Um dia de um PM - Jeremias Moreira

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

É com muita honra que eu apresento aos leitores da blogosfera policial o texto "Um dia de um PM", de autoria do Senhor Tenente Jeremias Moreira.
Quando eu li o texto pela primeira vez, confesso que fiquei até emocionado pela realidade da narração. Não pude deixar de guardá-lo na minha pasta-arquivo para que ele não se perdesse. E agora, com a devida autorização do autor, esse excelente texto também estará guardado neste blog nas seções Reflexões, orações e fé e Histórias policiais,  para que todo o Universo possa acessá-lo e refletir sobre o dia-a-dia de um PM.


Um dia de um PM

* Jeremias Moreira

O motor ruge e a viatura sai me permitindo sentir, mais uma vez, os efeitos da inércia. Sinto-os de forma praticamente imperceptível, pois o costume me deixa quase alheio a eles.

Saímos do quartel e um novo mundo, uma nova realidade se descortina à nossa volta. O rá­dio não pára de dar notícias de ocorrências de toda natureza: assaltos, furtos, brigas diversas, socorro a alguém ferido, perseguição a algum fugitivo; uma viatura pede o QCL (almoço ou lanche) enquanto, numa esquina qualquer, um PA (policial a pé) dá uma informação a alguém.

Por onde passamos somos alvos de olhares diversos: de aprovação e de reprovação, de des­dém e de carinho, de ódio e de amor, de confiança e de temor; uns se alegram e outros se assustam conosco; uns, ainda, se sentem seguros e outros, infelizmente, não. A minoria, graças a DEUS.

Pelos guetos nos acostumamos com a mi­séria da mendicância e também com a sua imundície e mau cheiro. Pessoas há dias sem comer e, talvez, há anos sem tomar um banho sequer, a não ser o da chuva e, isso, quando não acham uma marquise ou um viaduto para se esconderem das águas provindas do céu. Com o tempo dá para sentir a sensibilidade se esvaindo aos poucos…

Nos semáforos os pedintes e vendedores nos evitam, assim como os bandidos e, enquanto ali estamos, eles não atuam…

Entramos na viatura sob os mais diversos tipos de olhares e, como se não fôssemos daquele mundo … Mas isso pouco ou nada nos importa. Estamos e estaremos sempre por ali, querendo eles ou não. No fundo, no fundo sabemos que, de uma forma ou de outra a nossa presença faz bem…

Chegamos ao topo da cadeia alimentar. Clas­se alta, um Mangabeiras da vida. Só a calçada das mansões é maior que o lote onde está meu “bar­raco”. Ruas desertas e nada de mendigos, prosti­tutas (pelo menos em seu tipo mais popular) ou camelos. … Basta um breve toque na sirene da viatura e algumas luzes das mansões se acendem e, em quase todos os portões ou guaritas dos muros, surgem brutamontes em ternos escuros para verificarem o que está havendo..., rs...

Quanta disparidade…

Resolvemos adentrar em alguma favela; uma mais tranquila, onde os traficantes ainda não do­minaram (Em Belo Horizonte ainda temos fave­las assim, pode acreditar!). Dizem que até o latido dos cães é diferente quando a gente chega. Será?!? Um foguete é solto, um assobio se ouve entre os becos. As vezes percebemos um ou mais vultos desaparecendo na penumbra de algum beco.

Paramos em algum ponto estratégico; um bar ou uma mercearia, padaria. Na maioria das ve­zes “ganhamos” um lanche. As crianças nos ro­deiam com olhares brilhantes e fixos nos revól­veres e demais armas; algumas mocinhas de­monstram-se admiradas com a “farda”; os ve­lhos vêm com as suas histórias da “polícia de antigamente” e, os adultos, na maioria, nos olham firme e friamente nos olhos; alguns, muito pou­cos, ainda esboçam um sorriso ou um aceno de cabeça. Eu, em particular, correspondo…

Estamos ali. Houve dias que não gostava de ser um PM, porém hoje amo isso. Estamos ali… Nós contra quase tudo e quase todos… Estamos ali… Vibrando e prontos a dar a resposta espera­da, ou não, para a sociedade e para o “quarto poder”. Estamos ali e sempre estaremos… Sem­pre… Mesmo com toda a nossa limitação, todos sempre poderão contar conosco.

Jeremias Moreira, Oficial da PMMG

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14 comentário(s):

José Ricardo disse...

Às vezes, eu também sinto que nossa luta é contra quase tudo e quase todos. Mas não podemos deixar de dar a resposta esperada, porque a sociedade conta conosco.

Excelente texto, um verdadeira reflexão. Espero que o Senhor Tenente Jeremias possa nos honrar com mais uma obra-prima como esta.

Anônimo disse...

Concordo com o comentário anterior. E apesar de toda as dificuldades para desenvolver nova atividade, devemos ter em mente que somos clientes de nos mesmos.

Anônimo disse...

gostei do texto realmente corresponde a realidade que vivenciamos!!!parabens para o oficial pela sensibilidade!!!

Anônimo disse...

gostei do texto realmente corresponde a realidade que vivenciamos!!!parabens para o oficial pela sensibilidade!!!

Anônimo disse...

um dia, um amigo de farda me perguntou, sargento já pesou um dia sem á policia ? á resposta foi imediata tudo viraria um caús!

Anônimo disse...

É CONFORTANTE SABER Q AINDA EXISTE SENSIBILIDADE EM UM POLICIAL MILITAR. E OLHOS ATENTOS PARA SENTIR O Q ACONTECE A SUA VOLTA.

Anônimo disse...

Gostaria de parabenizar primeiro pelo conteudo do texto e segundo pela sensibilidade e paixão pela profiçao.se tivesse mos uma policia inteira com esse gabarito, tinha nos um pais
bem melhor.

Carlos disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Carlos disse...

Civil, Militar, Bombeiros, Rodoviária, Federal, convencional, especializada, grupo tático. Até mesmo a, por vezes desmerecida, Guarda Municipal. Todas têm algo em comum: retiradas as exceções (os desvios de conduta, corrupção ou os que adentram a essas corporações APENAS pensando no salário, estabilidade ou "autoridade imposta", ao contrário daquela conquistada com o bom trabalho realizado, todas essas corporações - e outras que não citei, mas têm os mesmos objetivos - a defesa da sociedade) são irmãs, merecem respeito e admiração.
Não sou (ainda) policial, mas aproveito este espaço que há pouco tempo comecei a acompanhar para expressar meu respeito.

Anônimo disse...

exelente. retra muito bem o dia a dia de um policial. policial este que muitas das vezes pouco valorizado. isso machuca e como machuca... ouvir pessoas ignorantes dizendo um monte de besteira como do tipo todo policial é corrupto, a policia só serve pra pegar gente de bem, policial covarde, a policia nunca esta quando se precisa...
todos procurando um minimo de erro em nossas ações mesmo quando estamos de folga, como se eles fossem perfeitos... eu sei que não sou. Mas apesar de tudo isso temos que continuar nossa jornada porque pode ter certeza que vale a pena, como valeu hoje. Ao fazer um A20(vizita tranquilizadora) uma senhora me olhou com um olhar de agradecimento e logo em seguida me disse umas palavras que vão ficar marcadas "depois do fato que ocorreu aquele dia minha imagem da PM mudou completamente vcs dois (eu e meu companheiro)fizerão com que eu perdesse um trauma que tinha da policia. Me atenderam tão bem naquela dificil situação em que eu me encontrava, não sabia que a policia era tão educada e competente. Muito obrigada. Eu mais do que nunca disse o que sempre tenho o prazer em dizer "pode contar com a gente quando precisar". Uma mulher que tinha uma visão completamente errada por motivo que eu nem sei mas como foi bom ter a gratidão e o reconhecimento daquela senhora. Então companheiros não vamos abaixar a cabeça mesmo passando por tantas injustiças tanto pelos cidãos ou pelo nosso sintema enlouquecedor. Porque ainda vale a pena. Um só elogio desse me fez superar todas as tristezas dos chingamentos e má compreenção da sociedade. Vamos la sei que é dificil mas quem sabe um dia teremos mais pessoas como essa senhora que saiba dar valor a nossa farda e nossa vida.

Anônimo disse...

eu nao gostei nao tem o dia que foi criado o dia do policial

Anônimo disse...

parabens pelo comentario,muito criativo e real,retrata nosso dia a dia.tambem vivo isso na pele todos os dias,um abraço a todos os irmaos de farda,fiquem com DEUS,policial Ribeirao Preto

thales laet disse...

muito bom otimo texto!!!
bastante real a narativa,parabens!!!

Anônimo disse...

real mesmo o praça que o diga, de sd a st vivera esta realidade.

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