Anatomia de uma execução

sexta-feira, 10 de outubro de 2008


Anatomia de uma execução

·        José Ricardo

O caminho do crime tem apenas dois destinos: cadeia ou vala. E isso não é novidade para ninguém. Então, só entra nessa quem quer.
Osborne já estava nessa há muito tempo. Para ele, não havia mais caminho de volta. Preso ele já havia sido, e diversas vezes, não tomou outro rumo... Logo, restava-lhe apenas um destino. Ele só não esperava que fosse naquela noite de virada de ano, quando dois usuários lhe fizeram uma encomenda de pequena quantidade de cannabis sativa.
- Eu tô sem bagulho aqui. Me empresta sua moto que eu vou buscar ali com um camarada meu.
Os usuários aceitaram a proposta. Osborne pegou a moto e foi buscar os cigarros da erva maldita na favela. Foi difícil encontrar seu camarada, nada menos que o chefe da boca, visto que este promoveu uma festa de virada de ano para os moradores daquela comunidade carente. A velha política do circo e do pão. A favela estava em polvorosa. Só que o chefe da boca estava querendo cobrar umas dívidas de Osborne.
- Véio, cadê a grana que ocê me deve?
- Tô levantando a grana, parceiro. Preocupa não. Aqui, tô precisando de quatro beck.
- Hoje não tem nada pro cê não. Primeiro cê paga o que cê deve. Morô!? Depois a gente negocia.
Osborne foi embora sem a encomenda.
O chefe da boca determinou a dois comparsas:
- Pega a moto e segue ele. Ele tá brincando comigo... Me deve umas parada aí e não me paga... Manda ele pra vala!
Os comparsas não questionaram a ordem. No mundo do crime, não existe aquele dispositivo de ordem ilegal não se cumpre; todas elas são por essência ilegais. Só existe uma lei nesse submundo: a lei do cão.
Os usuários ficaram esperando Osborne num lugar ermo. Local excelente para uma execução. Ao se aproximar dos usuários, Osborne viu uma motocicleta se aproximando dele bem rapidamente; pressentiu a intenção da dupla assassina e acelerou a moto que conduzia. Entretanto, o revólver do garupeiro cuspiu fogo duas vezes. Osborne perdeu o controle da moto, a qual caiu; ele, já baleado, num instinto de sobrevivência, correu a pé em direção a um terreno baldio. Os usuários, imóveis, assistiam a tudo. Mais quatro tiros foram disparados. Osborne ainda correu uns quinze metros, mas acabou caindo numa vala. Literalmente, foi mandado pra vala!
Fomentadores indiretos da execução, os usuários, aterrorizados, ligaram imediatamente para a Military Police. A patrol do Sargento Mike chegou rápido ao local, pois já estava nas proximidades do aglomerado. Outra patrol deslocou em apoio.
Os usuários, desesperados, apontaram aos policiais onde Osborne estava caído. Perguntados sobre as características dos motoqueiros assassinos, disseram apenas que estavam de capacete, que a moto era escura, que não sabiam a placa... Informações vagas. Prenúncio de um crime sem solução. Estatística.
- Sargento, vamos esperar a ambulância? - perguntou o patrulheiro.
- Não, é pegar e levar!
Gordo, pesado, insconsciente, o corpo ensangüentado de Osborne foi retirado com muita dificuldade da vala e colocado no banco de trás da patrol, a qual foi tomada por um odor fétido de porco abatido.
Chegando ao Pronto Socorro mais próximo, o corpo de Osborne foi posto numa maca e levado à UTI. Nesse momento, o Sargento Mike reconheceu o criminoso. Disse para o patrulheiro:
- Esse é o Osborne. Traficante lá da favela.
O médico chegou, examinou o paciente e deu início aos procedimentos de praxe.
- Doutor, ele tem alguma chance? - questionou Mike.
- Acho que esse já foi...
E foi mesmo. Para onde? Isto depende da crença e do ponto de vista de cada um.
Poucos minutos depois, familiares do cadáver chegaram, abraçaram o ente querido... Mike se encarregou de explicar-lhes o acontecido. Eles não se assustaram; aquele desfecho já era previsível. O caminho do crime tem apenas dois destinos...
Colhidos os dados, o patrulheiro consultou na central o prontuário criminal da “vítima”.
- É, patrol, a ficha desse aí é grande. Consta aqui homicídio, assalto, tráfico de drogas, receptação, e por aí vai. Qual o envolvimento desse cidadão na ocorrência?
- Central, nesta ocorrência, ele figura como vítima. Pela primeira e última vez, ele foi a vítima. A primeira vítima de homicídio do ano.

Nota: Esta é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com fatos reais é mera coincidência.

"É livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença” - Inciso IX do artigo 5º da Constituição Federal.



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5 comentário(s):

soldado da paz, mas treinado para guerra disse...

fagabundo bom e fagabundo morto hahaah!!!

José Ricardo disse...

Menos um vagabundo. E mais um homicídio para a estatística, para desespero dos que querem diminuir o número de assassinatos...

Anônimo disse...

Olha tenho uma opinião comigo. Quem são realmente os piores bandidos desse nosso Brasil? Onde eles realmente estão, como vivem, de que vivem, como vivem, como nos os tratamos quando deparamos com um deles? Isso tudo e muito mais me faz refletir muito. Uma vez um colega de profissão me disse: O Estado cria o marginal, através da omissão, do descaso, do abandono, da falta de oportunidades, esporte,lazer, cultura, escola, corrupção e depois coloca a gente para prender o monstro que ela mesmo criou. Seriam eles vítimas? Gosto de refletir sobre isso. Gosto de dispensar o tratamento igual para todos, para não ter peso de consciencia.Devemos sempre refletir sobre isso.

José Ricardo disse...

Concordo contigo, companheiro.

Anônimo disse...

Só uma pergunta como vocês descobriram que eram comparsas do chefe do trafico?e que ele estava devendo?

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