Um lixo, um verme, uma máquina de trabalhar...

sábado, 6 de junho de 2009

Estou ausente. Não consigo encontrar inspiração para escrever. Minha mente está cansada. Uma pilha de papéis se acumula sobre minha mesa. Trabalho ininterruptamente, vorazmente. Quando chego a minha casa, já estou esgotado; e enojado de olhar para uma tela de computador.

Todavia, parece que sou o único preocupado com meu trabalho. Eu não produzo resultados para a corporação, não trabalho na atividade fim. Meu trabalho não aparece. E, por não aparecer, meus chefes devem pensar que fico o dia inteiro coçando saco na ociosidade. A cada dia me sinto mais desvalorizado, sinto que meu trabalho não tem nenhum valor.

Continuo sendo massa de manobra, e agora nem consigo planejar minha vida pessoal. Não raras vezes, aparecem escalas especiais no final do expediente. Isso quando não aparecem na sexta-feira à tarde, jogando por terra todo o planejamento que eu tinha feito para o final de semana. Final de semana? Não faço mais planos para ele. Na verdade, não faço planos para mais nada... Só penso na aposentadoria, que ainda está longe, a décadas de distância.

Como forma de “compensar”, costumam me dar um dia de descanso ou um meio expediente. Como se compensasse alguma coisa... A cada dia que não trabalho, a pilha de papéis aumenta em velocidade descomunal. É como um sono perdido; difícil de recuperar. Na verdade, a folga é um engodo, porque, no final, eu vou ter que trabalhar dobrado para dar um fim na papelada que acumulou. Ou alguém se habilita a fazer o meu trabalho?

Essas escalas especiais me deixam indignado. Existe uma norma da corporação de que essas escalas devem ser comunicadas com no mínimo 48 horas de antecedência. Mas parece que trocaram horas por minutos. Eu devo ser um lixo, um bicho sem valor, sem sentimento, sem vida pessoal. E ainda devo dizer sempre muito obrigado, sempre abaixar a cabeça, ser bem disciplinado, só fazer pelo bem da nação, tudo pelo interesse público, tudo o que me for ordenado, para ganhar, da comissão final, um diploma de subserviente e de bem comportado. Eu mereço, tudo vai bem, tudo legal...

Um dia ouvi um companheiro dizendo que não reclamava porque, se não estivesse na corporação, estaria capinando beira de estrada. Não vou dizer que ele está errado, porque cada caso é um caso. Mas minha situação é diferente. Eu abandonei uma Universidade Federal para ingressar na corporação, deixei de lado um futuro promissor. Tentei crescer na corporação. Por duas vezes, quase consegui, mas tive a infelicidade de ouvir que “não fazia nada mais do que minha obrigação”. Agora, não arrisco a minha vida de maneira nenhuma pelo cumprimento da missão. Não arrisco mesmo! Por isso não reclamei quando me mandaram ficar atrás de uma mesa. Não era isso o que queria quando ingressei na corporação. Entrei pela adrenalina, justamente pelo risco. Gostava de sentir o coração batendo mais forte. Mas, na realidade, a adrenalina e o risco andam bem próximos da morte, ainda mais nesse sacerdócio. Vida só se tem uma. Não é como vídeo-game. Passei por situações difíceis. E ainda tive de ouvir certa psicóloga me falar “que não fazia nada mais do que minha obrigação”. Naquele momento, morreu um profissional apaixonado pelo que fazia...

Agora estou eu aqui, sem nenhuma vontade de perder minha vida para cumprir metas nem de me arriscar por uma sociedade que só me critica; agora estou eu atrás de uma mesa e de uma pilha de papéis; estou eu cada dia mais cansado, exausto, sem direito de planejar coisa alguma; esgotado psicologicamente; sem inspiração; um lixo, um verme, um bicho, uma máquina de trabalhar...

Nota: Esta é uma obra de ficção. Nomes, personagens, fatos e lugares são frutos da imaginação do autor e usados de modo fictício. Qualquer semelhança com fatos reais ou qualquer pessoa, viva ou morta, é mera coincidência.


"É livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença” - Inciso IX do artigo 5º da Constituição Federal.



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15 comentário(s):

Andreia Borges disse...

Uma triste realidade. O profissional desmotivado e assoberbado de trabalho, tendo seus sonhos de crescimento numa carreia que amava, ceifado..........

Anônimo disse...

Me sinto péssima com essa situação.O que posso fazer para te ajudar? Sinceramente não sei, estou de pés e mãos atadas.
O importante é que te amo muito e estarei sempre do seu lado.
Bjos

Anônimo disse...

procura novos ares! vc é muito inteligente , faça um novo concurso público , faça uma faculdade, se a pmmg não te valoriza como devia o jeito é sair. eu estou fazendo faculdade e tenho outras oportunidades no futuro , por enquanto essa vida de policial é boa , nuncam atrasam o salário, sendo eu soldado não tenho tantas obrigações , minha escala é simples , e estou satisfeito. mais até quando? vou tentar concurso para sgt? a resposta é não! vou tentar cfo? a resposta é não! vou terminar a minha faculdade e buscar novas oportunidades , o caminho será fácil? não! mais vou percorre-lo , os nosso sonhos são infinitos, as barreiras e os obstáculos que aparecem , são eficazes para aqueles que não acreditam em sonhos , mais eu acretido! nasci para ser comerciante um homem de négocios, entrei para pmmg , porque gosto! senão não estaria a cinco anos na corporação! está certo que existe disfunções burocráticas que atrapalham o decorrer de nossas vidas na corporação , mais fazer o que? há como mudar a policia sendo coronel? a resposta é não! a como mudar a policia sendo governador? a resposta é sim! talvez algum dia as coisas melhorem , ainda mais! tomará que os problemas se resolvam! as vezes devemos para e pensar se estamos caminhando pelo caminho que realmente nós escolhemos. a qualquer hora podemos mudar de direção só depende de nós mesmos.

Ednaldo disse...

Eu li toda essa mensagem e confesso que mexeu comigo, fiquei emocionado, se contrasta com a nossa vida profissional.

Nelson disse...

FICÇÃO OU A REALIDADE DE ALGUNS?

Segundo Sargento disse...

Se realmente for uma ficção, ainda bem! Mas se for um depoimento de um profiissional da gloriosa PMMG, isto me deixa desapontado! Tenho 22 anos de serviço e o que move a continuar trabalhando é a questão profissional, jamais pensei em salário, estabilidade e se o pagamento não atrasa. O que move é gostar daquilo que faço. Lógico que já tive muitas decepçôes. A Polícia Militar é uma grande instituiçâo, agora quanto a sua administraçâo, como um profissional disciplinado, não posso tecer comentários. É triste a realidade da Polícia Militar, quando nela ingressei, tinha a certeza que era o que queria, hoje usa-se a PM, ou o Estado, como um trampolim para se conseguir coisa melhor. qual será a futuro da Polícia Militar.

José Ricardo disse...

Segundo Sargento, por que o senhor ficou desapontado? O personagem do conto também ingressou na corporação por que era isso o que ele queria. Tanto é assim que ele abandonou uma Universidade Federal. Mas nem tudo acontece como nós planejamos, não é mesmo? Não sou contra o "trampolim", desde que o profissional cumpra com dedicação o seu trabalho. Obrigado por participar do blog.

Sandro disse...

Pena que isso não é uma ficção. Um profissional motivado no início de carreira e agora desmotivado e atarefado de trabalho. Excelente texto.

Anônimo disse...

Que situação difícil e, infelizmente, presente cada vez mais em corporações onde jamais poderia existir tal coisa, principalmente com a constância que ocorre, mas sabemos que isso não é de hoje. A realiadade está aí e não pode ser varrida para debaixo do tapete.
Sinto-me triste em saber que "funcionários" dedicados e fundamentais como o citado no texto, estão bastante desmotivados e pensando em deixar a "empresa". Nesse "negócio" quem perde é o "consumidor".
Espero dias melhores, e o pior que é somente isso que eu posso fazer.
Não desista! Dias melhores virão!

"Há homens que lutam um dia, e são bons;
Há outros que lutam um ano, e são melhores;
Há aqueles que lutam muitos anos, e são muito bons;
Porém há os que lutam toda a vida
Estes são os imprescindíveis"

sd Lourenço disse...

Depois de ler isso eu li também hoje no quartel (36 bpm )quem iria recerber a gloriosa medalha Alferes Tiradentes na nossa instituição. Desde quando entendo por militar sei que a maioria é Praça dentre os Praças a maioria são soldados e dentre os soldados somente dois agraciados com a medalha Alferes Tiradentes. Existe na lista coronéis de outros Estados, Desenbargadores, Juízes, Deputados e para minha surpresa quando vejo na lista por ordem de hierarquia como manda o figurino eu vejo dois soldados depois cinco civis que não são autoridades ( não estou questionando o trabalho deles é claro) mas cinco civis e dois soldados. Aí meu amigo como é que o praça trabalha motivado? Pergunta aos universitários ou quem avalia aquisição das medalhas... Avante Guerreiro!!!

xmen disse...

Cara ! meu vc é fantástico nas suas historias ,é de um realismo fenomenal , vc consegue transmitir de fato a realidade dessa nossa vd , desse dia a dia de caserna.

Psicologo disse...

NãO é ficção é a realidade nua e crua.
Quem não estuda marca passo, não progride.
1 velho ditado : quer aumento de salário estude e faça cursos. Escutei isso há 25 anos de 1 praça velho.

Juliano disse...

estude, prepare-se e vem trabalhar na prf comigo. vamo pro NOE da um gas lá. eu era lavador de viatura daqui alguns meses Policial Rodoviário Federal, aprovado no 1º concurso de nível superior para o cargo de agente. Agradeço a Deus; rua é assim mesmo, infelizmente. Só Deus vê aquilo que o policia passa lá. Na prf apesar de ter uma finalidade diferente pelo menos remunera apropriadamente seus servidores. Hum... No final melhor que um parabéns é uma conta gorda. parabéns não paga conta e daqui a pouco vira, "fez mais que obrigação".

Juliano disse...

outra coisa que não posso deixar de passar. ouvi de um superior meses atrás: "faz concurso pra cb., tem policial que está há vinte anos fazendo concurso aí fora e não passa. Daqui uns dias minha resposta vai vir, haohaohaohaohoa.

Anônimo disse...

É companheiro isto é uma triste realidade, mas nao desanime,podemos mudar, basta muitos quererem, a sociedade nao sabe o que a gente passa, nem mesmo dao valor ao nosso serviço, mas basta precisar que estamos ali prontos para atende-los da melhor maneira possivel. Chegara um dia que nao tera mais ngm para fazer esse papel que agente faz, ai veremos somo será! Essa sociedade injusta nao nos merece.

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