Especialização e Eficiência

sábado, 11 de abril de 2009

Num planeta muito distante do nosso...

Sala de cirurgia do Military Hospital Space. O Tenente Lip pega desajeitado o bisturi. Em seguida, duvidoso, abre um manual intitulado: “Instrução 01.05 - Estabelece orientações sobre remoção de próstata no âmbito da Instituição”.

O paciente, percebendo que o tenente estava nervoso, pergunta-lhe:

- Senhor tenente, é a primeira vez que o senhor faz cirurgia de próstata.

- Sim, é a primeira vez. Mas fique tranquilo... No meu curso superior de Ciências Militares Espaciais com ênfase em Defesa Social eu fiz 120 horas/aula de procedimentos cirúrgicos.

O Cabo Wick, auxiliar do Tenente Lip, achava tudo aquilo a perpetuação do hábito do erro e da mentira. Formado em Técnico em Segurança Pública Espacial, Wick fizera 60 horas/aulas de procedimentos cirúrgicos durante o curso de formação policial. Depois de dois anos trabalhando na rua, designaram-no para a sala de cirurgia, onde estava lotado havia 12 anos. Viu muitos oficiais teoricamente comandarem a sala. Teoricamente, porque quem comanda de verdade é aquele que detém conhecimento. Com 12 anos de sala, logicamente Wick sabia muito mais do que quem havia feito apenas 120 horas/aulas teóricas.

Muitos foram os comandantes da sala de cirurgia. Uns ficavam alguns dias; outros, semanas; outros, meses; outros, anos... Quando o oficial espacial começava a ficar especializado em cirurgia, quando começava a prestar o serviço com eficiência, retiravam-no da sala, seja para ele ser promovido, seja porque não agradou quem de direito, seja... E todo aquele conhecimento era perdido, e a sala de cirurgia continuava prestando seus serviços sob o conhecimento do Cabo Wick e dos demais praças que por lá serviam havia mais tempo. A lógica era invertida; ao invés de o superior ensinar ao inferior, era este quem ensinava àquele. Há séculos era assim...

 Ao ver o Tenente Lip se aproximando com o bisturi na mão, o paciente pulou da maca e fugiu em desabalada carreira hospital afora...

É lógico que a história acima é fictícia, até porque não sabemos se existe vida em outro planeta. Mas já pensou você sendo operado por um bacharel em Ciências Militares Espaciais com ênfase em Defesa Social. Lógico que isso nunca vai acontecer, porque a legislação proíbe, exceto se esse bacharel também for formado em Medicina. Inventei-a para mostrar que o profissional deve ser especializado para a função que irá desempenhar.

No meu ponto de vista, um curso de três anos jamais será capaz de formar o aluno para desempenhar uma série de atividades que exigem especializações diversas. Sendo mais específico. Forma-se, ou tenta-se, formar o aluno para ser especializado em militarismo espacial, em policiamento, em administração, em recursos humanos, em atividade de inteligência, em estatística, em planejamento, em logística, em finanças, em licitação, em comunicação social, em direito penal, militar, administrativo... E tudo isso em apenas três anos...!? Possível?

Certas atividades exigem especialização e prática. Os clínicos gerais estão em extinção. Isso ocorre porque é impossível ser bom em tudo, e para ser bom, é preciso ter conhecimento especializado. Para ser bom, é preciso ser excelente. O cliente exige qualidade total, exige excelência. É a lógica da atualidade. Quando você procura um mecânico para consertar seu automóvel, qual resultado você espera dele? Você quer que ele te fale que “acha” que o defeito é em tal peça, ou você quer que ele te fale que tem certeza que o defeito é naquela peça? E por falar em mecânicos, até eles estão ficando especializados. Repare nas placas das oficinas. Especializada em alinhamento e balanceamento. Especializada em injeção eletrônica. Especializada em veículos a diesel. Especializada em marca tal. Especializada...

Já estava me esquecendo da prática. Dou apenas um exemplo. Oferta de emprego, qual exigência mais comum? Sim, experiência. Sempre exigem experiência.

Se os profissionais e as empresas estão se especializando, a Military Police Space não pode ficar fora do contexto. Precisa-se de profissionais especializados, profissionais eficientes. Eficiência é um dos princípios constitucionais referentes à Administração Pública. Está na Carta Magna.

Seções na Military Police Space com profissionais especializados seria o ideal, no meu ponto de vista. Por exemplo, o chefe da seção de finanças deveria ser um bacharel na área (contador, economista, etc). Quem trabalha fazendo análise de procedimentos administrativo-disciplinares necessariamente deveria ser um bacharel em Direito, assim como a autoridade de polícia judiciária military space também deveria ser um bacharel em Direito, especializado em Direito Militar.

Chega da cultura "do pato". Já falei sobre a cultura "do pato", mas não custa nada repetir. Forma-se o profissional para ser um "pato", para "andar", "nadar" e "voar"; porém o pato não anda, não voa nem nada com eficiência. Faz tudo, mas... e a qualidade, a eficiência?

Claro que é impossível implementar essa especialização “do dia para a noite”. Por enquanto, deixemos como está. Mas, para os próximos concursos, fica a sugestão. E não só a nível gerencial, não. Também a nível técnico. Técnicos especializados nas seções também seria o ideal. Profissionais excelentes, prestando serviço de qualidade.

Vou dar um exemplo. Sabemos que a elaboração de processos e procedimentos administrativo-disciplinares é algo complexo. Eu já falei sobre isso em outra postagem. E além de ser complexo, é necessário uma infraestrutura mínima para realização dos trabalhos. Agora imagine uma Seção especializada em Justiça e Disciplina. Todos os procedimentos administrativo-disciplinares sendo feitos por essa seção, que teria profissionais especializados nesse trabalho, profissionais excelentes, eficientes, altamente treinados, com experiência e prática. Imaginou? Imagine agora se todas as outras seções também fossem assim, com profissionais especializados, experientes, treinados e, consequentemente, eficientes.

Profissionais especializados trariam até economia para os cofres públicos. Não apenas pela eficiência, mas também na formação. Quem é da casa sabe que os cursos na instituição dos profissionais de medicina e enfermagem têm um prazo de duração bem menor do que os demais. E com profissionais especializados, já formados na área que iriam atuar, também poderia ocorrer da mesma forma.

Eu acho que se teria até mais munições para os operacionais treinarem. E os operacionais também seriam altamente treinados, especializados e eficientes.



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8 comentário(s):

Victor disse...

Excelente crítica, levanta a problemática sem indisciplina ou subversão, concluindo com uma sugestão de solução para o tema em voga. Coincidência ou não, tratei aproximadamente do mesmo tema em recentes postagens curtas no Blitz Policial, avaliando formação e especialização no âmbito da PM, bem como os prilégios morais diferenciados que alguns concedem a unidades ditas especiais, além do drama da formação universal que prepara para tudo, ou nada. É essa discussão salutar que precisamos sempre promover, muito bom!

José Ricardo disse...

Senhor aluno a ofical Victor, eu li atentamente as postagens no Blitz Policial. Muito boas. Essa formação universal é deletéria. É impossível saber tudo e ser bom em tudo. É necessário especialização, e especialização gera eficiência. Um exemplo clássico da especialização são os médicos, que a cada dia estão mais especializados. É preciso acabar com a cultura "do pato".
Saudações!

Victor disse...

Ah, vá desculpando por, indisfarçadamente, ter escrito aqui antes de ler o seu comentário lá no Blitz Policial. Estive afastado da internet no feriado, assim que cheguei em casa agora à tarde acessei o Universo Policial antes de ter lido os comentários do Blitz e acabei fazendo a menção sem ter ainda conhecimento do que você escreveu lá. Muito obrigado!

DextermilianSD disse...

debates como esses , é que levam a prática ! vamos evoluir gradativamente , mais poderia ser mais rápida essa evolução...

Anônimo disse...

Utilizando seu exemplo acerca dos médicos, estes se formam generalistas e, posteriormente, se especializam. Então, o CFO é genérico e, a posteriori, a pessoa se especializa nas diversas áreas do serviço policial-militar. Essa especialização é na prática e não tem grandes segredos. Ademais, há vários cursos de especialização internos, inclusive cursos de especialização latu sensu reconhecidos pelo MEC. Em hipótese alguma seria necessário um bacharel em Direito para administrar uma Seção de Recursos Humanos. Em várias empresas, os funcionários são punidos e não com aval de bachareis em Direito. Isso é uma falácia.
A praxis da atividade policial-militar é alcançada com o trabalho dia-a-dia.
Pela sua opinião, uma pessoa formada em Adminstração de Empresas teria que prestar um concurso para administrar certa área da PM; uma pessoa formada em Economia faria um concurso para trabalhar em outra seção da PM; uma pessoa formada em Direito em outra seção....e assim por diante.
Você já ouviu falar em Adminstração Militar, uma das mais antigas assim como a Igreja Católica? Como sugestão, pesquise sobre Adminstração Militar e o que é o Militarismo.
O serviço de Polícia deve ser tratado com cientificidade, assim o recém formado no CFO tem o conhecimento teórico que vai se somar à prática. As praças antigas têm o conhecimento prático. A teoria deve ser aliada a prática. Nenhum sabe mais ou sabe menos que o outro. O conhecimento se soma. Mas, indubitavelmente, quem tem o conhecimento teórico ("científico") são os bachareis em Ciências Militares com ênfase em Defesa Social.
Outra coisa, seria economia para os cofres públicos formar um Tenente que trabalhasse apenas em uma seção durante toda sua carreira de 30 anos? Absurdo!
Temos que parar de colocar grandes segredos no serviço policial-militar e agir logo para proporcionar bons serviços à comunidade. Muitas pessoas levam os cursos da PM como brincadeira, assim como fazem faculdade. Aí, formam-se profissionais despreparados, sem conhecimento e cheios de desculpas e subterfúgios.
Cada um na sua formação, buscando se aprimorar, trabalhando com seriedade, profissionalismo, aí sim teremos a tão falada eficiência.
Enfim, essa é minha singela opinião.
Utilizando sua parábola, ressalto que o Cb Wick que você disse que logicamente sabia muito mais que o Tenente, pode fazer o CFO e assim comandar alguma seção da PM e largar de ser frustrado.

José Ricardo disse...

Anônimo, eu não quero impor uma verdade, muito porque eu não sou dono dela. Expus meu ponto de vista. A verdade, ou parte dela, somente é desvendada por meio de discussões e debates. Então, vamos debater. Comecememos pelo final do seu comentário, que, por sinal, foi muito infeliz. Quem disse que o personagem fictício Wick é frustado? Quem disse que o Wick quer fazer o CFO? Em outros blogs de praças, sempre venho notando essa falta de argumentos de comentaristas que, aparentemente, são oficiais. Sempre dizem: Está achando ruim, faça o CFO. Não gostou, faça CFO. Quer mudar a instituição, faça CFO? Eu acho é graça de vocês que dizem isso, pessoas não abertas ao diálogo e à discussões, que endeusam um curso como se quem o fizesse fosse melhor ou mais sábio do que os demais. Se você pensa assim, o que eu posso fazer? Nada!

O médico, para obter o diploma, estuda seis anos em período integral, e ainda assim não pode ser nem clínico geral. Para ser um especialista, o médico deve realizar uma residência médica e prestar um concurso junto a associação médica da especialidade, que é reconhecido pela Associação Médica Brasileira e homologado pelo Conselho Federal de Medicina (CFM), sem o qual ele é apenas médico, sem especialidade. Até para ser considerado Clínico, o médico deve fazer Residência em Clínica Médica, com duração mínima de 2 anos. Portanto, nem o clínico pode ser considerado um médico "genérico". E a medicina têm muitas especializações possíveis, algumas subespecializações e as denominadas "áreas de atuação". E o clínico geral não atua na área dos especialista. Ele apenas adota as primeiras medidas e encaminha para o especialista.

A respeito do CFO, qual é a especialidade? Ou será que é possível se especializar num infinidade de ciências? Recursos Humanos, Logística, Finanças, Comunicação Social, Administração, Direito, Segurança Pública, ciências militares, etc. 
Existe um diferença brutal entre conhecimento e diploma. Os que detém conhecimento detém conhecimento, mesmo que não detenha nenhum diploma. Os que detém diploma detém diploma, podendo ter ou não conhecimento. Não existe semelhença entre conhecimento e diploma.

O médico não dedica toda a sua vida profissional à medicina? Os médicos do quadro de saúde da PM não dedicam toda a sua carreira à medicina, e vão galgando promoções ao longo do tempo, podendo trabalhar na mesma seção ou não? Por que não poderia ocorrer da mesma forma com os oficiais especialistas (recursos humanos, finanças, logística, etc.)? Na PM, qual a duração dos cursos dos profissionais do quadro de oficiais de saúde? Tem-se ou não uma economia?

Anônimos, desculpe minha falta de conhecimento, mas quais são esses vários cursos de especialização internos, inclusive cursos de especialização latu sensu reconhecidos pelo MEC? Especialização em quê?

Aguardo resposta.

Anônimo disse...

Vejam que a economia é possivel sim, caso os editais para o CFO fossem por especialistas da área e mediante concurso público. A duração seria até menor, visto que somente a área geral seria abrangida, ou seja, as minúcias policiais e militares.
Em um concurso sério somente os melhores de cada área estariam aptos e após esse CFO de menor tempo e custo todos poderiam ser comandantes de polícia militar se exigido fosse.
Interessante que teríamos oficial de informática, recursos humanos, economista, contador, entre outros necessários ao serviço.Assim sendo até o CFO para oficial combatente seria de menor tempo e custo, visto que a parte que seria especializada seria feita pelos demais quadros. Quando das promoções ao oficialato superior seriam feitas outras exigências em que mediante concurso interno, futuros candidatos a oficiais mestres e doutores se tornariam aptos a desenvolver conhecimentos em áreas específicas dentro dos interesses institucionais.
Dentro desse conceito apresentado acabaria essa divisão entre oficiais e praças, pois todos seriam oficiais de polícia e os degraus seriam menores. Haveria isonomia salarial entre os degraus.
Imagine dentro dos quadros os seguintes degraus:
1- Soldado
2- Sargento
3- Capitão
4- Coronel
No primeiros estariam todos os Cb e Sd, no segundo os Sgt e SubTen, no quarto os Ten e Cap e no último os oficiais superiores.
Soldados, tecnólogos e bacharéis.
Sargentos, especialistas.
Capitães, mestres.
Coronéis, doutores.
Todos iniciariam as carreiras como soldado e dentro de cursos e vagas disponíbilizados pela instituição dentro das necessidades da própria seriam promovidos por concurso aos demais degraus.
Evidentemente que devido as vagas nem todos chegariam a coronéis, porém os destacados nos concursos e cursos sim, ou seja, os melhores dentro de suas áreas e postos.
Com vontade política tudo isso é possível.
O apoio do governo federal, no caso da PEC 300 ser aprovada, seria fundamental e a idéia acima poderia ter efeito dentro de regulamentação da emenda constitucional.
Evidentemente, tudo isso tem que ser motivo de estudo e debate.
Vou mandar essa idéia a deputados e senadores já!

José Ricardo disse...

Companheiro, como diz a máxima, "Dos choques e confrontos nasce a Justiça e a Verdade". Muito interessante essa sua proposta. É preciso redefinir a segurança pública como um todo. Saudações.

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