Operação Macaquinha - Teorias e Práticas

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Operação Macaquinha
·        José Ricardo

Já faz alguns anos que aconteceu a operação. Naquela época, o Sargento Mike tinha autonomia no policiamento. Podia patrulhar onde quisesse, quando achasse melhor, e desencadear a operação que julgasse mais eficaz. E sendo o mais antigo do setor, podia reunir as viaturas para, juntas, combaterem o crime. Ainda não havia sido implementado o policiamento reloginho. Mike aprendeu que ter poder não é ruim, desde que sabiamente usado, e usado para o bem. Com a autonomia que tinha, ele não dava trégua aos traficantes. Se o artista deveria estar onde o povo estivesse, o policiamento deveria estar onde o crime estivesse acontecendo, assim pensava o graduado. Como o tráfico agia ininterruptamente, Mike estava ininterruptamente atacando as bocas-de-fumo; mas eram muitas... impossível atacá-las todas de uma só vez. E impossível somente aos policiais acabar com o tráfico de drogas; já era uma epidemia. Tentava, porém, mantê-lo sob controle, evitando que se tornasse mais poderoso.
Naquela época, o poder do tráfico estava se manifestando sob a suspeita de que membros da quadrilha que dominavam o tráfico de drogas no Morro do Kid possuíam uma submetralhadora, vulgarmente chamada de macaquinha. Tal armamento deveria ser retirado de circulação.

Com a então autonomia que possuía, Mike reuniu os policiais das outras duas viaturas do setor. Equipe reunida, os agentes da lei discutiam sobre a melhor forma de adentrar no aglomerado e surpreender os marginais. Talvez tivessem sorte e encontrassem o armamento com algum deles. Contavam apenas com a sorte, pois não contavam com “agentes secretos” nem com informações mais detalhadas.
- Sargento, eu sugiro que a gente vá a pé. Entre pelos fundos da creche, avançe pela horta, pule o muro do bar do Lyn, pegue o beco do Quizin e prossiga até a boca-de-fumo da Rua Pirineu, que é onde a macaquinha deve estar - disse o Cabo Nissan.
Mike não podia fazer nada senão concordar com o cabo. Nissan, policial veterano no policiamento daquela comunidade, conhecia cada milímetro do aglomerado; tinha mapas dos becos da favela, fotos dos bandidos... Diziam que sabia até a árvore genealógica dos marginas. Enfim, detinha conhecimento. Pena que não sabia informações precisas sobre a real localização do armamento. Impossível discordar do cabo. Mike apenas acrescentou alguns procedimentos de segurança que deveriam ser observados pela equipe durante a operação.
Planejamento feito, discutidos todos os detalhes, tendo cada policial sido orientado sobre o que fazer, inclusive em caso de troca de tiros, os valorosos agentes da lei se dirigiram ao local.
Qual o real motivo de os policiais estarem arriscando a vida para retirar a macaquinha de circulação? Impedir o fortalecimento do tráfico? Sim, ou, talvez, como o Cabo Nissan falava, prazer em ver bandido atrás das grades. Nada de teorias. Quem está na ponta da linha, no fio da navalha, não pode pensar muito. Dizem que quem pensa não casa. Na Police, quem pensa muito não se arrisca, ainda mais quando se fala em combater o já banalizado uso e tráfico de drogas. Mas deixa as discussões para os policiólogos, estes que vivem a inventar teorias e a reinventar a roda. Quando as projéteis passam perto da sua cabeça, você manda essas teorias tudo para aquele lugar.
Conforme planejamento, os policiais foram adentrando furtivamente na favela. Nissan ia à frente, orientando os demais. Todos de arma em punho, concentração total, batimentos cardíacos acelerados.
Ponto a ponto, os policiais foram avançando, até chegarem próximos ao beco que dava acesso à boca-de-fumo. Nissan e Mike, um de cada vez, esquadrinharam a área. Dois olheiros a vigiar a movimentação, e alguns usuários. Os policiais deveriam agir com rapidez.
- Sargento, nós vamos ter que chegar correndo - disse Nissan.
- Certo. Mas vamos chegar com cuidado, dentro das técnicas.
O sargento passou a informação para o restante da equipe.
- Tem dois olheiros lá, e uns sete usuários. A gente tem que chegar correndo, senão eles vão dar o sinal. Parece que a macaquinha não está com eles, mas vamos agir com disciplina tática, ok?
Todos responderam afirmativamente e, ao verem o sargento iniciar desabalada carreira em direção à boca-de-fumo, todos os acompanharam.
- Police! Coloquem as mãos na cabeça! Coloquem as mãos na cabeça! - determinou o sargento aos suspeitos.
A ordem foi prontamente obedecida. Em posição de busca pessoal, os suspeitos foram sendo revistados. Nada de macaquinha; apenas pequena quantidade de maconha e crack com dois usuários, que foram detidos. Em seguida, os policiais fizeram buscas nas imediações do ponto de tráfico, mas não encontraram nada de importante nem mais ninguém.
Muitas outras operações foram desencadeadas por aquela equipe no Morro do Kid, mas o armamento nunca foi localizado. Talvez porque a equipe, não dispondo de “agentes secretos”, era “cega e surda”, ou, talvez, porque a macaquinha nunca existiu.
 
Nota: Esta é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com fatos reais é mera coincidência.

"É livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença” - Inciso IX do artigo 5º da Constituição Federal.
           



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2 comentário(s):

Dextermilian SD disse...

tomará que não exista...que seja mais uma das várias lendas do morro do kid , como a lenda da cal .doze na rua San Sebastian...

José Ricardo disse...

Tomara... Se existe, está muito bem escondida, pois não se houve mais falar dela.

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