A cada dia um novo dia

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

A cada dia um novo dia

·        José Ricardo

Durante radiopatrulhamento rotineiro pelo centro da cidade, o Sargento Mike, simultaneamente ao olhar expectante e ao estado de atenção, pensava em toda sua vida na Military Police. Pensava nos momentos de alegria, nas amizades, na união da tropa, nas dificuldades pelas quais passou e na grande frustração do dia em que ouviu: Você não tem motivação! Você é descontrolado emocionalmente! Você pode ter uma atitude violenta sob forte pressão psicológica! Você não fez nada mais do que sua obrigação!

Mike encontrava-se num dilema: continuar na corporação e viver novas experiências, ou pedir para sair e começar vida nova, na qual pudesse esquecer aquelas frases que lhe destruíam a estima. Imaginava uma vida simples, honesta, numa casinha branca lá no pé da serra, pra ele e a esposa morar... Independentemente do caminho a ser trilhado, ele tinha certeza de que, mesmo que pedisse baixa, sua vida nunca mais seria como antes. Ele mudara completamente depois que entrou para a Militay Police. Adquirira uma experiência de vida praticamente impossível de se obter em outro lugar. E todo dia de serviço era uma nova experiência, um novo encontro com a realidade de um submundo feio, sujo e fétido...
 Mas a atenção do serviço se sobrepôs aos devaneios, porque, de repente, Mike e o Patrulheiro Drexter depararam com um indivíduo com o rosto encoberto por uma camisa desferindo murros na cabeça de um transeunte. Como o fato acontecia em frente a um banco, imediatamente os policiais pensaram numa tentativa de assalto. Aproximaram do agressor e determinaram:
- Police! Coloque as mãos sobre a cabeça! Coloque as mãs na cabeça!
O agressor não atendeu as determinações e tentou evadir. Os policiais desembarcaram, o cercaram e prosseguiram na infrutífera verbalização. Ante a desobediência, o Patrulheiro Drexter, num movimento rápido, aspergiu gás de pimenta nos olhos do agressor, único órgão do rosto do indivíduo que não estava tampado pela camisa. Ao sentir o efeito inquietante e incapacitante do gás, o possível assaltante esfregou os olhos, momento em que Drexter aproveitou para dar-lhe uma rasteira, derrubando-o. Mike tentou aplicar-lhe golpes de imobilização, mas ele passou a reagir violentamente com chutes e murros. Mike e o infrator se atracaram numa feroz luta corporal, enquanto Drexter tentava proceder à algemação. O policial Jeff, de folga e à paisana, vendo a dificuldade dos colegas, largou a namorada e foi apoiar os policiais. Eta tropa unida! Outra viatura passou pelo local segundos depois, tendo os policiais desembarcado e se juntado aos outros três. Depois de todo aquele esforço, o agressor foi algemado. Tirada a camisa que lhe encobria o rosto, descobriu-se que se tratava de um morador de rua, velho conhecido do Sargento Mike. Um dia antes de Mike ouvir “você não tem motivação...”, o graduado quase teve que usar de força letal contra ele, visto que, ao ser abordado, o indivíduo apoderou-se de uma barra de ferro e investiu contra o sargento e o patrulheiro. Naquela feita, Mike teve os braços lesionados, uma vez que também teve que se atracar ao infrator para desarmá-lo e dominá-lo. E isso aconteceu um dia antes do dia mais frustrante de sua carreira, dia em que ouviu: Você é descontrolado emocionalmente! Você...
- Eu caguei na calça - disse o agressor, já algemado, enquanto era submetido a busca pessoal.
- Verdade! - exclamou o sargento - Onde você tá ficando?
- Eu durmo dentro de uma manilha.
- Manilha de esgoto?
- É, debaixo da ponte.
O comandante da outra guarnição interrompeu a conversa.
- E aí, sargento, pra onde nós vamos levá-lo?
- Pra delegacia.
- Ele tá fedendo demais. Parece que não toma banho há meses.
- Ele disse que mora numa manilha. Deve ficar junto com baratas, ratos, larvas... Esse cheiro fétido já entranhou nele.
Depois de algemado, não havia alternativa. Puseram o morador de rua na viatura. O cheiro era insuportável. O veículo policial foi tomado por um odor de esgoto cheio de bostas, baratas, ratos e tudo de mais nojento que possa existir nesse tipo de local. Era praticamente impossível permanecer ali dentro junto com aquele ser fedegoso, que nem parecia ser humano.
Chegando à delegacia, Mike ficou com vergonha de apresentar o conduzido aos policiais investigativos.
- Aqui, eu tô com um conduzido na viatura, mas ele tá fedendo demais. Você quer que eu traga ele pra cá? - perguntou o sargento para o chefe do plantão policial.
- Tá muito ruim?
- Demais! - respondeu o Patrulheiro Drexter.
- Ah, põe ele bem lá no canto, perto do tanque de lavar roupa. Fazer o quê, né?
- Beleza.
O ser foi tirado da viatura e colocado na delegacia. Mike fez a ocorrência e, quando a entregava ao chefe de plantão, o Patrulheiro Drexter lhe chamou:
- Sargento, o conduzido pegou uma barata que tava passando perto dele.
- Não acredito... Nó, é mesmo! Que isso!
O ser pegou a barata, levantou-a na altura dos olhos e fitou-a por alguns segundos. Depois, foi retirando lentamente suas patas. Fitou-a novamente e, sem nenhum constrangimento, colocou-a na boca, ainda viva, e passou a mastigá-la. Sua expressão facial era de estar apreciando uma comida apetitosa. Mastigou lentamente o inseto ancestral. Por fim, o engoliu.
- É, às vezes a gente pensa que já viu de tudo nessa vida, mas, na verdade, a gente ainda não viu foi nada! - exclamou o sargento.
Realmente, mesmo que Mike saísse da Military Police, nunca mais seria o mesmo. As experiências que se vivem nessa profissão mudam a pessoa completamente. A cada serviço, novas experiências, novos contatos com um submundo feio, sujo e fedegoso.

Nota: Esta é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com fatos reais é mera coincidência.

"É livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença” - Inciso IX do artigo 5º da Constituição Federal.



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4 comentário(s):

Alex disse...

Texto perfeito! Gostaria de parabenizá-lo pelo blog e seus textos: já está no meu seleto grupo de sites favoritos há tempos. Quanto ao artigo, estou passando pelo mesmo dilema, porém na outra extremidade da corda: aguardo apenas o resultado do exame psicotécnico, para ingressar na Military Police. E temo por ouvir as famosas: "você não tem motivação!", "você é agressivo em situações novas!. Porém, andei pesquisando a vida de caserna, e verifiquei com muitos colegas recrutas que antes, o que parecia ser uma carreira promissora, já não o é mais. Então estou tranquilo quanto a uma possível contra-indicação. Se fosse aquela outra polícia, de estrelas, até que ia...

Como aludiu o colega Pracinha, independente de sua escolha, de sair ou não, "avance para águas mais profundas". Abraço!

José Ricardo disse...

Alex, muito obrigado pelo elogio.
Tenha certeza de que não é nada fácil ouvir as famosas expressões, ainda mais quando você não concorda e acha que elas não têm o menor cabimento.
Realmente, eu não tenho certeza de que seja uma carreira promissora, ainda mais pela perda do quinquênio para os novatos.
Alex, de todo forma, torço por você!

Dextermilian SD disse...

Esse texto está ótimo , o conto é fantástico já vi algo parecido acontecer rsrrs, mais não foi rasteira e sim um "balão" rsrs. essa nossa profissão e talvez a melhor forma de conhecer a sociedade da maneira mais completa , dos melhores niveis aos piores, da classe a até a classe z rsrs mais eu não me arrependo de escolher essa profissão foi ela que me proporcionou várias conquistas, sei que a várias coisas que não gosto nela , mas como tem muitas outras coisas que eu gosto vou levando...o incrivel disso tudo é que eu gosto da ação , mais principalmente quando tudo dá certo rsrs , existem muitas coisas que gostaria de fazer como policia , mais infelizmente não depende só de mim , espero que um dia lá na frente os graduados lutem para que as coisas mudem, o problema é que a sociedade não quer uma policia perfeita , pois essa não existe , pois não existe uma sociedade perfeita e assim vai...

José Ricardo disse...

Dextermilian, pensando bem, realmente foi um "balão", e, por sinal, muito bem dado, rsrsrsrs.
Quando a ação dá certo, é muito bom. Mas nem sempre isso acontece, e muitos de nossos companheiros estão tombado nessa luta diária contra a criminalidade. Muitos de nós arriscamos a vida pela sociedade e, no final, ouvimos: você não fez nada mais do que obrigação!
Afinal, qual é nossa obrigação? Morrer por uma sociedade hipócrita? Morrer na luta contra o tráfico de drogas financiado pela própria sociedade? Morrer por dinheiro segurado de banco? Morrer...
Companheiro, não creio que arriscar a vida pelo próximo seja "obrigação". Creio que seja amor pela vida humana.

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