos. As brigas eram constantes. O pai arrumou um rabo-de-saia em outra freguesia e sumiu. A mãe de Di Menor nunca mais viu o ex-marido. Arrumou um emprego de doméstica para sustentar a casa.
A mãe de Di Menor não tinha tempo para o filho. A jornada dupla de trabalho consumia-lhe todo o tempo. O menino foi sendo criado sem limites. Quase não ia às aulas. E, quando ia, só aprontava. Sua ausência era motivo de alegria para os funcionários da escola.
Di Menor fora à igreja uma ou duas vezes, por absoluta insistência da tia. Sua mãe era católica não-praticante, que tinha como dever sagrado tomar umas e outras todo final de semana.
Alguns anos depois da morte do ex-marido, a mãe de Di Menor arrumou um companheiro. Servente de pedreiro, sem estudo, alcoólatra, negro e pobre. Di menor presenciou muitas brigas entre a mãe e o padrasto. A presença da Polícia na sua casa era constante. Sempre terminava com o casal na delegacia.
Di Menor foi crescendo em estatura e malandragem. Chegou aos 13 anos como um filho mau-criado e um aluno repetente. Já tinha sua ficha suja nas escolas. Vandalismo, brigas, ofensa verbal aos professores. Por fim, foi expulso de todas as unidades de ensino da cidade.
A rua era sua vida. Andava sempre com más companhias. Foi apresentado às drogas quando criança, mas se viciou aos 14 anos.
Di Menor não gostava de trabalho pesado, que era sua única opção de ganhar dinheiro honesto, uma vez que não tinha estudo. Para sustentar o vício, começou a praticar furtos em imóveis e a transeuntes. Foi preso pela primeira vez aos quinze anos. Foi detido outras dez vezes no período de um ano.
Entrou para o tráfico aos dezesseis. Começou na função de olheiro. Com o dinheiro fácil, comprou um revólver. Assaltou coletivos, pizzarias, transeuntes, etc., mas não saiu do movimento. Foi preso mais algumas vezes. O gerente da boca-de-fumo simpatizou com Di Menor; ele assumia tudo. Livrou o gerente algumas vezes do Auto de Prisão em Flagrante.
Di menor nunca passou mais de duas semanas na cadeia. Sempre havia advogados, promotores e juízes sensíveis às causas da criança e do adolescente. A sociedade devia pagar o preço por não ter dado condições para que Di Menor tivesse o adequado desenvolvimento físico, mental, espiritual e social, em condições de liberdade e dignidade. Defendiam veementemente que Di Menor era vítima de uma realidade social negligente, discriminadora, exploradora, violenta, cruel e opressora.
Aos dezessete anos, Di Menor engravidou uma adolescente. Gravidez indesejada. Ele não tinha a menor intenção de assumir a paternidade.
Diziam que Di Menor já havia matado um desafeto negro, pobre, semi-analfabeto e trabalhador. A lei do silêncio teria encoberto o crime. Certa vez, na iminência de ser preso, trocou tiros com a Polícia.
No dia do nascimento de seu filho, Di Menor fazia a segurança da boca-de-fumo. Havia sido promovido a soldado do tráfico. Três viaturas da Polícia Militar chegaram em alta velocidade. Di Menor ficou acuado. Não tinha para onde correr. Era se entregar ou resistir.
O Cabo Argoud, ainda dentro da viatura, viu Di Menor colocando a mão numa arma que portava na cintura. Ouviram-se cinco tiros disparados em rápida seqüência. Di Menor sentiu cinco projéteis nove milímetros transfixando-lhe o tórax. Acabou morrendo no compartimento de presos de uma viatura policial, a caminho de um Pronto Socorro.
A população ordeira, finalmente, estava livre de um menor infrator negro, pobre e semi-analfabeto, vítima de uma realidade social negligente, discriminadora, exploradora, violenta, cruel e opressora.



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