Infância perdida

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Eram 23 horas e 15 minutos da noite de sábado, 06 de maio de 2006. Patrulhávamos pelo bairro Nova Pampulha; na época, o mais perigoso da área de atuação do GIEAR (Grupo de Intervenção Estratégica em Área de Risco). Naquele lugar, naquele dia da semana e naquele horário estávamos mentalmente preparados para o pior – troca de tiros, homicídios, traficantes em fuga rumo aos becos estratégicos que ali existem, crianças e adolescentes usando entorpecentes, etc. Entretanto, o que aconteceu foi bem mais simples, mas não menos grave. Quando descíamos a rua dezoito, local onde é comum o confronto armado entre policiais e criminosos, uma mulher apareceu no meio da via. Os braços estendidos para o alto, sacudindo de um lado para o outro demonstravam desespero. A primeira ideia que nos vem à cabeça não poderia ser outra: mataram alguém. Entramos em estado de alerta. Todos com arma em punho. Os dedos indicadores coçavam o gatilho. Um simples estampido provocaria uma saraivada de tiros na direção do estrondo. Felizmente, nada disso ocorreu.

A aparência da mulher denunciava a vida sofrida que levara. A conversa arrastada e o hálito etílico que nos entorpecia deixava claro o estado de embriaguez. Em prantos, essa senhora nos pediu para buscar sua netinha de quatro anos que estaria sendo espancada pelo próprio pai da criança. Apesar da agressividade com a qual a mulher nos tratava, ficamos sensibilizados com a possibilidade dos fatos serem verdadeiros e decidimos verificar a situação.

Um beco estreito, íngreme, com degraus intermináveis, onde não se enxergava um palmo à sua frente. Este foi o local indicado pela senhora para buscarmos a criança. O Cabo Araújo (policial astuto, do tipo “vibrador”, que muitos colegas chamam de “bitolado”, aquele sujeito que suspeita de tudo e de todos) logo diz : - ô zim, isso é casinha de caboclo!

Para os desavisados “zim” é como chamamos uns aos outros dentro da favela para evitar falar nossos nomes, e “casinha de caboclo” é quando os vagabundos armam uma cilada para os policiais. A suspeita do Cabo Araújo era pertinente, mas o comandante da guarnição, Aspirante Martins, decidiu subir o beco. Eu permaneci na entrada, próximo à viatura policial, para monitorar a entrada no local e chamar reforço, caso fosse necessário. Em poucos instantes, a senhora desceu, já com a criança no colo. A menina era linda: rosto redondo, olhar meigo, cabelos lisos e negros, parecia uma índia. Seu nome era Isabela. Não havia nome mais apropriado, era realmente “bela”. No seu corpo franzino, não havia sinais de agressão. Perguntei-lhe se alguém a havia agredido. Os olhos daquele anjinho se encheram de lágrimas e ela respondeu que sim. Disse que seu próprio pai havia lhe batido, que sua mãe também lhe batia, que sua avó também lhe batia, mas que mesmo assim gostava de todos eles. Perguntei a ela com quem gostaria de ficar. Como uma inocência singular ela respondeu: com mamãe.

Meus colegas retornaram e disseram que o pai de Isabela estava drogado, em companhia de outros dependentes químicos. O barraco onde estavam parecia um chiqueiro. A criança brincava em meio à imundice do local. O pai insistia em ficar com a menina, alegando que sua ex-mulher era uma “puta” e a mãe desta uma “bebum”.

Chegamos à conclusão que não deveríamos deixar a criança nem com o pai (drogado) e tampouco com a avó (bêbada). Saímos, então, à procura da mãe de Isabela, seguindo as dicas da senhora que nos abordou.

- “Olha ela ali”, disse a avó, apontando para um boteco nefasto localizado na Rua Dezenove, ponto de encontro de viciados em drogas, assaltantes, homicidas e demais criminosos que compunham a escória da sociedade local.

Chamamos a mãe da menina. Ela relutou em nos obedecer, até ver que sua mãe e sua filha estavam dentro da viatura. Ao se aproximar aquela jovem, que parecia ainda estar iniciando a sua adolescência, percebi o quanto seria difícil solucionar aquela ocorrência.

A jovem transpirava rebeldia, dizia aos berros: “mãe, o que você está fazendo no carro da polícia com a minha filha”. O nosso comandante tentou explicar a situação, mas de nada adiantou. De tanto gritar, a jovem conseguiu tirar o Aspirante Martins do sério. Em um só gesto, ele puxou a jovem mãe pela gola da camisa e disse que ela devia nos agradecer por termos lhe trazido sua filha. A resposta da jovem não poderia ser mais revoltante: - “E quem disse que eu quero essa porra de menina agora, não vê que eu tô namorando.” Nesse momento, a moça sentiu a gola da camisa apertar seu pescoço. Isso foi a materialização da ira do nosso comandante. Com a voz já distorcida, ela desafiou: “Bate, sô puliça, bate até me matar seu covarde, é só isso que vocês sabem fazer mesmo”.

O comandante determinou: “abra o xadrez, vamos levar esta folgada pra delegacia”. Nesse momento, intervi: “É bobagem, chefe, não compensa. O problema mais grave, que é com quem ficará a menina, não será resolvido". Pensamos em acionar o Conselho Tutelar, mas, devido a experiências anteriores, desistimos. Nesses casos o conselheiro de plantão não vem, ou, se comparece, não resolve nada.

De súbito, veio em minha mente um velho ditado popular: “Deus, me dê coragem para modificar as coisas que posso, humildade para aceitar as que não posso e sabedoria para distinguir umas das outras”.

E assim convenci o comandante da guarnição a adotar a seguinte solução: dentre o pai drogado, a mãe vadia e a avó alcoólatra, naquele momento a criança deveria ficar com quem teve pelo menos a hombridade de nos pedir socorro.

O que me deixou muito triste foi pensar no que se transformará aquela princesinha chamada Isabela daqui a alguns anos...

Fim

Autor: Nivaldo de Carvalho Júnior, 3º Sgt PM - obra escrita em 07/05/2006

Nota: Esta é uma obra de ficção. Nomes, personagens, fatos e lugares são frutos da imaginação do autor e usados de modo fictício. Qualquer semelhança com fatos reais ou qualquer pessoa, viva ou morta, é mera coincidência.

É livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença” - Inciso IX do artigo 5º da Constituição Federal.



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13 comentário(s):

José Ricardo disse...

Ótima história, companheiro de turma. Descobrimos um talento da literatura. É uma honra ter suas histórias publicadas no Universo Policial.

A respeito do conto, eu tenho uma opinião sobre o futuro da Isabela. Infelizmente, acho que daqui a alguns anos será ela quem estará no bar, junto com os viciados. É um ciclo vicioso. Desagregação familiar, na minha opinião, é a maior causa da criminalidade. O primeiro e principal freio da criminalidade é a família. Se a família falha, tudo está perdido.

De fatos simples, surgem grandes histórias. Parabéns!

Anônimo disse...

OPERAÇÃO PADRÃO DIA 12 DE AGOSTO

Todos os militares vão parar dia 12 de agosto (quarta).

- A ordem é para não assumir serviços com alterações.

- Viaturas avariadas (vide Código Nacional de Trânsito) serão declaradas inoperantes.

- Vamos paralizar seguindo a lei.

Assim ninguém poderá nos punir.
Repasse esta notícia. No dia 12 repasse todas as informações por Rádio. Entre nacomunidade Operação Padrão no Orkut: http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=92747324

Chega de descaso com os militares estaduais. Vamos fazer como Sergipe e a Bahia.

JUNTOS SOMOS FORTES!!!

Leonardo Henrique disse...

Muito Bom!!
Está de parabens!!!
Abraços,

Leonardo Henrique

Jovani Cabral Ferreira disse...

Caro colega Ricardo, a história do Sargento Nivaldo de Carvalho Junior, com o titulo "INFÂNCIA PERDIDA" é de quem possui talento para escrever. se ainda não é, será um escritor, ou poeta. Quantos fatos parecidos com essa ficção não ocorrem todos os dias nos quatros cantos do Brasil, em particular, claro, nas periferias pobres e miseráveis das cidades. Parabéns para ele, e obrigado a você pelo envio. Grande abraço.

Flávio Henrique disse...

Excelente história! O autor é um escritor e tanto. O cotidiano policial descrito por quem tem tamanha habilidade para narrar histórias é extremamente motivador.

Foi como se eu tivesse visto a cena pessoalmente.

Anônimo disse...

Amigo José Ricardo,

Fiquei muito contente ao acessar o site hoje e deparar com uma historia de minha autoria na página principal. Sabia que você me daria a honra de particiapar deste nobre empreendimento, mas confesso que não esperava tamanha distinção.

Obrigado irmão. Pessoas como você é que nos inspiram a continuar na busca pelo conhecimento.

Não poderia olvidar os comentários dos demais colegas, aos quais sou muito grato.

Um grande abraço a todos!

Nivaldo Carvalho Junior, Sgt PMMG

Anônimo disse...

José Ricardo, Gostaria de parabenizá-lo pelo blog e seus textos que por sinal são bem coerentes. Amei!
Felicitar em especial o autor desse conto “Infância perdida” pela objetividade ao descrever o fato em relação aos maus tratos com crianças, que se institui grave problema em nossa sociedade. Nesse caso aqui tem se a “pequena Isabela” como protagonista cujo nome pode ser fictício, mas, a história sobre a qual se desenrola o fato, o contexto e as condições são reais, são episódios que acontecem com freqüência maior que possamos imaginar e que ainda é um problema multifacetado pelos nossos governantes que tratam do assunto como um simples problema doméstico. Gostei muito do conto, me fez refletir sobre essas questões envolvendo crianças, achei que o Sgt Nivaldo se mostrou uma pessoa bastante humana.
Espero que esse seja um, de vários trabalhos que virão.
E já que a sociologia estuda o comportamento humano inserido na sociedade, nada mais oportuno que citar uma celebre frase do sociólogo judeu Karl Mannheim que diz: "O que se faz agora com as crianças é o que elas farão depois com a sociedade”.
Pensem nisso.

José Ricardo disse...

O conto do Sargento Nivaldo Carvalho é simplesmente fantástico. A mensagem, para que tem um mínimo de interpretação de texto, está bem clara: o ciclo vicioso da violência. Como surgem os criminosos? O conto dá a resposta. Companheiro, o Sargento Carvalho enviou mais algumas excelentes histórias. Em breve as publicarei no Universo Policial. Cordiais saudações.

rafael disse...

parabéns caro sgt nivaldo, vc é o kra mesmo hehe, tenho certeza que sou privilegiado de poder ser da mesma turma sua na faculdade, é de pessoas assim que orgulhamos ter amizade...
sucesso amigo vc merece...

Anônimo disse...

Olá, amigo N C Júnior.
Gostei da forma lírica com que você descreve o ocorrido, é difícil manter a sensibilidade diante das agruras com as quais temos que conviver em razão da função. Vejo que apesar de estar na ADM a muito tempo, o Serviço Operacional não apresenta mudanças significativas, e também não houve
evolução na parte de baixo da pirâmide. Muita gente ainda confunde as coisas e acha que humildade e simplicidade tem que ombrear com miséria e a falta de amor próprio. Ser pobre é ser medíocre - devem pensar!
Continue assim, parabéns.
Quanto a Izabela, certamente será mais uma vítima do sistema.
JM Dasilva - Sgt PM.

Sgt Gilvan disse...

Meus parabéns pela autoria da obra.
A conclusão a qual chego, meu amigo, é de que só DEUS pode nos livrar de consequências futuras (de ordem física/psíquica) devido nossa proximidade com tanta desgraça e descaso dos nossos representantes.
Obs: Muitos dos nossos, para quem nunca observou, não suportam o dia a dia de um POLICIAL. Buscam forças principalmente no álcool, infelizmente.

Anônimo disse...

Nossa vida é um livro. Sou reformado após 30 anos em Rotam, 22 anos com praça e oito como oficial. Vida de alegria e tristezas. Parabéns companheiro,me trouxe lembranças.Capitão Caetano

FELIPE HENRQIUE disse...

PARABéns nivaldo bacana!
Ano que vem to junto com vocês se Deus Quiser.

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