Lembranças de Natal

quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Lembranças de Natal
  • José Ricardo
Com um beijo, despedi-me da esposa.
- Vai com Deus - ela me disse.
- Fica com Deus. Qualquer coisa, me liga - respondi.
Era noite de véspera de natal, 24 para 25 de dezembro. Mais um turno de serviço me esperava. Não adiantava ficar lamuriando; estava escalado e ponto final.

No caminho até o quartel, as lembranças tomaram conta de meus pensamentos. Lembrava, com alegria, das visitas que recebi no dia. O Soldado Brucis foi lá em casa. Levou-me um presente. Disse que aprendeu muito comigo e que estava triste porque talvez eu fosse para o CFO. Sargento, se você for reprovado no psicotécnico desta vez, você é doido mesmo, pode internar na clínica Luiz André, ele disse, brincando. O Soldado Barros também foi lá. Brincou comigo, dizendo que eu fui bobo em não aceitar o convite para ir trabalhar na administração. Você estaria de folga hoje e só voltaria no dia 05, ele me disse. Não liguei. Talvez eu fosse mesmo um bobo. Bobo e doido...
Enquanto me deslocava para o serviço, observei as casas enfeitadas, as famílias reunidas. E eu, longe dos meus pais. Mas estava feliz, porque não iria passar o natal sozinho. Minha esposa não viajou para a casa dos pais dela; decidiu ficar comigo.
Não é bom passar o natal longe da família. Digo isso porque já passei, em razão da profissão militar. Bate uma tristeza, um vazio, uma solidão; nada tem graça. Certa vez, quando eu trabalhava num destacamento de uma cidadezinha do interior, minha mãe e meu pai foram até lá, na casa onde eu morava sozinho, e me levaram um presente inesquecível: uma bíblia.
Noite de natal é sempre agitada. Parentes reunidos e uso de bebida alcoólica formam uma mistura explosiva. Já sabia que iria passar a noite atendendo ocorrências de ameaças, agressões, lesões corporais, acidentes de trânsito, som alto e, porventura, algum homicídio.
Quando cheguei ao quartel, deixei as lembranças de lado. Estava desanimado, confesso. Cumprimentei meu companheiro de serviço, o Soldado Horgan, e desejei-lhe um feliz natal meio que antecipado, porque, nessa profissão, não podemos prever sequer o minuto seguinte. Talvez eu não chegasse vivo até a meia-noite.
Estávamos, eu e Horgan, terminando de nos armar, quando ouvimos na rede de rádio um pedido de prioridade. Ainda faltavam uns vinte e cinco minutos para entrarmos efetivamente de serviço, uma vez que havíamos chegado com antecedência. Se fóssemos burocratas, meros cumpridores de horário, poderíamos nos omitir, fingir que não havíamos escutado a mensagem.
De acordo com as tumultuadas comunicações, uma viatura da polícia rodoviária estava acompanhando um ônibus que estava sendo assaltado e deslocava sentido o Aeroporto Internacional Turow Neves. Não se sabia o número de criminosos nem o armamento que possuíam.
Não hesitamos um milésimo de segundo. Pegamos rapidamene nossos equipamentos - tonfas, lanternas, pastas, pranchetas, etc, - corremos até nossa viatura e os arremessamos no banco de trás.
- Central, é a viatura 44444 comunicando. Estamos deslocando em apoio a viatura da polícia rodoviária - transmiti na rede de rádio.
- 4444, sua viatura não consta aqui na minha tela, não - respondeu o despachante.
- Tem problema não, Central. É só para dar ciência.
Partimos em disparada e em alta velocidade para apoiar os companheiros. Mais uma vez, senti que era aquilo que gostava de fazer. Amava o risco e a adrenalina do serviço policial.

Nota: Esta é uma obra de ficção. Nomes, personagens, fatos e lugares são frutos da imaginação do autor e usados de modo fictício. Qualquer semelhança com fatos reais ou qualquer pessoa, viva ou morta, é mera coincidência.

"É livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença” - Inciso IX do artigo 5º da Constituição Federal.



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6 comentário(s):

Dagoberto Valteman disse...

Realmente, tal obra me reporta`a época em que estava na atividade, é isso mesmo. Hoje não é com tristeza, porque graças a Deus cheguei vivo para a vida da Reserva, mas com certa saudade que acabei lendo o conto. Esta é a vida do Policial, seja ele Militar, Civil ou Federal, sai de casa na incerteza da volta.

Grande abraço

Dagoberto Valteman - RR BM

http://valteman.blogspot.com
ou: valteman@ibest.com.br

2 SGT PM FILIPINO disse...

É REALMENTE ASSIM A REALIDADE POLICIAL, NÃO TEM DIA, HORA, NEM CLIMA, INDEPENDENTE DE QUALQUER COISA, A ESCALA DEVE SER CUMPRIDA, E MELHOR SE FOR POR POLICIAIS QUE GOSTAM DO QUE FAZEM, E VESTEM A FARDA, PROFISSIONALMENTE, HONESTAMENTE, HONRANDO CADA ATO...ENGRANDECENDO SUA CORPORAÇÃO, ISSO ME ENCHE DE ORGULHO, POR PERTENCER AOS QUADROS DA POLICIA MILITAR PAULISTA.

Dextermilian SD disse...

virada do ano 2008 para 2009 , ocorrências nº 0 , sucesso total , cb videlinos e sd dextermilian kkkk foi só tranquilidade!

soldado da paz, mas treinado para guerra disse...

bobo o senhor não é, bem pelo contrario, com o senhor aprendi ser PM, gostaria que minha namorada tivesse aprendido a ser PM com o SR. se vc não trabalha-se a noite, mas tudo bem. Contudo o SR. hoje poderia estar mais tranquilo e curtindo mais a familia, e quem sabe estar até ja preparando um herdeiro, não só no serviço administrativo, tem lugar na rua também. Sucesso e felicidades em 2009 CADETE DE 1ºANO.

José Ricardo disse...

Li todos os comentários e agradeço pelas palavras. Soldado da paz, também desejo sucessos para você, sua família e sua namorada. Já passou da hora de casar, hein. Fica enrolando a moça não.

Anônimo disse...

Vou parar de ler senão peço reconvocação amanâ mesmo. Não aquento mais essa vidinha sem adrenalina. O stress do combate me faz falta.

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