Adair, o estrategista

terça-feira, 21 de julho de 2009

Ainda não entendo porque travávamos uma guerra particular contra os traficantes. Era algo obsessivo. Talvez porque não tínhamos sangue de barata, não sei. Eu ficava abismado com a audácia dos vagabundos, vendendo papelotes de crack como se fossem pacotinhos de amendoim torrado. Tamanho atrevimento tornou o que seria profissional em uma questão pessoal. O bom era que eu não estava sozinho.

Lembro-me que, em certo 4º/1º turno, eu e o soldado Barros deixamos a viatura em local seguro e deslocamos a pé até um ponto de observação. Por cerca de trinta minutos, monitoramos a boca-de-fumo situada alto da favelinha. Os vagabundos ficavam na entrada de um beco oferecendo o produto para qualquer um que por ali passasse. Estava algo descarado, e não era sem motivo que chamavam o local de "cracolândia". Aquela ousadia me fazia sentir derrotado. Mas a guerra contra as drogas era perene, e a nossa batalha, naquela noite, só estava começando.

Como nos outros turnos, era somente eu e o Barros na viatura. Precisávamos de apoio de uma guarnição "ponta de linha". Chamei no rádio a VP do Cabo Adair e Soldado Quintão. Fizemos contato na sede da Unidade. Expliquei para o grupo a situação. Na verdade, Adair sabia até mais do que eu e Barros sobre o tráfico no local. Então, era ora de planejarmos o "pulão". Não havia margens para erro, até porque estávamos com efetivo reduzido. Iríamos incursionar por uma zona quente de criminalidade com apenas quatro policiais.

No serviço operacional, nem sempre o mais antigo dita as principais regras da operação, pelo menos não quando eu estava no comando. Dizem que quem detém conhecimento detém autoridade. A respeito daquela favelinha e do modus operandi dos vagabundos do aglomerado, Adair era o "Papa". Eu trouxe a missão, Adair veio com a estratégia.

Surpreender infratores em seus locais de atuação é algo muito difícil. Os vagabundos monitoram tudo, conhecem todos que moram e transitam pelo local. Não vou contar detalhes da operação, até porque posso precisar repeti-la algum dia. Mas saiba que a estratégia do Adair foi brilhante.

Lembro-me que andamos muito; um dos becos era bem íngreme, sendo necessário ótimo preparo físico para avançar morro acima com a arma em posição de pronta resposta. Quando nos aproximarmos da boca-de-fumo, pudemos ouvir a conversa dos marginais.

No momento de dar bote, o "pulão", a adrenalina sempre se eleva. A cabeça pensa muita coisa. Se houver reação, é nós ou eles. Quando se está a frente da operação, ainda a gente pensa em como seria falar com os familiares do companheiro que ele faleceu em serviço. Não deve ser fácil. Então, se a situação exige que alguém vá para o caixão, que seja do outro lado.

Em decisão unânime, todos progredimos em disparada para a boca-de-fumo. Dois vagabundos estavam no local. Um deles arremessou a arma que portava em direção dos barracões da favelinha. O outro jogou no chão uma embalagem contendo oito papelotes de crack. Não houve reação, e determinamos que os dois se deitassem na pista de rolamento. Não conseguimos localizar a arma. Estava escuro, e não deu para ver onde ela foi parar. Com certeza tinha mais droga, mas os traficantes não são idiotas de ficarem de posse de grande quantidade de entorpecentes. Então, os dois só foram conduzidos com os oito papelotes arrecadados, quantidade nada expressiva.

No final das contas, e horas após a previsão do término do turno, com minha esposa já ligando preocupada para meu celular, fomos liberados do APF que foi lavrado por tráfico de drogas. Pelo menos conseguimos "flagrar" os dois. Sensação de dever cumprido.

Em decorrência da operação, fomos recompensados, um ano depois, com uma mera menção elogiosa verbal. O comandante achou que nossa ação não merecia sequer uma menção elogiosa escrita. Olharam mais pela quantidade da droga apreendida do que pela complexidade da incursão. Não sabem eles que, se desse "merda", a solução era pedir prioridade, chamar o pégasus e abrir caminho à bala. Mas estamos na era dos números, das estatísticas... O que são oito papelotes de crack? Não reclamo, porque, como eu disse no início, era uma guerra particular. Não conseguiríamos dormir tranquilos se não fizéssemos nada.

Enfim, a operação só foi bem sucedida, só conseguimos o efeito surpresa, porque contávamos com o Adair, o estrategista, que ultimamente vem se destacando, juntamente com sua excelente equipe, no comando do Grupo de Operações, guarnição superpadrão, altamente operacional, que anda sufocando a criminalidade em nossa cidade.

Nota: Esta é uma obra de ficção. Nomes, personagens, fatos e lugares são frutos da imaginação do autor e usados de modo fictício. Qualquer semelhança com fatos reais ou qualquer pessoa, viva ou morta, é mera coincidência.

É livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença” - Inciso IX do artigo 5º da Constituição Federal.



Gostou desta postagem? Então cadastre-se AQUI para receber as atualizações do Universo Policial no seu e-mail ou no seu agregador de Feed/RSS.

10 comentário(s):

Ednaldo. disse...

Bom dia para todos vocês, este fato está prestes a acontecer conosco na cidade em que trabalho, Irecê, interior da Bahia, a droga da droga está avançando assustadoramente em nossa sociedade, destruindo jovens, familias, lares. É muito difícil para nós policiais agirmos isoladamente, porque na maioria das vezes as autoridades superiores fazem vistas grossas para o problema que tende a se agravar mais e mais, é o mal do século.No BPM que trabalho existem vários Adairs, com os mesmos propósitos, a mesma garra, só falta o respaldo da lei.

uuoouoOUUUOP disse...

muito bom esta postagem, este camarada merece, alem de ser um excelente companheiro. so mesmo o universo policial para valorizar nossa gente. adair este e o kara. eu sempre digo devemos trabalhar para satisfaçao pessoal, porque a policia e mesmo a sociedade nao nos valoriza nunca. mas o sr sgt vem amenizando este quadro citando quem merece de verdade. parabens.
cb soares

José Ricardo disse...

Cb Soares, o Adair merece. o Cara é bom! A exemplo do que você disse, temos que trabalhar realmente pela satisfação pessoal.
Certa vez, uma psicolóca da instituição me disse: "Você não fez nada mais do que sua obrigação". É isso que eles pensam, que nossa vida não vale nada. Hoje em dia, depois de tomar duas "rasteiras", penso que não vale à pena. Temos que pensar em nossas famílias, que ficam em casa nos esperando enquanto arriscamos nossas vidas por uma sociedade que acha que "não fazemos nada mais do que nossa obrigação". Cordiais saudações.

Anônimo disse...

UMA VEZ FIZ A PRISÃO DE UM ASSALTANTE QUE JÁ A ALGUM TEMPO ATERRORIZAVA OS COMERCIANTES DO LOCAL.
RECEBI UMA MENSÃO ELGIOSA VERBAL.
ACREDITO QUE FOI PORQUE NÃO APREEDEMOS UMA ARMA. O ASSALTANTE NAÕ USAVA ARMA AGIA NA SUGESTA.
MAS O CRIMINOSO SÓ FOI PRESO PORQUE EU E MEU PARCEIRO PERSISTIMOS NA LOCALIZAÇÃO DO INDIVÍDUO, E OBTIVEMOS O APOIO DE ALGUNS INFORMANTES E CLARO DO PESSOAL DA COBETURA, GRUPO TÁTICO E TÁTICO MOVEL.
ATÉ ENTÃO IMAGINAVAMOS QUE O CARA ESTAVA ARMADO.
O IMPORTANTE É QUE PRENDEMOS O CARA, PEGAMOS AQUILO COMO SE FOSSE COM A GENTE E FOMOS EM FRENTE, SE QUIZESSEMOS NÃO PRECISAVAMOS CORRER ATRAZ, MAS A GENTE FOI, CORREMOS OS RISCOS PORQUE TEMOS SANGUE NA VEIA E A POLÍCIA O DEVER NO CORAÇÃO.
ME SOLIDARIZO COM VC, A NOSSA PROFISSÃO É ASSIM, NÃO TEMOS O DEVIDO RECONHECIMENTO DA PARTE DO COMANDO E NEM DA SOCIEDADE, MAS NÃO IMPORTA VAMOS PRA GUERRA ASSIM MESMO.

DextermilianSD disse...

parabéns ! mais uma vez ! que belo post! Adair é um amigo, e um policial exemplar! concerteza é um dos melhores policiais do batalhão! se algum dia tiver que cumprir uma missão dessas quero está do lado do adair, termino com uma frase: bandido bom é bandido morto !

Sou Galo disse...

Hehehe... Talvez se tivesse uma lanterna essa "menção elogiosa verbal" teria sido pelo menos uma escrita... ah.. e um dia de folga... heheh
deixando a brincadeira de lado, este relator aí faz uma falta danada na rua!! cb adair (pupupupupupú) eh bão!

parabéns pelo post...

Anônimo disse...

quando li este artigo e vi adair nao me liguei a pessoa entao perguntei a um colega e ele me disse adair e o draque. entao e que caiu a ficha ja trabalhei com ele no 35 antiga 7 cia ind, o chamavos de a milhao,e le usava o nome de sd santos, as vezes o cpu tinha que ficar ordenando a ele que saisse com sua mp das areas de risco ate nos mesmos o repreendiamos, mais tava no sangue dele de nos dar cobertura, e ele nem ligava. em certa ocorrencia o fato foi mais ou menos assim, ele chegava aqui em santa luzia para assumir o turno e ele estava em sua moto particular, quando no viaduto do via colegio ele deparou com um casal que havia sido assaltado, ele nao pensou duas vezes foi ate o alto da favela e sozinho rendeu os dois ladroes recuperou o produto do roubo e aguardou a vp para a condução. dizem que quando o cb wilson chegou ao local e viu aquela cena varios curiosos em volta e ele ali de arma em punho no meio da favela e os dois ladroes deitados no chao ele quase espancou o ¨a¨ milhao. dava gosto de realmente trabalhar ao lado dele eu nao tive oportunidade de trabalhar na mesma guarniçao dele mais tive o orgulho de sber que ele estava e ainda esta do nosso lado. eu cresci vendo filmes e desenhos de super herois mas jamais imaginei que a realidade pudesse passar tao perto, o que os herois fazem nao sao recompensados eles sao ate mesmo injustiçados. mais eles sao como os super herois se dao por satisfeitos de concluirem os seus atos de bravura, e repousam com a sensaçao do dever cumprido.

José Ricardo disse...

Adair é o Drack, e o Drack é o Adair. Excelente profissional. É um daqueles que carrega a polícia nas costas. Tive o orgulho de poder trabalhar com ele.

Anônimo disse...

e o drack ta no tatico movel e continua arrebentando. outro dia eu cachorro morto tinha apreendido uma barra de maconha, ai eu chamei o drack para ele entrar na minha ocorrencia, ai ele disse que nao podia pois estava a caminho da dp com uma barra e meia e ainda com um rata viga apreendido.

José Ricardo disse...

O cara é bom mesmo. Tem tirocínio. Ser policial tá no sangue.

Postar um comentário

Comentários - Regras e Avisos:
- Nosso blog tem o maior prazer em publicar seus comentários. Reserva-se, entretanto, no direito de rejeitar textos com linguagem ofensiva ou obscena, com palavras de baixo calão, com acusações sem provas, com preconceitos de qualquer ordem, que promovam a violência ou que estejam em desacordo com a legislação nacional.
- O comentário precisa ter relação com a postagem.
- Comentários anônimos ou com nomes fantasiosos poderão ser deletados.
- Os comentários são de exclusiva responsabilidade dos respectivos autores e não refletem a opinião deste blog.
- Clique aqui e saiba mais sobre a política de comentários.

 
Os pontos de vista aqui publicados são de responsabilidade dos respectivos autores, não representando versões oficiais de quaisquer instituições.
© 2007 Template feito por Templates para Você - Deformado por José Ricardo
▲ Topo