Uma excelente reflexão sobre as brigas - Cibele Ruas

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

A maior parte das ocorrências policiais é relacionada a conflitos entre casais, entre familiares, entre vizinhos, etc. Desses conflitos, nascem os crimes, como ameaças, agressões, lesões corporais e o atípico atrito verbal. Podem até culminar no homicídio. Via de regra, os conflitos, ou brigas, originam-se de fatos banais ou da falta de diálogo, e as relações interpessoais vão se deteriorando tal qual uma bola de neve. Percebe-se certa intolerância entre os conflitantes. O texto abaixo, gentilmente cedido para publicação no blog pela psicóloga clínica Cibele Ruas, abordada de forma brilhante as causa e as conseqüências das brigas. O antes, o durante e o depois. Só faltou incluir a presença da guarnição policial...

Brigas 
 
Pai, mãe, irmãos, amigos, namorado(a), marido/mulher... Em geral esses são os alvos preferenciais das brigas. Apesar de serem inúteis na maior parte dos casos, não é todo mundo que consegue evitá-las. Acaloradas, elas seqüestram as emoções e também não é fácil contê-las, ou pará-las.

Em geral se reduzem a um argumento básico: ‘eu tenho razão, você está errado, e tem de admitir’... Podem surgir virtualmente do nada – um esquecimento, um olhar enviesado, uma palavrinha ‘mal-dita’. Costumam ser completamente destituídas de sentido. São capazes de ferver os ânimos e prosseguem em rápida e fulminante escalada.
Em geral, são burras – não vão resultar em nada, não vão funcionar, e quem briga no fundo sabe disso. Mas, quando se vê, não dá mais para parar. Ou quase.
É preciso tentar parar. Embora comuns, as brigas são tóxicas. Como um veneno que se acumula e mata aos pouquinhos, suas conseqüências podem ser funestas.
Basicamente, as brigas brotam de nossa vontade de ser aceitos e compreendidos por aqueles que amamos – embora tantas vezes acabem por nos afastar deles. Naquele momento, pareceu absolutamente inaceitável que a outra pessoa não concordasse com a gente. No calor do momento, pode-se descambar para um vale-tudo verbal – pode-se chegar a ofender e humilhar o outro. Afinal, parece que a única coisa que interessa é ganhar a briga. Resta saber o que é isso...
Quando há divergências, podem ocorrer discussões em outro nível. Trocam-se idéias para buscar alguma conclusão. Pode-se até não definir nada, mas a conversa tem outro sentido. Diferente da briga, a discussão tem princípio, meio e fim.
Brigas bobas são completamente diferentes – não têm meta, têm curso aleatório, muitas vezes andando em círculo, repisando velhos conflitos não-resolvidos. O novo argumento apenas serve de álibi para velhas reclamações. Uma briga boba nunca tem fim – pára por exaustão. Recomeçará depois. Mais tarde, amanhã, daqui a um mês. Não termina porque não tem sentido, ou tem outro sentido, que, aliás, não é diretamente contemplado, mas vaza nas rusgas. Permanece não-dito.
Assim se arruínam muitos relacionamentos. As brigas se tornam moeda corrente. Repetitivas, são incorporadas à rotina. O mal-estar se infiltra, insidiosamente. Briga-se agora, para pedir desculpas mais tarde, aguardando-se a reconciliação.
Desculpas? Em termos: o dano foi feito. O outro sentiu os golpes, por mais que também os tenha dado. As reconciliações sempre se darão em um patamar inferior.
Fazer as pazes? Relativamente. As brigas dilapidam a confiança e o respeito mútuos. Mesmo bobinhas, conseguem minar vínculos.
Com o passar do tempo, vão se tornando mais ácidas. As palavras, mais ásperas. Os motivos, mais mesquinhos e corriqueiros. O desrespeito gerado é acumulativo e segue num crescendo, como se realmente almejasse o fim.
Quando se dá pela coisa, o dano é irreversível. O relacionamento se arruinou. Até a relação pais e filhos – tido como granítico – sofre, quando as brigas são freqüentes. Amigos vão embora. Irmãos se afastam. Namoros são terminados. Casamentos se desfazem.


* Cibele Ruas, autora do texto, é psicóloga clínica






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4 comentário(s):

DextermilianSD disse...

Esse problema é muito comum nas ocorrências de policia , eu por exemplo tento matar no peito todas , costumo fazer algumas perguntas : vc vai querer que seu irmão fique preso? ou vc vai querer que seu filho fique preso? ou vc vai querer que seu marido fique preso? quase 60% , dizem que não, então o máximo que faço é um atrito verbal. o problema fica grave quando está relacionado a drogas, bebidas alcoolicas e a outros crimes.

José Ricardo disse...

A maioria dos/das solicicitantes somente querem que a gente dê uma "prensa" no agressor. Aí fica difícil. Policial não é conselheiro...

Reinaldo disse...

Concordando com o colega anterior e acrescentando também,aqueles que querem que o policial dê apenas um susto.Policial não é fantasma.

José Ricardo disse...

É cada coisa que a gente vê, não é... Deus no céu e a Polícia na terra.

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