Estatísticas e a contagem dos corpos

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

É bom conversar com pessoas inteligentes. Elas fazem nossa mente se expandir, refletir sob outros pontos de vista. Foi assim, conversando com um companheiro muito inteligente, que surgiu a ideia de escrever mais uma postagem sobre estatísticas criminais e de produtividade policial.

De acordo com o companheiro de serviço, o governo dos Estados Unidos, durante a Guerra do Vietnã, utilizava um ardiloso esquema para manipular as estatísticas de eficiência e produtividade dos soldados americanos. Era o chamado "body count" (contagem dos corpos). Media-se a eficiência da tropa pelo número de baixas do lado inimigo. Funcionava da seguinte forma:

Para sustentar o argumento de que inúmeras vitórias estavam sendo obtidas nos campos de batalha vietnamitas, os americanos usaram a estratégia do body count – ou contagem dos corpos inimigos. Só que o body count não diferenciava guerrilheiros dos camponeses que também tombavam vítimas da guerra, tornando o número de baixas mais elevado que o índice real. Além disso, algumas unidades passaram a operar por cotas, e a falsificação dos números cresceu ainda mais. Isso sem mencionar a disputa entre a aviação e as forças de terra, reclamando os mesmos cadáveres.
Fonte: http://historia.abril.ig.com.br/

Segundo o companheiro, a estatística é utilizada do modo que melhor atenda aos interesses do governante. As más linguas dizem que "a estatística é a arte de mentir com precisão". No caso da Guerra do Vietnã, o governo dos Estados Unidos forjava as estatísticas, mentindo com precisão, para justificar o gasto bélico e sustentar que estavam sendo obtidas inúmeras vitórias. É bom lembrar que, não obstante a manipulação dos números, os americanos perderam a guerra.

Na área da segurança pública, logicamente, o interessante para o governo é o contrário. Quantos menos corpos melhor. Lado outro, mensura-se a produtividade pelo número de operações. Entretanto, tudo pode ser manipulado. Não acredita? Então leia os artigos "Estatística Criminal: Homicídios" e "Índices de Criminalidade e Produtividade Policial" e veja como os números podem ser facilmente deturpados. Mas saiba que isso é, no mínino, imoral e antiético. Afinal, de que vale uma estatística se ela não é confiável, se não traduz a realidade?

Não sei se a gestão por resultados deve ser usada na área da segurança pública. No Vietnã, as Unidades passaram a operar por cotas. Na PM, busca-se atingir metas. Mas se as metas não forem atingidas, o que fazer? Será que um imoral "gol de mão" resolveria o problema ou somente estaria jogando-o para debaixo do tapete?

Para mim, mais vale colocar a cabeça no travesseiro e dormir tranquilo, mesmo que sem nenhum prêmio pecuniário, do que compactuar com a mentira. Mas o pior mesmo é mentir para nós mesmos. Se existe o problema, não adianta mascará-lo, criar eufemismos. Se existe um problema, vamos resolvê-lo. Mas, se enganamos a nós mesmos dizendo que o problema nem existe, o que fazer? Somente se resolve um problema quando ele é identificado, exposto. Esconder o problema é caminhar para trás. A Bíblica diz que "o pior cego é aquele que não quer ver". Eu acho que existe um cego ainda pior: Aquele que vê, mas que impede que os outros vejam.

Sendo objetivo. Supondo-se que um pelotão PM não atingiu as metas do acordo de resultados. Não seria bem melhor o comandante do pelotão falar que realmente as metas não foram cumpridas, embora tenha havido um grande empenho dos policiais; que a elevação dos índices criminais foi influênciado sobretudo pela deficiência no ciclo de persecução penal, tendo-se em vista que os marginais estão sendo presos pela PM por reiteradas vezes, mas não é lavrado o devido flagrante delito ou, quando é lavrado, a Justiça, por questões legais, logo coloca o infrator nas ruas, criando a sensação de impunidade e aumentando o número de delitos; que, além disso, o efetivo precisa ser aumentado, em vista do crescimento populacional da cidade; que o número excessivo de operações está afetando a saúde psicológica do policial, porquanto o Manual de Prática Policial assevera que o estado de alerta e atenção, a exemplo do que ocorre no momento das operações, somente devem ser mantidos por breves períodos de tempo, pois exigem um dispêndio maior de energia do organismo, e operar continuadamente nesses níveis de prontidão desencadeiam reações adversas, tanto no âmbito físico quanto no psicológico, levando a médio e longo prazos a síndromes de esgotamento; que, com fábricas de violência, não adianta cobrar apenas da PM; que...

A charge acima é fantástica; traduz a mais pura realidade. Tem-se o equivocado hábito de atribuir a culpa da violência na polícia, principalmente na PM, a força ostensiva do Estado. E o pior é quando a própria PM assume para si toda a responsabilidade, como ocorre nas estatísticas criminais. Ela dá um tiro no próprio pé. Assim agindo, ela exime de qualquer culpa a família, a igreja, a escola, a Polícia Civil, o Ministério Público, o Poder Judiciário, o Sistema Prisional, entre outros elementos dessa imensa engrenagem do ciclo criminal. É realmente como uma engrenagem; se um dente quebrar, todo o sistema fica prejudicado.


Você está conseguindo entender a lógica, ou melhor, a falta dela? A falsificação dos números cria uma "bola de neve". Falsifica-se cada vez mais, buscando-se atingir cotas, metas, resultados... Mas tolo é aquele que não aprende com os erros dos outros, que não aprende com a história. Apesar do "body count", os Estados Unidos perderam a guerra.

Bom, para não ficar desgastante esse nosso papo, finalizo com um ensinamento brilhante do Código de Ética do Servidor Público Civil Federal, que deveria ser aplicado por todas as instituições:

Toda pessoa tem direito a verdade. O servidor não pode omiti-la ou falseá-la, ainda que contrária aos interesses da própria pessoa interessada ou da Administração Pública. Nenhum Estado pode crescer ou estabilizar-se sobre o poder corruptivo do hábito do erro, da opressão ou da mentira, que sempre aniquilam até mesmo a dignidade humana quanto mais a de uma Nação.



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10 comentário(s):

Jesse Hudson disse...

Estava visitando os blogs da blogosfera policial e claro, a visita ao universo policial é garantida e cotidiana.

Parabéns.

Hudson
www.policiaecia.com.br
Sua revista de segurança pública.

Anônimo disse...

Bom, acabo de decidir que não leio mais seu blog. Não por ser um policial civil, mas pela extrema ignorância ao colocar a Polícia Civil na lista de "culpados" pelas estatísticas "furadas". A Policia Militar é uma grande corporação, mas as visões de alguns de seus integrantes me deixa consternado. É ridículo pensar que qualquer prisão gerará um auto de prisão em flagrante delito com voz ratificada, primeiro pelo parco serviço prestado por alguns que não arrolam testemunhas da sociedade, segundo pelo simples fato de ser poder discricionário da Autoridade Policial ratificar, ou não, a voz de prisão. Enquanto as policiais não entenderem que elas são o braço da sociedade, nada mudará. Alguns policiais trabalham como cães de guarda, onde um simples papel no chão é visto como um crime hediondo. As pessoas tem que ter a noção de que eduacar é a saída para a violência e todos os outros males sociais. A prisão não melhora ninguém, pelo contrário, só faz o indivíduo piorar, revoltar e logicamente reincidir.
Vamos abrir nossos olhos para o verdadeiro problema, que é a falta de respeito com a sociedade; a polícia deve ser respeitada, não temida. Mas para haver respeito, temos que dá-lo. Um grande exemplo de falta de respeito é essa porqueira desse disque denúncia 181, não por parte da sociedade, que logicamente denuncia, e certo faz, os crimes que estão sendo cometidos. Contudo, há de se ver que muitas denúncias são falsas, descabidas e são usadas para prejudicar terceiros ou para legitimar ações policiais. É um absurdo um policial entrar na casa de um cidadão sob a égide do 181. O Estado é de Direito e Democrático, não o Estado Policial. Chega dessa parafernalha.
Decidir se um cidadão (independente de ser bandido, ele não deixa de ser um cidadão) vai para cadeia é algo muito pesado. O poder do papel é muito maior que o da ação, qualquer erro, por menor que seja, poderá prejudicar a vida de uma pessoa até sua morte. Um Delegado estuda PELO MENOS cinco anos para poder entender das leis, fora os estudos normais para o concurso e a prática jurídica; o que me deixa intrigado é um policial militar que faz 8 meses de curso em uma academia querer criticar a decisão de quem estudou pelo menos 8 anos.
A idéia é unir, não destruir. Enquanto houver a luta das classes, a moite de bambu fraca será. Cada um com seu cada um.

José Ricardo disse...

Companheiro, eu não falei que a PC deve sempre lavrar o flagrante. O que eu falei é que, como você deve saber, os criminosos são constantemente detidos pela PM e até pela PC. Se, como diz o CPP (art. 304, § 1º), não há "fundadas suspeitas contra o conduzido", é lógico que o delegado não deve lavrar o APF. A questão são nossas leis brandas. lenientes.

Assim como a PM, a PC também faz parte dos órgãos que compõe o ciclo de persecução penal. O que eu quis dizer é que a PC faz da parte da "engrenagem", assim como a PM, o Ministério Público, etc.

Companheiro, a PM está sendo cobrada como se ela fosse a única culpada pela violência. Essa cobrança é interna e do governo. O objetivo da postagem é mostrar que a PM não pode levar toda a culpa. Não quero de maneira alguma desmerecer o trabalho da PC.

Quanto ao 181, assino embaixo acerca do que você falou. Denúncia anônima passa longe da "fundada suspeita", que é o elemento necessário para muitas de nossas ações.

A postagem não estimula a luta de classes, nem eu tenho esse objetivo. Muito pelo contrário. Desculpa se não soube expressar minhas opiniões com clareza.

Tenho certeza que você continuará lendo o Universo Policial.

Cordiais saudações.

Anônimo disse...

sgt, eu concordo com o vc. o policial civil aí nao entendeu a sua mensagem.

Anônimo disse...

Boa Tarde.
José Ricardo, entendo que o colega da PC não interpretou bem o texto. O problema é toda a engrenagem. Metas, cotas e resultados na maioria são forjados , manipulados para atender " alguém ". Creio que o colega irá reler o texto e continuar sendo um colaborador no blog.
Abraços

Sub Marcos

Anônimo disse...

Companheiro gostei muito da sua matéria e acho que há fundamento, afinal de contas é atravez da informação que se trabalha a mente das pessoas, levando-as a ter uma falsa idéia de que os objetivos propostos estão sendo alcançados.

Anônimo disse...

Companheiros a PM é dividida em Oficiais e Praças e a PC e dividida em Delegados, agentes, escrivães e legistas, para mim não deveria ser assim, porque essa é uma divisão maldosa cheia de feridas e a culpa não é toda nossa, mas, podemos e devemos sermos humildes uns com os outros e tentar entender o trabalho de cada com um com suas limitações, porque o nosso propósito e garantir o bem estar de todos.
A polícia deveria ser uma só de ciclo completo, com todos os policiais iniciando a carreira no mesmo nível, e ir progredindo pelas promoções programadas ou pelos concursos internos. Acho que assim seria melhor para nós e para a sociedade, pois, haveria menos divisão, e a sociedade ganharia muito mais, com um serviço uma melhor prestação de serviço por parte da polícia.

Anônimo disse...

Nobres companheiros, a gloriosa Polícia Militar de Minas, é feita de homens e mulheres que ao sair de casa para o trabalho, deixam filhos, esposas, esposos, e pais , preocupados com o que vai acontecer, com notícias que "poderão" receber do que possa acontecer conosco, e por que muitos de nós por estar em dificuldade financeira, as vezes nos distraímos no desempenho de nossa função nos tornando vulneráveis, vítimas. Por isso devemos ir, de forma organizada e legal batalhar pela aprovação da PEC 300, resgatando assim parte de nossa dignidade financeira, poder dar o mínimo de conforto para nossas famílias. Vamos batalhar, que Deus nos abençõe.

Anônimo disse...

POLICIA MILITAR, POLICIA CIVIL

VAMOS COM CALMA, NÃO VAMOS ABRIR LUTA ENTRE NOS,SOMOS TODOS IEMÃOS

Anônimo disse...

Muito bom! Esta é a pura realidade. Estamos cheios de estatística mentirosas, simplesmente para satisfazer a votade dos oficias com suas promoções.

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