Sono tranqüilo

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Sono tranqüilo
  • José Ricardo
Eram 22 horas. A rapinha composta pelo Sargento Mike e pelo Soldado Brucis realizavam policiamento “reloginho” pela cidade de Samsung. Embora fosse dia de semana, a rede de rádio não calava um segundo. De repente, as tumultuadas comunicações, fruto da grande demanda operacional, foram interrompidas por uma voz ofegante:
- Central, é a viatura 77777, prioridade. Prioridade, central!
- Continue 77777.

- Peço apoio urgente, urgente, aqui na Rua San Sebastian, perto da boca-de-fumo do Miller. Vários indivíduos da quadrilha estão tentando resgatar um preso da guarnição aqui, central.
A rede tumultuou ainda mais. Todas as viaturas queriam deslocar em apoio. A rapinha do Sargento Mike abandonou o patrulhamento “reloginho” e saiu em disparada para apoiar a 77777. E saiu voando baixo, afinal, companheiros estavam em dificuldade. O que não podia era acontecer um acidente, principalmente com vítimas, nem a viatura quebrar no caminho; o sargento estava consciente disso. O resto... Sacrificou o equipamento? Sim, sacrificou, mas os policiais em dificuldade é que não podiam ser sacrificados. Dane-se o equipamento! Em primeiro lugar a vida dos policiais.
- 77777, se for preciso, mete fogo nesses vagabundos. Não apanha, não! - disse Mike na agitada rede de rádio, enquanto pilotava dirigia a viatura - Não apanha, não! Mete fogo nesses cara!
Com o giroflex e a sirene ligados, e com o Soldado Brucis com metade do corpo para fora da viatura, a rapinha comandada e dirigida pelo Sargento Mike foi uma das primeiras, ou a primeira, a chegar onde se encontrava a 77777. Os militares logo desembarcaram.
- Eles estão fugindo. Eles estão correndo. - disse Drexter, patrulheiro da 7777.
Brucis, Mike e o Soldado Gayan, da 7777, correram em perseguição aos indivíduos que haviam tentado resgatar o preso. Perseguição difícil, visto o sobrepeso dos equipamentos carregados pelos policiais. Por motivo desconhecido, durante a corrida atrás dos infratores, o jovem soldado Brucis caiu, lesionando ambos os braços, dando as primeiras gotas de sangue pela Military Police. Apesar do esforço dos policiais, os indivíduos conseguiram evadir. Nesse entretempo, outras viaturas chegaram em apoio. A união da tropa é visível nesses momentos; união que não pode acabar. Se acabar, acabou a Military Police.
A situação foi dominada, e o comandante da 7777 explicou para os demais policiais o que havia acontecido. Ele e o patrulheiro Drexter realizavam operação na Rua San Sebastian, visando combater o notório e deletério tráfico de drogas que, em decorrência da impunidade (quem poupa o lobo sacrifica a ovelha), estava cada dia mais forte e audacioso. Durante a operação, a dupla deparou com o preso (menor), irmão do chefe do tráfico, em atitude suspeita, razão pela qual determinaram que ele parasse a motocicleta que conduzia. Ele desobedeceu e fugiu. Mas a fuga durou pouco, porque o menor perdeu o controle da moto e caiu. Os policiais desembarcaram e o imobilizaram, mas membros da quadrilha logo chegaram, investiram contra os agentes da lei e o tentaram resgatar, gerando o pedido de prioridade na rede de rádio
Com a situação já sob controle, o preso, ou melhor, o apreendido, ou melhor ainda, o menor em conflito com a lei, foi encaminhado à delegacia de plantão, onde a ocorrência foi encerrada.
No final do turno, na sede do Departamento de Polícia, quando o Sargento Mike desarmava, um policial que entrava de serviço naquele horário, sem saber de nada que acontecera na noite, falou para alguns policiais que também assumiam serviço:
- Ontem à noite, eu estava andando na rua, de folga, e uma viatura passou a mil por mim. Não tava nem aí pra quebra-molas nem nada. Passou com o giroflex e a sirene ligados... Nó! Depois o policial reclama que não tem viatura, que as viaturas estão todas quebradas. Mas eles mesmos são cupins, não estão nem aí pra viatura.
Sargento Mike ouviu calado. Não disse nada. Se o policial citasse o prefixo da viatura, ele talvez se defendesse, mas, já que não citou... Nem se sabe se a viatura que o outro policial mencionou era a dele, porque outras também deslocaram em apoio. Sendo ou não, ninguém é obrigado a criar provas contra si mesmo. Mike estava ciente de que a viatura realmente fora sacrificada. Mas dane-se a viatura! O que não pode é o companheiro ficar em dificuldade por dó de estragar um “bem do Estado”. Mike estava com a consciência tranqüila. Ficaria com remorsos se acontecesse o pior com os companheiros porque ele deslocou em apoio com escrúpulos de danificar um veículo policial, fazendo corpo-mole.
E assim o turno de serviço foi encerrado. Mike foi embora para casa, deitou-se, pôs a cabeça no travesseiro e dormiu tranqüilo, certo de que tomara procedimento correto e, se fosse preciso, faria tudo de novo, mesmo que por isso fosse punido ou tivesse que pagar por possíveis danos em patrimônio do Estado. Mas deixar o companheiro em dificuldade, jamais!

Nota: Esta é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com fatos reais é mera coincidência.

"É livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença” - Inciso IX do artigo 5º da Constituição Federal.



Gostou desta postagem? Então cadastre-se AQUI para receber as atualizações do Universo Policial no seu e-mail ou no seu agregador de Feed/RSS.

8 comentário(s):

DextermilianSD disse...

é nessas horas que o sangue ferve! como uma bomba de efeito moral faz falta! mais a bombinha garrafão deu conta . graças a Deus os pilas não estavam armados, e os nossos colegas chegararm rapido! quando a sirene começou a aparcer ao fundo foi uma dembandada geral! eles não ficam pois sabem que não dão conta! , sobre o comentário! bem eu nem quero saber de quem foi kkk mais é um "muxiba" isso é kkkkkk

Tampa disse...

Quando um companheiro pede prioridade vamos todos socorrê-lo com o sangue nos olhos. Deixar de dar apoio nessas horas é como cortar na própria carne.

Amiguinho Legal disse...

é mas a desunião tá geral, não divulgaram o dezembro negro no interior, neguim balaonda que no meio da quebrada UU, mandando tirar o capuz, o pior que e praça fodendo com praça, num tem culhoes para vibrar e denuncia o vibrador... PQP volta regime!!!!

José Ricardo disse...

Dextermilian, a pessoa que fez o comentário lá no Departamento de Polícia não sabia o que havia acontecido na noite. O poder paralelo/poder marginal no Rio de Janeiro deve ter começado assim. Espero que na cidade dessa história fictícia não aconteça o mesmo.
- - - - -
Tampa, quem deixa de dar apoio ao companheiro em dificuldade não tem sangue de polícia. Entrou na corporação só para receber o soldo. É um $###¨&*_)(*###!
- - - - -
Amiguinho legal, não entendi muito bem seu comentário. Ficou meio codificado. Mas o que importa é que os policiais sejam unidos. Se acabar a União, acabou a Military Police.

Marques disse...

O que é policiamento reloginho, patrulhamento reloginho?

José Ricardo disse...

Marques, o policiamento "reloginho"/ patrulhamento "reloginho" foi inspirado na expressão "relógio de parede", utilizada no Livro Cavalos Corredores (página 21), de Emir Larangeira, tenente-coronel reformado da PMERJ. O oficial assim define "relógio de parede":

O terreno (área destinada ao policiamento) seria o mostrador, e as diversas modalidades de policiamento (radiopatrulha, PATAMO, policiamento a pé etc.), espalhadas no mostrador, seriam os ponteiros (não se esqueçam de que os ponteiros rodam, mas são fixos no eixo). Rodam, entretanto, se lhe derem corda ou pilhas novas; se não, o resultado é a apavorante inércia hoje denominada "visibilidade", ou, em linguagem popular interna, "caça aos patos"...

É assim para facilitar a fiscalização, ou seja, para garantir a eficiência (relação com meios) e não a eficácia (relação com resultados). É, com efeito, um modelo estrutural de fácil distribuição dos recursos materiais e humanos no terreno, em escala e em setores, subsetores e roteiros igualmente predeterminados, de modo que o batalhão sempre saiba onde estão os milicianos para fiscalizá-los como objetivo precípuo de comando. De resto, é só esperar algum deles falhar para puni-lo (aplicação sistemática dos regulamentos disciplinares) ou acertar para elogiá-lo (também pela aplicação sistemática dos regulamentos disciplinares).

Como se vê, é fácil comandar um batalhão. É só primar pelo fiel cumprimento das normas administrativas e operacionais vigentes. Contudo, deixo aqui a indagação: "seriam boas?" Para o bandido, sim, com certeza. Ele pode assaltar com 100% de chance de não aparecer radiopatrulha nenhuma, sempre sabe onde ela está; ou então lhe é suficiente torcer para que o assaltado demore a ligar para o 190..."

Anônimo disse...

Alguem poderia me explicar por favor o que é esse patrulhamento relóginho ou é algum código entre vocês?
desde ja agradeço

Anônimo disse...

a ja descobri o que é ali em cima mesmo nao tinha lido os comentarios
aushauhsa
vlw

Postar um comentário

Comentários - Regras e Avisos:
- Nosso blog tem o maior prazer em publicar seus comentários. Reserva-se, entretanto, no direito de rejeitar textos com linguagem ofensiva ou obscena, com palavras de baixo calão, com acusações sem provas, com preconceitos de qualquer ordem, que promovam a violência ou que estejam em desacordo com a legislação nacional.
- O comentário precisa ter relação com a postagem.
- Comentários anônimos ou com nomes fantasiosos poderão ser deletados.
- Os comentários são de exclusiva responsabilidade dos respectivos autores e não refletem a opinião deste blog.
- Clique aqui e saiba mais sobre a política de comentários.

 
Os pontos de vista aqui publicados são de responsabilidade dos respectivos autores, não representando versões oficiais de quaisquer instituições.
© 2007 Template feito por Templates para Você - Deformado por José Ricardo
▲ Topo