Vocação Policial

domingo, 26 de outubro de 2008

Vocação

  Marcos Rolim


Um dos meus alunos no curso de especialização em segurança pública da Faculdade de Direito de Santa Maria, policial militar, me relatou um fato ocorrido com seu familiar, um jovem cujo sonho era ser policial: o rapaz havia sido selecionado pela P.M. de Santa Catarina e fazia a instrução para soldado. Um dia, sua turma recebeu ordem para efetuar a limpeza de um enorme e imundo banheiro coletivo. Os alunos se esforçaram muito e deixaram o local brilhando. Exaustos, depois de horas de trabalho, viram quando um oficial colheu quilos de estrume dos cavalos, entrou no banheiro e espalhou a carga pelo chão. O mesmo oficial determinou, então, que a limpeza fosse refeita, já que o banheiro continuava imundo. O jovem recusou-se a cumprir a ordem humilhante. Recebeu várias ameaças e, naquele momento, desligou-se da corporação. Ao relatar o fato ao Major superior imediato do oficial envolvido ouviu dele a seguinte pérola: De fato, você não tem vocação para ser policial.

O episódio faz pensar sobre as virtudes que um policial deve ter. No Brasil, ainda hoje, há quem imagine que as qualidades mais importantes de um “bom policial” sejam a obediência, a força física e o destemor. Nenhuma delas, entretanto, tem algo a ver com a excelência na função. Agentes públicos caracterizados por aquelas três qualidades, aliás, têm mais chances de serem péssimos policiais e, pior, mais chances de se transformarem em bandidos perigosos. Eventuais dúvidas poderão ser sanadas ao se checar os critérios empregados pelos nazistas para a constituição de sua “tropa de choque”, a Schutzstaffel, ou “SS” como ficou conhecida aquela organização de assassinos.

Um bom policial precisa ter, inicialmente, um senso moral muito superior à média. Por isso, se deveria exigir que os aspirantes tivessem um nível de moralidade “pós-convencional” (nos termos propostos por Kohlberg), o que pode ser medido com facilidade em testes específicos que empregam dilemas morais. Bons policiais devem ter, também, estrutura psíquica equilibrada e formação superior (é incompreensível, neste particular, que não tenhamos ainda cursos de graduação em segurança nas universidades) e, ainda, demonstrar capacidade de liderança (na Suécia, por exemplo, um dos critérios para ingresso na polícia é a comprovação de já ter exercido liderança comunitária).

Para tudo isto, é claro, o Estado precisaria oferecer bons salários –correspondentes às exigências e à enorme complexidade da função, além da perspectiva de uma sólida carreira policial, de tal forma que fosse possível atrair para as polícias os melhores. Fazemos tudo ao contrário, como se sabe. “Altura” ainda é critério de recrutamento (sério), adoramos a imagem de “rambos”, vibramos com a tortura em “Tropa de Elite” e tome ranger de dentes e colunas sobre pena de morte. Pior: incensamos a imagem de gestores, oficiais e chefes incompetentes, bastando que nos ofereçam frases feitas e bravatas ao invés de diagnósticos e planos concretos. E se os incompetentes são ainda covardes a ponto de mandar bater em bancários, em professores ou em colonos, então exultamos como filhotes extraviados de Sade diante do látego. Vocação nacional? Tomara que não.



Fonte: Jornal Zero Hora 

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Vocação Policial
  • Jorge Bengocha - Coronel PM

Lendo o artigo do Marcos Rolim sob o título "VOCAÇÃO", publicado em ZH 26/10/2008, e concordando em parte, gostaria de perguntar o seguinte:

> Em que sistema de ordem pública estão inseridas as policias estaduais brasileiras? Lendo a constituição de 1988, parece que a responsabilidade pelo exercício da preservação cabe só a elas. Onde estão os do Judiciário, do MP e do sistema prisional?

> Que resultados positivos podem obter estas polícias diante diante da fragmentação da atividade policial em três segmentos autônomos, corporativos e divergentes? Aliás, foi o governo PT que tirou a perícia da Polícia investigativa sob a alegação que tinha uma banda podre.

> Que motivação tem um policial estadual recebendo salários indignos e bem abaixo do que percebem os policiais federais?

> Que força tem uma polícia que vem sendo, ao longo dos anos, depreciada e sucateada pelo Executivo estadual?;

> Que deveres são agregados a uma polícia que é impedida de agir diante do crimes, de infrações e de violações de direitos?

> Que espírito tem uma polícia que vê seu trabalho sendo desmoralizado no judiciário, diante de leis benevolentes, divergências, questionamentos, burocracia, morosidade e privilégios ao poder político e financeiro?

> Que eficácia pode ter uma polícia incapacitada pela falta de pessoal, de formação adequada, de treinamento, de postos policiais fixos nos bairros, de condições de trabalho e de recursos tecnológicos diante do crime que se organiza, se arma, domina territórios e alicia as comunidades das periferias?;

> Que valor tem a vida de um policial com os riscos da profissão mais estressante do mundo, desamparado de leis, de sistema e de salvaguardas contra armas de guerra e poder financeiro do crime?

> Que polícia é esta que convive com um sistema burocracta que distancia o Poder Judiciário brasileiro, oportuniza o deprezo e a negligência do Executivo Estadual e estimula a inércia e a cegueira dos parlamentares nas questões de ordem pública?

Diante destas perguntas, só uma resposta - Neste Brasil sem Ordem (ver imagem), ser policial não é uma vocação. É uma loucura.
 



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2 comentário(s):

dextermilian SD disse...

interessante esse texto, na minha forma de pensar o defesa social pode ser explicada dessa maneira: o juiz é inteligente mais é um covarde, o delegado é inteligente mais é desprovido de força e leis que o amparam, o detetive é inteligente mais é desmotivado e mal pago, o polical militar é mal pago, deve ser louco quase um cachorro de guerra , pronto para entrar em combate, acabar com as 3 raças anteriores se for preciso, mais é inteligente para saber que isso é errado e desumano.

José Ricardo disse...

Dextermilian, achei excelente essa sua explicação para a defesa social. Excelente!

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