Em terreno de combate

domingo, 7 de setembro de 2008

EM TERRENO DE COMBATE

  • Cristian Valverde

Para cada escuridão há outra escuridão.
Na guerra, o que já é naturalmente ruim costuma ser muito pior. Anos depois, sentado em frente a este computador, tento olhar para o meu passado – encará-lo – e tirar daquele fatídico dia um sentido sequer. O que realmente aconteceu é o que estarei relatando nessas linhas, e embora alguém provavelmente vá dizer que um velho como eu já não tem uma mente lúcida, eu afirmo que ela nunca esteve tão sã desde que recebi minha medalha de mérito, juntamente com minha reforma compulsória. Foi na época da Segunda Grande Guerra Mundial, quando faltavam apenas poucas semanas para a França ser subjugada pela Alemanha.
        As coisas não corriam bem no front, naquela tarde. Pelo menos não para nós. Estávamos mais que exaustos e a todo momento eu achava que desfalecia por causa do cansaço. Tenho a impressão que acontecia o mesmo com meus subordinados, porque sempre que olhava para um ou outro, pegava-os alheios, olhando para o nada. Algumas vezes era necessário dar-lhes cutucões bruscos para que eles voltassem para a realidade. A bem da verdade, estávamos há mais de duas semanas sem uma noite inteira de sono e, naqueles últimos dias, não conseguíamos sequer emendar uma hora completa dormindo ininterruptamente.
        A chuva fina, gelada e insistente estava durando muito também. Fazia os dias ficarem homogêneos. Não tinha diferença alguma entre as manhãs e as tardes. Apenas as noites eram mais escuras e geladas. E tudo era lama. Éramos como homens de lama, vagando por um mundo de lama. E vagávamos quase o tempo todo. Se ficássemos muito tempo parados, logo estaríamos tremendo como varas-verdes.
        Não vou mentir, tive momentos em que simplesmente desejei sentar ali e morrer. Também tive momentos em que absolutamente nada passava em minha cabeça. E algumas dessas vezes era eu quem tomava os cutucões. Quando acontecia, o mundo voltava aos eixos e eu logo me via de novamente naquele caos frio e enlameado. Piscava, olhando para o fuzil que descansava em meu colo e olhava para o companheiro responsável por me trazer de volta ao mundo. – Estou bem. – eu sempre dizia.
        Ao fundo, o som terrível das metralhadoras cuspindo morte na tarde chuvosa. Era difícil saber o número de baixas. Escutávamos os gemidos – alguns duravam insuportáveis horas inteiras – mas quase nunca conseguíamos identificar quem eram os feridos. O que podíamos dizer com total e absoluta certeza era que nosso companheiro ao lado não estava sangrando, ou com as vísceras expostas, e isso era o máximo de informação que conseguíamos naqueles momentos. Eu era o comandante de meu pelotão e tudo o que importava eram os homens que estavam sob meu comando. Foi quando ouvi um deles, em algum lugar fora do meu alcance de visão:
        - Sargento! Não suporto mais isso aqui, senhor. – pela voz chorosa, imaginei que fosse o Luc.
        - Fique quieto, seu bosta. O que você é, um homem ou um saco de merda? – retruquei, olhando para os meus coturnos enlameados. Minhas pernas estavam esticadas à frente, enquanto minhas costas pressionavam o barranco que utilizávamos como trincheira. Meus pés estavam congelados e dormentes lá dentro. Estiveram gelados por toda a manhã, e por toda a madrugada antes da manhã. Na verdade, eu não me lembrava da última vez em que eu os sentira quentes.
        Outras vozes reclamaram para que ele se calasse. Ele, ao contrário, continuou.
        - Tudo que eu queria era voltar lá pra casa. Sabe, sargento, eu tenho uma mulher me esperando. – sim, era mesmo o Luc. Sempre falava de como era maravilhosa a vida ao lado de sua esposa. O idiota casou-se semanas antes de vir para a guerra. O pior é que sabia que seria convocado e resolveu, assim mesmo, deixar para trás uma esposa apaixonada esperando pelo seu retorno.
        - Oh, cale essa boca! – disse alguém, provavelmente Antoine.
        - É sim, ela faz uma comida maravilhosa! – continuou Luc.
        - E mete maravilhosamente, como uma cadela no cio. – retrucou alguém, mais distante agora. O comentário proporcionou uma inacreditável onda de risos.
        Risos. Era bom ouvi-los rindo. Ajudava a aliviar a tensão. Bem, Luc não pensava dessa maneira, pelo menos não com aquela piada.
        E, subitamente, o que estava ruim começou a ficar pior. Nossa posição já havia sido denunciada havia horas. Na verdade, o inimigo já estava ciente de nossa presença desde a madrugada anterior, quando fomos surpreendidos bem próximos do nosso objetivo. Muitos do pelotão já não estavam mais com a gente, e isso era ruim o suficiente. Mas começou a piorar quando uma granada explodiu muito perto de nós.
        A primeira granada explodiu levando consigo um de meus homens. Levou, mas não de imediato. Geralmente nunca é. A gente ainda fica muito tempo escutando os gemidos, momentos insuportáveis, onde a gente simplesmente tem vontade de ir até lá e enfiar uma bala na cabeça do moribundo, acabando de vez com o sofrimento. Daquela vez foi o soldado Herbrard. Um bom garoto; isso é o máximo que eu posso dizer dele naquela época. Um moleque que nem ao menos tinha idade para ter filhos que tocavam punheta. Sempre entrava em conflito com alguém que o comandava, o que não é muito lucrativo para o militarismo, mas mesmo assim não havia nada a mais que eu pudesse dizer de ruim a respeito dele.
        Assim que o estrondo da explosão parou de ecoar em meus ouvidos, eu ainda não sabia se havia algum ferido, então evoquei o plano de chamada, onde cada um gritava, sucessivamente, o seu respectivo número. Eu, por ser o comandante, sempre começava.
        - Plano de chamada! Atenção todos! UM!
        - DOIS! – gritou Françoise, de algum lugar à minha esquerda. Meus ouvidos ainda zuniam.
        - Te-TRÊS! – Jacques Louis estava ao meu lado, olhando para as próprias pernas e braços, procurando algum pedaço que porventura estivesse faltando. Parecia não acreditar que estava inteiro depois de uma explosão daquelas. – Três! Eu estou legal!
        O quarto homem era Herbrard, que não respondeu. Ergui-me atrás da trincheira improvisada procurando-o em meio ao caos, enquanto as balas zuniam próximas demais de minha cabeça. Herbrard estava caído próximo de uma barricada de pneus, galões de plástico cheios de terra e sacos de aniagem cheios de areia. Um enorme pedaço de ferro estava enfiado em seu pescoço. Suas pernas sacolejavam como molas.
        - CINCO! – gritou Luc.
        - SEIS! - Jean-François berrou com raiva. Parecia estar chorando. Herbrard e ele se tornaram grandes amigos desde a convocação, o que ajudava a nutrir entre o pelotão algumas piadinhas espirituosas entre Herbrard, sua esposa e ele.
        - SETE! – gritou Jean-Pierre.
        - OITO! – William, o nosso cozinheiro gritou de seu canto. Parecia um pouco distante. Talvez se encontrasse na rabeira e, considerando a falta que uma boa comida faz para os franceses, preservar um cozinheiro era uma coisa inteligente a se fazer em uma guerra. Estávamos sendo estúpidos em deixá-lo tão para trás. Embora naquele momento eu tivesse pensado nisso, pensei também que muito provavelmente nem sairíamos dali com vida.
        - NOVE! - DEZ! – gritaram Claude e Tierry, quase ao mesmo tempo.
        A missão era simples: estávamos guardando uma parte da fronteira que nosso país fazia com a Bélgica. Era um lugar praticamente intransponível devido à dificuldade de acesso e às cadeias montanhosas que existem na região. Estávamos em um número pequeno, pois os chefões acreditavam que, caso houvesse uma tentativa de invasão, ocorreria pelo norte, e não ao sul. O que fazíamos durante a maior parte dos dias era jogar baralho, falar de nossa vida inútil antes da guerra, relatar detalhadamente nossas peripécias sexuais extraconjugais (ou não) e reclamar da mesmice e da comida – embora William estivesse fazendo um ótimo trabalho.
Quando fomos atacados, foi praticamente uma surpresa para nós. O soldado Jones – que Deus o tenha - desceu de seu posto de observação dizendo que viu um movimento estranho na floresta, na outra margem do rio Meuse. A notícia chegou praticamente com os tiros. Nosso pelotão reduziu-se drasticamente e antes que pudéssemos perceber, um terço sucumbiu graças às metralhadoras e granadas e o outro terço morreu no combate homem a homem. Foi uma briga feia e sangrenta, porém valente. Muitos dos deles também morreram durante esta batalha. Acho que esperavam encontrar homens assustados, surpresos e sem reação, mas eles também se surpreenderam conosco. O terço sobrevivente se escondeu pelo caminho quando vimos que estávamos perdendo. Esgueiramos para onde estávamos agora e ali ficamos, acuados. Não sabíamos ao certo quantos deles ainda restavam, mas algo me dizia que não eram poucos. Temíamos locomover por causa das armadilhas que eles poderiam ter colocado no caminho e sabíamos que eles estavam esperando para terminar conosco. Desestimulados, já estávamos naquele acampamento já há vários dias sem muita notícia sobre o que estava acontecendo pelo mundo e sem ao menos um dia de sol.
        Nosso abrigo improvisado era precário, porém estava nos servindo bem. Era basicamente uma passagem de veículos, ladeada por dois barrancos, cavada em meio a uma densa floresta. Construímos barricadas aqui e ali, com pneus e troncos de árvore, assim como reentrâncias cavadas nas laterais, por boa parte do caminho. Uma caminhonete parada transversalmente barrava a passagem, mais à frente. A estrada ia dar em um vilarejo, uns oito quilômetros de onde estávamos, local onde as putas e os cabarés provavelmente eram mais abundantes que os árvores que nos cercavam.
        O barranco lateral de uma vala era onde eu descansava minhas costas, enquanto uma água lamacenta e gelada escorria para dentro de minha gandola. Levantei-me novamente e vi que Herbrard ainda estava na mesma posição, porém suas pernas estavam imóveis. Olhei para Jacques Louis e disse:
        - Me dê cobertura. – ele se ergueu, procurando adivinhar minhas intenções. Apontei para o corpo inerte de Herbrard.
        - Mas ele está morto! – disse ele entre os dentes.
        - O desgraçado está com minha caixinha de músicas.
        Ele me olhou como se eu estivesse ficando maluco.
        - Antes de sermos atacados, ele pediu para ver. – eu disse meio sem paciência, olhando para os dois lados, medindo minhas chances de atravessar a vala sem ser atingido por um tiro. – Disse que a música o fazia sentir-se feliz. Na confusão ele acabou ficando com ela. Preciso pegá-la de volta.
        Ele continuou me encarando, se recusando a tomar alguma decisão.
        - Não discuta! Apenas faça o que eu mando.
        - Sim, senhor. Darei cobertura!
        Deitei-me de barriga no chão e comecei a rastejar, ladeando a caminhonete, em direção a Herbrard, do outro lado. Mantinha o fuzil em minha mão direita. O rastejo era facilitado pela lama. O lugar que o pelotão se abrigou era uma barreira visual para o inimigo; se alguém quisesse me balear teria que dar as caras no topo do barranco. O meu medo não era esse. O que eu temia era que outra granada caísse na passagem. Mais uma daquelas no lugar certo e adeus à outra metade do meu pelotão.
        Talvez eu estivesse um pouco louco na ocasião, mas aquela caixinha de músicas era muito importante para mim. Perdê-la seria como perder a parte de minha humanidade que eu havia deixado para trás, em minha cidade, ainda intocada pela guerra.
        O objeto foi um presente de Jacobina, meu grande amor na época. Foi enviado em um veículo dos missionários da consagração de Saint Marrie, entregue diretamente a Cozete, uma enfermeira amiga de Jacobina que trabalhava no hospital municipal. Uma transação difícil que acho que Cozete só topou por que tinha muita consideração pela minha amada. Isso ou uma dívida antiga dos tempos de escola.
        A caixinha tinha o formato de um coração dourado e era cheia de arabescos vermelhos e roxos, em sua superfície externa. Ao abri-la, ouvia-se tocar Pour Elise de Beethoven. Cabia na palma de uma mão pequena (como a da bela Jacobina), e era atado a uma corrente folheada a ouro. Uma coisinha singela e muito bonita, que eu precisava recuperar.
        Um capacete inimigo apareceu no alto do barranco e seu dono, um jovem de olhos assustados ainda teve tempo de mirar em mim com seu fuzil e errar de muito longe, antes que Jacques L. o acertasse. Seu corpo rolou para dentro da vala. Eu peguei minha última granada e joguei na direção em que ele viera. A explosão deve ter matado mais alguns deles.
        Quando alcancei Herbrard, vi que seus olhos mortos fitavam o céu. Gotas de chuva caiam em seu globo ocular e escorriam como lágrimas pelo rosto e para a boca semi aberta. O pedaço de metal que o matara projetava-se de um lugar próximo ao pomo-de-adão, mas sua ponta escondida estava corpo adentro, em direção ao pulmão. Tateei os bolsos e achei o objeto. Peguei também uma granada que estava com ele e rastejei de volta.
        Naquele momento vi rolar para dentro da vala, cortando meu caminho uns quinze metros à frente, uma granada lançada pelo inimigo. Ainda rastejando, contornei rapidamente uma barricada de pneus e sacos de areia próxima a mim e encostei-me contra ela. Respirava em grandes haustos. O vermelho do terror estava em minha visão, pois eu não enxergava mais nada. Tapei meus dois ouvidos com uma força imensa.
        O som foi tão gigantesco e a explosão tão brutal que por um momento eu saí uns dez centímetros do chão. Acho que eu ainda gritava quando o som dos ecos do estouro se extinguiu mata adentro. O som das metralhadoras fazia uma sinfonia idiota, desritimada e ainda caía lama e pedrinhas do céu devido ao estouro. Não invoquei o plano de alarme. Queria me abrigar primeiro, antes de tudo. Saí de meu abrigo e, ao olhar para a minha esquerda vi que Jacques L. se erguia por detrás de seu esconderijo. Tinha os olhos assustados. Devia ter pensado que eu tinha desaparecido pelos ares quando não me viu depois do estouro. Sorriu tenso para mim.
Olhei para a direita, onde Herbrard estava caído, para me certificar que eu poderia seguir em frente sem ser atacado por trás, mas o que vi me deixou intrigado. O cadáver estava sendo arrastado. Eu via suas pernas desaparecerem para detrás das árvores. Aparentemente estava sendo puxado para fora do caminho. Ouvi algo vindo de lá, também. Apesar da chuva, das metralhadoras e do zumbido constante em meus tímpanos afetados, ouvi um som de sucção, de mastigação.
Apenas a curiosidade me fez voltar, nada mais. Herbrard já estava morto e eu não nutria nenhum sentimento de moral no que se dizia respeito a vilipêndio, pois era o que parecia estar ocorrendo lá. Se fosse o caso, seria novidade para mim. Até aquele momento eu não tinha escutado nenhum relato estranho a respeito dos alemães em relação a isso. E eu sabia que coisas piores aconteciam na guerra para que eu me preocupasse com um cadáver sendo vilipendiado. Mas, minha curiosidade era tão gigantesca que resolvi rastejar até lá novamente. Ajeitei melhor o meu fuzil e lentamente fui nadando na lama gelada, deslizando sobre ela. Apesar de estar de costas para Jacques, pude sentir o olhar de confusão que ele me lançava. Eu estava com os sentidos aguçados. O barulho rascante que vinha do meio das árvores fazia meus pêlos ficarem arrepiados.
Novamente pude ver as pernas de Herbrard. Fui ganhando um melhor ângulo de visão até que o vi da cintura para baixo.
- Meu Deus! – ouvi-me dizer. – Que diabos está acontecendo?
Herbrard, que eu vira morto há menos de três minutos atrás, agora se contorcia como uma enguia. Aparentemente lutava para se desvencilhar do que quer que estivesse segurando-o pela cabeça. Seus pés arranhavam o chão e sua cintura se movia loucamente. E o que quer que estivesse segurando-o ainda era desconhecido para mim. Estava escondido entre as sombras das árvores.
Confuso e assustado levantei-me para ajudá-lo, tendo em todos os meus membros uma gigantesca sensação de urgência. Eu estava aceso, elétrico como se tivesse um fio de alta-tensão ligado a mim. Porém a sensação que beirava o desespero se esvaiu como água em uma peneira quando vi o que o segurava. Tentei gritar, mas apenas um miado saiu de minha garganta. Meu coração pareceu parar por dois segundos. O que vi diante de mim, a menos de sete metros de distância provavelmente alteraria todo o curso de uma vida normal que eu esperava ter pela frente, caso saísse vivo da guerra. Eu, literalmente, me borrei todo.
Uma criatura gigante, com mais de dois metros e meio de altura estava agachada sobre ele. Tinha o corpo coberto de pêlos negros e aveludados. Sua cara enorme parecia-se com a parte frontal de uma lula, ou um polvo. Seus olhos eram rodelinhas negras e brilhantes que se projetavam para fora. Sua boca parecia uma tromba, e prolongava-se até onde deveria estar a cabeça de Herbrard, cobrindo-a. De lá partia o som de sucção. A coisa sugava o soldado como se ele fosse um milk shake, fazendo com que a tromba realizasse movimentos ondulares, em seguida mastigava o que quer que saísse dele para sua boca. Os dentes estavam escondidos, mas dava para notar o movimento do maxilar. Fosse o que fosse, o monstro tinha, de certa forma, uma aparência estranhamente antropomórfica. Porém, ao invés de braços ela possuía tentáculos, e ao invés de pernas, uma manta cartilaginosa negra e peluda que se espalhava como um véu de uma noiva. Segurava sua vítima pelos ombros utilizando os tentáculos e parecia alheia a tudo. Herbrard sacolejava tanto que parecia estar em convulsão.
Fiquei algum tempo apenas encarando aquilo, tentando assimilar, chocado demais para me mover, porém, o som de algo ósseo se partindo dentro da boca da criatura e o súbito acalmar da presa me fizeram recuar. Um passo para trás me fizeram cair sobre minhas próprias pernas. Tentei levantar-me, mas caí novamente. Mirei meu fuzil e o destravei. O barulho fez a coisa olhar para mim e guinchar. A criatura terminou de arrancar a cabeça de Herbrard do pescoço e a engoliu, ainda sem tirar os olhos de mim. Olhos faiscantes, que agora me olhavam desejosos.
Mesmo sem cabeça, o corpo no chão ainda se movia desesperado. Parecia que estava sofrendo a agonia da dor de ter a cabeça arrancada. O monstro com cara de polvo passou sobre ele, indiferente, deslizando sobre a parte de trás e utilizando os braços-tentáculos para se arrastar para frente. Vi a baba misturada ao sangue de Herbrard sair de sua boca. Ouvi um rosnado surdo. Atirei, tremendo como um covarde. Não dá pra não ser covarde numa situação dessas. O tiro acertou o lado esquerdo de sua face, onde um pequeno furo abriu-se como manteiga. A criatura urrou alto, recuando um pouco, mas em seguida, olhou-me novamente. Dessa vez não havia apenas cobiça em seu olhar; havia ódio.
Arrastei-me para trás o melhor que pude, ainda mirando-o. Atirei e desta vez um de seus olhos desapareceu com uma explosão de sangue preto e pêlos. Gritei comemorando, mas o bicho continuou seguindo depois de guinchar novamente de dor. Ele gemia agonicamente, mas não parava de avançar. Meus tiros o feriam, mas de longe o deixavam fraco. Pelo contrário, ele ficava com mais raiva.
Tateei meus bolsos e puxei a granada que tinha pego no bolso de Herbrard. Puxei o pino e lancei-a naquilo. Rolei de lado e me arrastei para trás de uma parede de sacos de areia, tentando me proteger. De lá ainda ouvia o bicho urrando e se aproximando mais e mais. Mas a granada não explodiu. O resultado foi que eu acabei por ficar cercado entre o barranco e a parede improvisada. Tentei escalar, me agarrando às raízes, mas a criatura agarrou minha perna esquerda com seu tentáculo. Era um aperto forte onde eu teria escutado meus ossos estalando se não fosse o pânico. Tateei o outro bolso em busca de uma outra granada, mas o que achei foi a caixinha de música em formato de coração, que abriu-se em minha mão e começou a emitir Pour Elise, baixinho.
Aquilo causou uma reação inesperada no monstro, que na mesma hora afrouxou o aperto em minha perna e ficou me olhando, como que hipnotizada. Na realidade, parecia interessada. Os olhinhos direcionavam-se para meu bolso e ela começou a me tatear com a tromba, buscando a fonte do som em minhas roupas. Naquele momento ouvi outro urro, mais ao longe. A coisa que me segurava urrou em resposta. Na realidade, ouvi diversos outros urros respondendo àquele. E foi então que percebi que, nas sombras das árvores que nos cercavam, várias outras criaturas espreitavam na escuridão. Elas tinham formas diferentes da que me segurava, mas eram tão grandes e tão bizarras quanto ela. A que estava nas sombras do outro lado da trilha (que eu tinha passado pelo menos duas vezes bem perto de seu alcance) parecia um gigantesco morcego albino sem asas. Sua cara pontuda parecia sorrir, mostrando seus dentes retorcidos enquanto comprimia seus olhos brancos e cegos. Ela babava incessantemente. Perto dela, uma gigantesca barata cinzenta, com mais de um metro e meio de altura, cujas presas abriam e fechavam prontas para triturar, também observava a tudo com seus olhinhos inteligentes e cruéis. Sua grotesca carapaça subia e descia como se o bicho estivesse respirando. Diversas outras que eu não podia ver devido à barreira que quase foi meu algoz estavam escondidas ao longo das laterais do caminho. Elas estiveram ali nos observando o tempo todo, aguardando pacientemente...
... aguardando o quê?
Eu não sabia ao certo. Ainda hoje eu não sei ao certo. Tenho minhas suspeitas e, Deus me ajude, que eu esteja errado.
Novamente um urro soou ao longe e naquela hora, o monstro com cara de polvo que quase me matou olhou para trás e respondeu novamente. Soltou-me e recuou. Eu desci rolando o barranco e caí de cara em uma poça de lama. A música da caixinha estava ficando mais lenta, sinal que a corda estava acabando. Eu a retirei do bolso e olhei para ela, aquele singelo coraçãozinho sujo de barro em minha mão, que provavelmente salvou minha vida. Mais que isso, salvou minha alma. A coisa-polvo também olhava para ela enquanto deslizava para longe de mim, seguindo o chamado da outra aberração. Vi passando pelo caminho em frente uma horda de outros monstros, que também seguiam o urro. Seres horrendos que deixariam insano qualquer um que os olhasse. Uma mosca com mais de dois metros de altura, sem as asas e com cabeça e pernas humanóides; uma criatura esverdeada e de pele viscosa que me lembrou um enorme sapo (embora também tivesse um longínquo ar de humanidade em seu físico) e que se locomovia agachado sobre as patas traseiras; um homem gigantesco e peludo com quatro braços e duas pernas, o rosto uma imensa massa de pêlos pretos com dentes tortos e pontiagudos saindo de um rasgo que devia ser sua boca. Coisas de todos os tipos e de todas as formas. Mais de trinta. Todos passando, alheios a tudo agora, como em transe, seguindo o chamado.
Fiquei ali, apoiando-me em meus cotovelos, incapaz de me erguer ou fazer qualquer outro movimento. Na verdade, acho que fiquei sem respirar enquanto a procissão seguia em frente. Quando a última coisa passou, ainda fiquei quieto, esperando e ouvido os tiros. Estava em choque. Girei meu corpo e deitei de costas, olhando o topo das árvores. Fiquei assim por um longo período, acho. Ouvia a chuva, ouvia os tiros, ouvia os meus homens me chamando, evocando o plano de chamada (ao qual eu não consegui responder), e ouvi o som de um helicóptero se aproximando. Enfim, um resgate. William, Tierry e Claude foram quem me encontraram algum tempo depois, acho. Eu ouvia apenas uma imensa confusão de vozes e palavras que para mim já não faziam muito sentido.
- Sargento, o senhor está bem?
- O que aconteceu?
- Ajudem aqui! O sargento está vivo!
- Segurem as pernas... vamos lá, firme! Um, dois, três!!!
- Vamos, não deixem ele cair... rápido!
Acordei dias depois em um imenso hospital. Era dia claro, pelo que eu podia ver das janelas altas e opacas. Não dava para ver lá fora, mas o brilho que ultrapassava os vidros embaçados indicava que fazia sol. Havia fileiras de macas dos dois lados e em frente. Nem todas ocupadas, o que era um bom sinal. Os resultados da guerra talvez estivessem em nosso favor. E enfermeiras e médicos correndo de um lado para o outro, como garçons em um baile de formatura.
Senti que havia alguém sentado em um banco perto da minha cabeceira.
- Que dia é hoje? – perguntei.
- Oh! Graças a Deus você acordou! – era Jacobina, minha noiva. Ela estava com um monte de envelopes e papéis nas mãos. Soltou tudo no chão e se levantou, agarrando-me e beijando-me.
- O que houve comigo? Há quanto tempo estou aqui?
- Alguns dias. Você foi encontrado em estado de choque. Graças a Deus te resgataram daquele inferno. A mulher de Luc me disse que não conseguiram resgatar todos os mortos. – ela colocou as mãos nos olhos e começou a chorar. – O helicóptero não suportaria o peso. Graças a Deus viram que você estava vivo.
Ergui-me um pouco, sentindo dores nos meus rins. Tentando avaliar meus ferimentos (arranhões, picadas de carrapatos, essas coisas comuns), ergui os lençóis que me cobriam do peito para baixo e tomei um susto enorme: eu estava sem o meu pé esquerdo e sem uma parte da perna logo acima dele. Havia lá apenas uma terminação brusca, enrolada por faixas limpas.
- Oh, meu Deus do Céu! – comecei a entrar em pânico. – O que houve?
- Uma granada. Disseram que você teve sorte, pois perdeu muito sangue. – disse ela em meio às lágrimas.
Recostei-me novamente a despeito da dor em minhas costas. Fixei o teto branco e distante, tentando me concentrar nas coisas que eu vira naquele campo de batalhas. Lembrava-me das aparições (como poderia esquecê-las?), mas pareciam coisas de minha imaginação, monstros saídos de algum conto de H. P. Lovecraft, que eu lia quando adolescente.
- Preciso de um médico aqui. – eu disse a Jacobina, em tom de urgência.
- O que está havendo? – alarmou-se ela. – Sente-se mal?
- Preciso me levantar. Preciso saber o que aconteceu naquele dia. Vamos, ajude-me aqui.
- Oh, não meu amor! Vou chamar o doutor.
- Ajude-me mulher! – eu estava irritado com ela, com minha situação, com tudo.
Ela me ajudou a sair da maca. Meu pé direito descalço tocou o solo gelado e eu senti um arrepio na nuca ao pensar que jamais sentiria o mesmo com o outro. Seguimos pelo longo caminho em meio aos doentes acamados e visitantes sem sermos barrados por ninguém. Saímos do grande salão e percebi que aquele era um hospital improvisado. Provavelmente não passava de um galpão de fazenda. Um oficial-médico que preenchia alguns formulários, detrás de uma mesinha, no final do corredor, ergueu os olhos para mim.
- Faltou-lhe paciência, sargento? – disse ele com ar benevolente.
- Sargento Robert se apresentando, senhor. Preciso saber o que ocorreu no dia em que fui resgatado.
- O senhor quase morreu, ao que parece. Um auxiliar o reanimou três vezes. Uma parada cardíaca quando estava no solo e duas dentro do helicóptero, em pleno vôo.
- Quem estava no comando do salvamento?
- Era o capitão Robespierre. Ele está em uma missão em Poitou-Charentes.
- Quantas baixas no meu pelotão, senhor?
- Lamento, mas essa informação eu não sei precisar.
- Herbrard. O soldado Herbrard. Seu corpo foi localizado?
O tenente me olhou, curioso. Respondeu depois de um tempo.
- Se há alguém que poderia lhe falar com mais precisão sobre o salvamento não sou eu, sargento. Os homens resgatados já estão em casa, curtindo suas famílias. Acho que eles poderão lhe dizer o que o senhor está querendo.
- E quando eu saio daqui?
- Seu quadro clínico está estável. Minha única preocupação é o ferimento em sua perna, mas acho que sua esposa...
- Noiva. – interrompi.
- Acho que sua noiva saberá cuidar bem de você. Terá alta amanhã, ainda pela manhã.
Assim, voltamos para meu leito. Jacobina permaneceu ao meu lado naquela noite. Mas eu permaneci calado (ou dormindo) o tempo todo. Ansiava por sair dali. Ansiava em rever meu pelotão.
Infelizmente, quando consegui contatar meus homens, nenhum deles trouxe informação relevante alguma a respeito daquele dia. Ninguém viu nada estranho.
Jacques Louis, que estava me dando cobertura quando me aproximei de Herbrard, em nenhum momento alegou ter visto nada estranho. Apenas disse que chovia balas e granadas, e que ele estava morrendo de medo de ter a cabeça estourada debaixo daquele capacete incômodo.
Françoise, um dos soldados que estava sob meu comando (o número dois no último plano de chamada invocado por mim), que ajudou a me carregar ao helicóptero, assim como checar quem estava vivo para ser resgatado, disse não havia nada errado com o cadáver de Herbrard. Era final de semana e estávamos em uma festinha de família, comemorando o aniversário de sua caçula, em seu quintal dos fundos.
- O cara morreu de uma morte feia. – disse ele segurando o prato cheio de comida em suas mãos trêmulas. Perguntei-me se a tremedeira era proveniente de algum trauma de guerra. Provavelmente sim. A guerra deixa em nós mais marcas que as que conseguimos ver. – Nem me aproximei para certificar que ele tinha batido as botas. E mesmo que ainda estivesse vivo, não haveria médico que conseguisse curá-lo. Havia um ferro enfiado em seu pescoço.
- O ferro o decapitou? Sua cabeça estava no lugar? – abaixei o tom de minha voz ao notar que uma de suas filhas corria com os braços abertos, imitando o som de um avião, perto de nós. Lembrei-me do monstro sugando-o, aquele barulho horrendo saindo de sua tromba hedionda.
- Não. Ele estava inteirinho. E pra falar a verdade, acho que o cara mereceu a morte. Se ele havia cometido realmente todas aquelas coisas, acho que Deus foi justo.
- Todas aquelas coisas? – perguntei, curioso.
- Ele vivia contando vantagem sobre as coisas que fez. Coisas ruins.
A mulher de Françoise se aproximou sorridente e completou a bebida em meu copo. Sorri para ela, que comentou algo sobre sua admiração pelo General Maxime Weygand. Depois virou as costas e foi juntar-se a um grupo de senhoras que conversavam na varanda.
- Coisas ruins? – retomei o rumo da conversa.
- Eu não gosto muito de judeus, sabe? Por todas as coisas que fizeram no passado e tudo mais. Pelo amor de Deus, não pense que tenho algo a favor dos alemães, longe de mim uma coisa dessas. Mas não acho nada justo o que está havendo com os judeus. Não curto a idéia de fazer mal a alguém assim de graça.
- O que Herbrard tem a ver com isso?
- Ele vivia se vangloriando de todas as garotas judias que ele estuprou. Vivia dizendo que nenhuma boceta era tão deliciosa quanto a de uma judia pega à força. Acho que o desgraçado devia ter ascendência alemã para pensar assim, e mentiu ao entrar no exército. Tínhamos, minha esposa e eu, vizinhos judeus antes de a guerra começar, e eles tinham filhas da mesma idade ou um pouco mais velhas que as minhas. Caramba, elas estudavam na mesma escola, em períodos diferentes. E quando ele narrava suas aventuras sexuais bizarras eu não conseguia deixar de pensar nessas meninas. Embrulhava-me o estômago.
- Meu Deus!
- E, não sei se é verdade, quero crer que não seja, mas ele falou que uma delas não foi uma boa jericona. Ele usou esse termo, “uma boa jericona”. – Françoise me olhava com olhos esbugalhados, suas mãos tremendo ainda mais. Temi que sua esposa notasse algo e se aproximasse novamente. Realmente a guerra é um mal maior do que parece. – Ele disse que ela não parava quieta – ele continuou - e que bateu na cabeça dela com um taco de golfe. Ela desfaleceu e ela a estuprou mesmo assim. E sabe o que é mais terrível disso tudo?
- O quê?
- Ele descobriu que ela estava morta depois que ele gozou. Herbrard ria contando essas coisas. Ria de uma coisa terrível dessas. Disse que isso fazia dele um necrófilo, já que ele gostou tanto de ter comido uma defunta.
- Jesus Cristo, Françoise! – eu estava realmente abismado. Herbrard era um cara que gostava de questionar ordens superiores e passava (pelo menos para mim) a imagem de um idealista. Chegava a pensar em certas vezes que ele tinha pensamentos nazistas, que ele talvez fosse um espião do eixo, mas achei que talvez fosse neurose minha. Semanas antes de irmos para a missão, tive um conflito com ele antes da chamada matinal, o que ocasionou uma espécie de clima de animosidade entre nós. Depois disso ele apenas se dirigia a mim para a continência regulamentar, e só.
Aquela conversa com Françoise me fez realmente pensar em tudo o que ocorrera naquela tarde, antes do salvamento. Jamais tive problemas com minha lucidez e a despeito de tudo que qualquer psicólogo pudesse ter dito (caso eu tivesse feito alguma consulta a algum), tudo pra mim foi bastante real. Aquelas coisas estavam realmente lá. Estavam realmente nos observando. Estavam esperando.
Durante aquele restante de ano eu me contentei em aceitar que talvez eu estivesse ficando louco. Assim como me contentei que jamais caminharia normalmente de novo, ou sem o uso de uma muleta. Tornei-me um cara amargurado, cheio de pesadelos rondando todos os cantos escuros de minha vida. Tinha medo de olhar embaixo da cama, no porão, no sótão, e ver escondida na escuridão aquela gigantesca lula humanóide, e assim saber que minha loucura de guerra estava voltando. Eu ouvia histórias de outros militares que haviam ficado loucos depois que voltaram da guerra e cometeram suicídio ou mataram um familiar. Temia que talvez esse tipo de coisa pudesse ocorrer comigo.
Não foi com muita surpresa que, um dia, encontrei uma carta de Jacobina em minha soleira, dizendo-me que partira de Paris com o pessoal da Cruz Vermelha. Isso foi alguns meses antes Charles Gaulle recusar a aceitar o armistício com os nazistas. Assim, com minha vida se resumindo a acordar, comer e dormir, comecei a freqüentar a círculos espíritas, em busca de respostas. Jamais contei a alguém o horror que achava ter presenciado naquele dia, e jamais, nenhuma das histórias que eu ouvi se aproximaram disso. As mesas girantes que Allan Kardec tinha presenciado em Lion no século passado, afinal de contas, mostraram-se incompletas na solução de todos os meus questionamentos. A bíblia nada me dizia também, pelo menos não de forma direta e, como nunca fui bom em interpretar metáforas, abandonei-a também.
Nos idos de 1950, quando eu tive a consciência de que era melhor relatar as monstruosidades que eu vi naquele campo de guerra para algum profissional que talvez me achasse louco do que morrer sem saber o que houve, procurei um professor cujos estudos mesclavam ciência e religião.  O homem era considerado uma piada na universidade em que dava aula, de modo que o achei ideal para ouvir meu relato. Depois de me escutar por mais de uma hora sem nem mesmo dar nenhum sinal de emoção (e ficar bebericando seu café gelado de uma xícara com uma conhecida logomarca), ele concluiu que eu provavelmente entrei em coma por causa da explosão que carregou consigo parte de minha perna. Segundo ele, achava que os monstros eram alucinações, frutos do choque hipovolêmico. Disse ainda que a maioria das experiências de pós-morte cujos pacientes alegam ver coisas que afirmam fazer parte do outro mundo, são na realidade alterações químicas no cérebro, causadas por falta de oxigenação. Resposta satisfatória? Talvez, mas para mim ainda não era o que eu acreditava. E quando o mundo não apresenta as soluções para nossos problemas, resolvemos criar nossas próprias soluções. Eu sou assim, você é assim, e sempre será dessa forma para cada criatura pensante desse mundo estranho de Deus, onde há mais coisas irrespondíveis do que podemos supor.
Comecei, então, a formular minhas próprias respostas. E, como eu já disse antes, peço a Deus todos os dias para que elas estejam erradas.
Para mim, nesta vida nada passa incólume. E, para mim, esta vida não termina com a morte. Há algo mais além. Algo que nos espera depois do último suspiro. Não um julgamento, mas algo mais sucinto, com um veredicto que se apresente de um modo mais sumário.
Herbrard teve o seu naquela tarde. Acredito que quanto a mim, eu estava em um lugar errado, em uma hora errada, e acabei presenciando tudo por acidente. Sim, acidente. Pelo menos é a idéia ao qual me atenho arduamente. Senão, terei eu o mesmo veredicto ao final de minha existência? Terei eu vivido uma vida indigna de piedade ao final de tudo? Embora uma voz maldosa dentro de minha mente ainda insista no contrário, eu quero acreditar que eu morri realmente naquela tarde, mas recebi uma segunda chance para expiar meus pecados.
E assim, aproveitei-a como pude.
Naquele período de pós guerra, quando a França agradecia aliviada aos aliados pelo cerco à Normandia, e eu tentava me curar das cicatrizes que a guerra me impugnou, eu ficava apenas avaliando o passado: o que compensou, o que fiz de errado, o que poderia fazer para corrigir meus erros. No ano seguinte ao que o General Gaulle assumiu o governo provisório, parti de Paris em um trem com destino à Dijon, onde meus pais que eu não via há décadas moravam. Recebi de meus irmãos a triste notícia de que haviam falecido. O meu retorno à minha cidade natal mostrou que eu já não era muito bem vindo entre meus familiares. Meus irmãos estavam magoados comigo e me culpavam pela morte de meus pais. Minha separação deles foi algo meio às pressas, na surdina. Eu nem havia completado meus dezoito anos quando fiquei sabendo que meu pai estava com câncer nos ossos, mas meus sonhos de conhecer a Cidade das Luzes era maior que qualquer coisa que pudesse me segurar. Assim, parti de Dijon em uma tarde, com o dinheiro que consegui recolher do armazém de minha família no bolso e apenas as roupas do corpo. Eu era o mais velho de cinco irmãos e achava que minha vida seria melhor se eu conseguisse vivê-la sem ninguém ditando as regras. Em Paris, acabei alistando-me no exército. Mais do que irônico, o destino às vezes parece ser cruel, não é verdade? Fiquei lá o tempo suficiente para depositar flores nos túmulos de meus pais, suplicar perdão por tê-los abandonado em um momento tão duro, e partir novamente para Paris.
O fato é que, depois que retornei para minha casa, para minha vida de veterano reformado de guerra, sentia-me melhor comigo mesmo. Tinha a impressão que meus pais mortos entenderam minha necessidade em ser livre. Mas a mente humana algumas vezes pode enganar a si própria, e eu jamais deixei de pensar desta forma.
Assim, vivi minha vida monótona até hoje, envelhecendo depressa a cada ano que passava, sendo sustentado pelo fundo monetário para os invalidados pela guerra. Aos poucos minha mente ia apagando as memórias que me faziam sofrer. Memórias do passado, daquela tarde chuvosa onde eu vi algo que já quase não acreditava mais ter visto. Muitos anos se passaram.
Ontem, porém, algo muito estranho aconteceu. Acordei do meu sono da tarde, que tiro todos os dias, religiosamente, logo após o almoço e fui até o porão. Eu estava querendo organizar algumas coisas lá, jogar fora alguns objetos que ficavam acumulando poeira, doar outros para alguma instituição de caridade. Encontrei uma coisa em uma estante de madeira que ficava repousando como uma múmia em um canto escuro daquela vastidão de pó e objetos velhos. Era uma caixa de papelão com o meu nome escrito à mão na parte superior. Sentei-me no primeiro degrau da escada que dava para a cozinha na parte superior, a caixa em meu colo, e depositei a tampa ao meu lado, olhando os materiais armazenados lá dentro. Eram alguns dos objetos que estavam comigo em minha última missão na guerra. E, em meio a uma saboneteira, um aparelho de barbear, cartas escritas por Jacobina e diversas outras coisas que meus olhos nem se deram ao trabalho de registrar, encontrei a caixinha de músicas.
Boquiaberto, coloquei a na palma de minha mão já enrugada e manchada pela velhice. Um arrepio percorreu minha nuca e eu, ao mesmo tempo em que queria guardá-la novamente na caixa de papelão para nunca mais precisar vê-la, sentia uma necessidade mórbida de ouvir sua melodia singela. Assim, antes mesmo de pensar em coisa alguma, ela já estava aberta na palma de minha mão, muda, aguardando apenas algumas poucas voltas em sua pequena corda para que tocasse novamente.
Girei três vezes a borboletinha da corda e Pour Elise começou a tocar, enchendo o porão com aquele doce acorde e meu coração com amargas lembranças.
E, nas sombras, um rosnado baixo e surdo respondeu satisfeito algum tempo depois.

 
                                                                             Janeiro de 2008



Gostou desta postagem? Então cadastre-se AQUI para receber as atualizações do Universo Policial no seu e-mail ou no seu agregador de Feed/RSS.

0 comentário(s):

Postar um comentário

Comentários - Regras e Avisos:
- Nosso blog tem o maior prazer em publicar seus comentários. Reserva-se, entretanto, no direito de rejeitar textos com linguagem ofensiva ou obscena, com palavras de baixo calão, com acusações sem provas, com preconceitos de qualquer ordem, que promovam a violência ou que estejam em desacordo com a legislação nacional.
- O comentário precisa ter relação com a postagem.
- Comentários anônimos ou com nomes fantasiosos poderão ser deletados.
- Os comentários são de exclusiva responsabilidade dos respectivos autores e não refletem a opinião deste blog.
- Clique aqui e saiba mais sobre a política de comentários.

 
Os pontos de vista aqui publicados são de responsabilidade dos respectivos autores, não representando versões oficiais de quaisquer instituições.
© 2007 Template feito por Templates para Você - Deformado por José Ricardo
▲ Topo