Como policial militar, eu já fui quase tudo...

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Autor: * Tião Ferreira

Como policial militar, enfrentei o maior choque cultural da minha vida, ao ter de argumentar com todo tipo de pessoas, do mendigo ao magistrado, entrar em todo tipo de ambiente, do meretrício ao monastério.

Como policial militar, fui parteiro, quando não dava tempo de levar as grávidas ao hospital, na madrugada.

Como policial militar, fui psicólogo, quando um colega discutia com a esposa, diante da incompreensão dela, às vezes, com a profissão do marido.

Como policial militar, fui assistente social, quando tinha de confortar a mãe de alguma vítima assassinada por não possuir algo de valor que o assaltante pudesse levar.

Como policial militar, fui borracheiro e mecânico, ao socorrer idosos e deficientes com pneus furados.

Como policial militar, fui pedreiro, ao participar de mutirões para reconstruir casas destruídas por enchentes.

Como policial militar, fui paramédico fracassado, ao ver um colega ir a óbito a bordo da viatura.

Como policial militar, fui paramédico realizado, ao retirar uma espinha de peixe da garganta de uma criança.

Como policial militar, fui apedrejado por estudantes da mesma escola na qual estudei e fui professor, por pessoas do mesmo grêmio do qual participei.

Como policial militar, fui obrigado a me tornar gladiador em arenas repletas de terroristas que são membros de torcidas organizadas, em jogos de times pelos quais nem torço.

Como policial militar, sobrevivi a cinco graves acidentes com viaturas, nunca a menos de 120km/h, na ânsia de chegar rápido àquela residência onde a moça estava sendo estuprada ou na qual um idoso estava sendo espancado.

Como policial militar, fui juiz da vara cível, apaziguando ânimos de maridos e mulheres exaltados, que após a raiva uniam-se novamente e voltavam-se contra a polícia.

Como policial militar, fui atropelado numa blitz por um desses cidadãos que, por medo da polícia, afundou o pé no acelerador e passou por cima de vários colegas.

Como policial militar, arrisquei-me a contrair vários tipos de doenças, ao banhar-me com o sangue de vítimas às quais não conhecia, mas que tinha obrigação de tentar salvar.

Como policial militar, arrisquei contaminar toda a minha família com os mesmos tipos de doenças, pois, ao chegar em casa, minha esposa era a primeira a me abraçar, nunca se importando com o cheiro acre de sangue alheio, nem com as manchas que tinha de lavar do uniforme.

Como policial militar, fui juiz de pequenas causas, quando, em minha folga, alguns vizinhos me procuravam para resolver seus problemas.

Como policial militar, fui advogado, separando, na hora da prisão, os verdadeiros delinquentes dos "laranjas", quando poderia tê-los posto no mesmo "barco".

Como policial militar, fui o homem que quase perdeu a razão, ao flagrar um pai estuprando uma filha, enquanto a mãe o defendia.


Arte de Bruno Silva

Como policial militar, fui guardião de mortos por horas a fio, sob o sol, a chuva e a neblina, à espera do rabecão, que, já lotado, encontrava dificuldade para galgar uma duna mais alta, ou para penetrar numa mata mais densa.

Como policial militar, fiquei revoltado ao necessitar de um leito para minha esposa parir e, ao chegar ao hospital da polícia, deparar-me com um traficante sendo operado por um médico particular.

Como policial militar, fui o cara que mudou todos os hábitos para sempre, andando em estado de alerta 25 horas por dia, sempre com um olho no peixe e o outro no gato, confiando desconfiado.

Como policial militar, fui xingado, agredido, discriminado, vaiado, humilhado, espancado, rejeitado, incompreendido.

Na hora do bônus, esquecido; na hora do ônus, convocado.

Tive de tomar, em frações de segundo, decisões que os julgadores, no conforto de seus gabinetes, tiveram meses para analisar e julgar.

E mesmo hoje, calejado, ainda me deparo com coisas que me surpreendem, pois afinal ainda sou humano.

Não queria passar pelo que passei, mas fui voluntário, ninguém me laçou e me enfiou dentro de uma farda, né!?

Observando-se por essa ótica, é fácil ser dito por quem está "de fora" que minha opinião não importa, ou que, simplesmente, não existe.

Amo o que faço e o faço porque amo.

Tanto que insisto em levar essa vida, e mesmo estando atualmente em outra esfera do serviço policial, sei que terei de passar por tudo de novo, a qualquer hora, em qualquer dia e em qualquer lugar.

E o farei sem reclamar, nem recuar, porque se o senhor não guarda a cidade, em vão vigia a sentinela!

Por isso é que fazemos nossa parte: Vigilantis sempre!

Que deus abençoe a todos nós!!!

* Tião Ferreira é desenhista de quadrinhos, animador, estudante de História, ex-palhaço de circo, ex-carteiro, ex-policial militar e, atuamente, policial civil.Também é criador do blog Game Arte:

Nota: Este artigo foi publicado com expressa autorização do autor.



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10 comentário(s):

Anônimo disse...

Muito boa essa postagem! reflete a relaizade do dia-a-dia do policial, quantas vezes de folga fui acionado por terceiros... e discriminado por tantos..., bela postagem, gostei do desenho, parabems.

Sgt Carvalho disse...

O companheiro Tião Ferreira demonstrou muita competência e humanismo ao relatar as situações vivenciadas cotidianamente pelos policiais. De todos os episódios narrados, o único que ainda não experimentei foi fazer um parto. Mas ainda tenho 22 anos de serviço pela frente e não tenho dúvida que isso poderá ocorrer a qualquer momento. Parabéns pelo brilhante texto.

1º Sgt Paulo disse...

Bom dia minha gente do universo policial, agradeço a exposição do nosso colega, referente a frase "quando eu fui policial...abraços.

Sgt Clemerson disse...

Sgt Clemerosn disse...

Texto excelente,retrata com total realidade o que um policial vive no decorrer de toda a sua carreira,afinal, não somos maquinas e sim seres humanos com sentimentos, sonhos, desilusões, paixões etc.Ser policial não e pra qualquer cidadão, acredito que o indivíduo já nasce com o "DNA" especifico.
Parabéns ao autor Tião Ferreira, o qual apresentou seus texto com propriedade.....

Silva disse...

Meu caro companheiro eu como policial militar ja fui até padre na hora em que uma senhora falou em se separar e eu tive de usar a minha sabedoria pra poder unir os dois novamente,como policial militar também fui pastor ao ouvir um detento falar que Deus só condenava os emafroditas e eu tive de falar e mostrar pra ele que ele estava enganado pois Deus condena todo tipo de homossexuais pois ele é um homossexuais e eu tive de mostrar na bíblia,como pm tbm fui delegado ao ter que represnta o mesmo na sua ausencia na delegacia,essa história é semelhante a minha pois tbm sou policial militar e aqui no interior do Rio Grande do Norte agente é isso e alguma coisa a mais sim e como policial militar fui coveiro ao ter que enterrar um companheiro que faleceu de tanto beber bebidas alcoolicas.

geovane disse...

É sempre bom ler esses posts, pois assim lembramos-nos como nossa profissão é tão àrdua, e ao mesmo tempo tão gratificante. Esse é o dia a dia de um policial, o qual agradeço à DEUS todos os dias, por ter concedido-me a oportunidade de vivenciar essas circunstâncias. Toda vez que me fardo, tenho um sentimento indescritível. Hum! Deve ser a ânsia das situações mais inusitadas que estão por vim no turno de trabalho. Sinto um enorme orgulho de ser um POLICIAL MILITAR DO ESTADO DE MINAS GERAIS, e espero, sinceramente, que todos os meus companheiros orgulhem-se também. Apesar de todas difíceis batalhas, nós nunca podemos desistir.

Sd Ivanilson disse...

Sou um polícia de mundo mudo, surdo, louco...
Sou um Polícia de todas as horas, de todos os dias de todas as situações;
Sou um polícia que mesmo não apaixonado, mesmo não gostando, odiando o sistema, vibra com o que faz, se emociona em algumas ocorrências;
porque? ... sou humano!!! tenho compaixão, tenho familia, tenho sentimentos, SOU GENTE!!!
É isso que falta a sociedade entender!! somos humanos, nossa farda não é blindada, não somos de ferro... ... embora tenhamos que aparentar ser, lutando contra as adversidades, baixos salários. e chegarmos em casa e ver nossa familia, preocupada, assustada, e temerosa!!!
Felismente, temos ainda a familia, nosso ponto de apoio.
sou um polícia de mundo louco, sou sim,
sou um policia que ainda sonha, acredita que tudo ainda será melhor, que grita aos quatro ventos que não quero me arrepender da escolha que fiz; que se emociona ao lembrar do meu juramento proferido em minha formatura.
Sou um policia que que acreditar que o mundo não é realmente surdo, mudo; que meu sonhos não são em vão que meus gritos não se percam no vazio.
quem sabe eu seja louco! quem sabe eu seja são... quem sabe!?

Sd Ivanilson PMMA.

Romiran disse...

Parabéns a todos os policiais que cumprem com o dever da profissão com tanta dedicação e responsabilidade mesmo com tão baixos salários e condições adversas.
Sou cidadão admirador desta corporação por conhecer a bravura, coragem e determinação e também por conhecer as dificuldades que são descritas neste site.
Sabemos que as dificuldades desta categoria profissional são críticas por envolver vidas humanas,(na maioria das vezes a dos policiais), e não existe margem para erro ou tempo para pensar o que fazer e cada situação é única e com características próprias.
Participarei com muita satisfação e sempre que houver,de qualquer campanha pela maior valorização da instituição Polícia Militar

ROBER disse...

Sgt Roberval QPR.PMMG

quero dar parabéns o nobre companheiro pela colocação,"como
policial militar" pois durante 30 anos,pude vivenciar muitas
dessas verdades que foram escritas,que continuam vivas na memória,porém com a satisfação do dever cumprido. um grande
abraço a todos policiais militares.

cipmfeira disse...

Me lembro muito de ter recebido vários emails com esta mensagem. Mais só agora a vejo na íntegra e sei a sua fonte.
Perfeita demais esta mensagem.
Parabéns!!!

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