A segunda pele

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Autor: * Nivaldo de Carvalho Júnior, 3º Sgt PM

“A farda não é uma veste que se despe facilmente, mas sim uma segunda pele que adere à própria alma, irreversivelmente.”

Bastou que eu ouvisse essa frase apenas uma vez para que tais palavras encontrassem lugar cativo em minha memória. A assertiva foi declarada por um major da Polícia Militar de Minas Gerais, durante a cerimônia de encerramento de um curso de ações táticas que tive o privilégio de participar.

Antecederam-se a tal pronunciamento as congratulações para aqueles militares que foram aprovados, seguidas das recomendações sobre a conduta que deveríamos adotar em face da nossa nova missão: atuar em ZQC´s (Zonas Quentes de Criminalidade), com o intuito de combater o crime organizado.

Conforme nos disse o oficial, aquela instigante frase é um dito antigo no meio castrense. Aplicada naquele contexto, constituía um presságio de devoção, posto que, findado o curso, estávamos renovando o compromisso de doar nossas vidas ao ofício de defender a sociedade. Acrescentou que, daquele momento em diante, deveríamos estar prontos para abstermos dos momentos de lazer e convívio familiar em decorrência das nossas incumbências profissionais. Querendo nos incentivar, foi até infeliz ao afirmar que, a partir daquele momento, éramos policiais diferenciados dos demais milicianos. Durante muito tempo, acreditei nos ensinamentos do competente oficial.

Aproximadamente cinco anos após ter concluído o citado curso, fui instado a reinterpretar a frase que inicia este texto. Isso ocorreu graças a um simples e descontraído diálogo com um militar reformado, algo bastante diferente da formalidade que permeou aquela cerimônia presidida pelo major.

Dirigia-me apressado para a Companhia da Polícia Militar da cidade de Pedro Leopoldo, quando fui chamado por um senhor esguio, que apresentava barba volumosa e cabelos encaracolados atingindo a altura dos ombros. Não o reconheci imediatamente, entretanto dispensei a devida atenção porque ele havia declinado o meu “nome de guerra”.

Aos primeiros passos daquele senhor em minha direção, identifiquei o andar inconfundível do Cabo Ari. Os cumprimentos foram intensos e carregados de saudosismo. Ele me parabenizou pela ascensão célere na carreira, demonstrando uma sinceridade pouco comum entre os milicianos. Posteriormente, passou a indagar sobre a vida de vários colegas de caserna que tínhamos em comum.

Em seguida, o Cabo Ari direcionou a conversa para o próprio cotidiano. Disse-me que está contente por ter cumprido seus trinta anos na gloriosa corporação de Tiradentes. Fez questão de mostrar-me o comércio do qual é proprietário, vangloriando-se de não ter se rendido ao ócio que ceifa a vida dos nossos militares reformados. Ele ainda compartilhou comigo o choque psicológico causado pelo afastamento do serviço militar.

O Cabo Ari é figura folclórica do 36º BPM. Dono de um aguçado senso de humor, proporcionou diversas situações que se transformaram em “causos de polícia”. Ele me confidenciou que sonha todas as noites com policiais e bandidos, contou que já abordou suspeitos na rua e só depois se lembrou que não estava mais trabalhando. Finalizou, com lágrimas aportando nos cantos dos olhos, dizendo-me que sentia muita... muita saudade da atuação policial militar.

Despedi-me calorosamente do Cabo Ari e segui pensativo sobre o que me reserva o futuro dentro da corporação. As confidências do graduado pareceram me explicar mais claramente o sentido da metáfora “segunda pele”, comparando-se com a conotação defendida pelo major, tempos atrás.

Posso até concordar que o serviço policial exige dedicação, profissionalismo e sacrifícios. Todavia, a ideia contida na metáfora em comento não quer dizer que temos de negligenciar o convívio com nossas famílias e nossos amigos em razão das competências que assumimos ao ingressar numa organização militar.

O amor à profissão não se mede pelo tempo dispensado ao trabalho, mas sim pelo empenho e compromisso demonstrado durante a execução de uma determinada tarefa. Há policiais que, em apenas doze horas de trabalho, conseguem ser mais eficientes que outros que “comparecem no serviço” durante um mês inteiro.

O douto major presenteou-me com uma frase inesquecível. Mas foi o humilde Cabo Ari quem provou que realmente a farda é uma segunda pele que adere à própria alma, pois ele me mostrou que podemos nos afastar da Polícia Militar, mas esta jamais irá se desvincular de nós. Penso que esse deve ser o real sentido do velho dito castrense.

* Nivaldo de Carvalho Júnior, 3º Sgt PM - 13/08/2009



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13 comentário(s):

Anônimo disse...

parabens ao sgt carvalho pela materia. o cb ari foi mais que amigo e companheiro para nos. seu jeito alegre nos confortava nos momentos dificeis, alias ari era todo alegria, nunca o vi triste. tinha uma forma unica de tratar a todos, passava o dia todo imaginando pegadinhas para zoar a poliçada. do comandante ao mais moderno todos adoravam ari e o respeitavam. parabens ari por ter tirado de letra seu tempo de serviço, e nao apenas tirou seus dias, deixou marca em sua passagem, tanto que quem te conhece vai se emocionar lendo esta postagem, assim como eu.
abraço a todos cb soares

José Ricardo disse...

Primeiramente, temos que falar do saudoso Cabo Ari. Ele é uma pessoa inesquecível. Tratava todo mundo, superiores, pares e subordinados, com a maior educação. Alegre, cheio de histórias para contar, com um senso de humor realmente muito aguçado.

Sobre a "segunda pele", creio que a farda deve ser motivo de muito orgulho e honra. A atividade policial-militar nos marca de tal forma que a transição para a reserva deve ser algo difícil. Eu tenho muito contato com militares inativos e percebo no olhar deles a saudade do serviço operacional. Muitos me confidenciam a dificuldade em se adaptar a nova vida. A farda deixa marcas que realmente aderem à própria alma, irreversivelmente.

Eu tenho maior reverência pelos militares que completaram os trinta anos na PM. Procuro dispensar a eles o melhor tratamento possível. Eu vejo nos militares da reserva e reformados verdadeiros heróis. Trinta anos lutando contra o crime é verdadeiro heroísmo. Devemos lutar para que eles tenham uma aposentadoria tranquila. Lembrando que, no futuro, nós da ativa estaremos na posição em que eles se encontram hoje.

Que Deus abençoe nossos heróis!

Guidovaldo disse...

Muito bom! Sou do IESP/PA e leciono muito para a PM, inclusive já indiquei o site a muitos deles e vou continuar indicando, uma vez que todos são da mesma pele.
Abraço!

Anônimo disse...

Caro companheiro, somando ao seu belissímo texto acrescento conforme consta do BGPM 018 de 08 mar 2007 " A farda não é uma veste que se despe com facilidade e até com indiferença mas uma outra pele que adere à própria alma, irreversivelmente para sempre " BRASIL 2002 -Cap1.p1)
Onde consta ainda que a carreira é definida no vade-mécum nr 10 de cerimonial militar do Exército.
A intenção é apenas ilustrar.
Estamos na corporação hà 29 anos exercendo atividade operacional.
Em momento algum pretendemos macular os ideais ou ideais de nossos guerreiros, estamos pronto para somarmos.
Que Deus continue nos iluminando em nossas jornadas.
Parabéns.

Anônimo disse...

o BGPM correto é 019 de 08 mar 2007 - pág 1242-

Cb. Arquimedes disse...

Faço das suas as minhas palavras, pois sinto o mesmo!

Cb. Arquimedes

Anônimo disse...

Olá José Ricardo,

Dizer que o site é muito bom ficaria redundante, pois sempre digo isso no comentário que deixo nas páginas visitadas. Mas devo lhe confessar que todas as vezes que faço uma visitação pelo seu site e me deparo com um conto escrito pelo Sgt. Carvalho, ainda me surpreendo com a qualidade do texto, e, vejo que o site melhora a cada dia. Estão de parabéns!
Quanto ao conteúdo da narrativa, gosto sempre de analisar com o intuito de aproveitá-lo em minhas aulas.
Nesse sentido, vejo que o Sgt. foi feliz ao usar a metáfora da “segunda pele”, e ainda, remetendo a um companheiro que pelo visto foi digno de tal comentário. Digo isso porque na verdade, como afirma Mattoso Câmera a metáfora vai além da comparação, e ainda, é entendido segundo Lacan (1999), “movimento do inconsciente que resiste ao simbólico, situa-se no Real”. Tal esclarecimento serve para evidenciar a profundidade das palavras do autor do texto “A segunda pele”. Ao usar essa expressão ele está se referindo ao “emprenho e compromisso” de um policial. A partir disso, desperta em mim uma reflexão crítica no sentido de perceber a importância significativa de tal metáfora. Acredito que seja necessário repesá-la em qualquer profissão e isso faria com que tivéssemos profissionais melhores.

(J. Lacan, seguidor Freud, o criador da psicanálise. Enquanto aquele se estruturou sob o inconsciente este, no campo da linguagem.

CB AMILAR JULIO FILHO disse...

QUE HISTÓRIA,HISTÓRIA NÃO, FATO,SO MESMO VINDO DO COMPETENTE SGT CARVALHO, CARA,EU MIM SINTO MUITO ORGULHOSO EM LE ALGO ASSIM, AINDA MAIS COM RELATO DO MEU IRMÃO DE SANGUE E DE FARDA, CB ARY, APRENDI MUITO COM ELE,PRA SER MAIS PRECISO, SÓ ESTOU NA GLORIOSA POR INTERMÉDIO DELE, ELE FOI QUEM MIM INCENTIVOU A INGRESSAR NESSA CARREIRA, QUE TANTO MIM ORGULHO. AFINAL, EU VENHO DE UMA FAMILIA DE MILITARES, ATE MINHA MÃE É TIDA COMO MILITAR KKKKKK.MINHA CASA É UM "QUARTEL" ELA É A "COMANDANTE". OLHA, QUANDO MOSTREI AO ARY ESTE TEXTO, PERCEBI SUA EMOÇÃO,E VI QUE ELE ESTAVA SEGURANDO AS LÁGRIMAS,COM CERTEZA, ESTAVA COM VERGONHA DE MIM. MAS TODOS NOS DA ATIVA,TERIA-MOS QUE DA MAIS ATENÇÃO AOS INATIVOS, DEPOIS DE TRINTA ANOS DE SERVIÇO, VC PASSAR POR UM MILITAR DA ATIVA E NÃO RECEBER NEM UM OI, MUITO TRISTE PARA ELES, REFLITEM. MAIS UMA VEZ QUERO AGRADECER AO SGT CARVALHO PELA INICIATIVA AQUI POSTADA, GRANDE ABRAÇO!CB AMILAR JULIO FILHO CIA 182º P. LEOPOLDO

José Ricardo disse...

Cb Amilar, foi importante saber o que sentiu o Cabo Ari ao ler o texto do Sgt Carvalho. Obrigado por ter mostrado a ele. Se você o ver, fala que o Sargento Monteiro mandou um alô pra ele, e que está com saudade.

Anônimo disse...

Essa frase não lhe pertence!!!! Seja correto e respeite a sua autoria!! Vou lhe dar um tempo...

Sgt Cleber Niza disse...

Quero parabenizar o sgt carvalho pelas palavras mencionadas, e acrescentar que estou á 26 anos na corporação, servindo no operacional; agora, por problemas de saúde estou na adm, usando o agasalho de educação física. Sinto grande falta da minha primeira pele,"A FARDA", pois, a segunda encontro-me com ela, pois a primeira sobrepõe a segunda. Amo a PMMG, e a palavra "DOU A MINHA VIDA EM PROL" continua e continuara existindo enquanto houver sangue nas minhas veias e ar expelindo dos meus pulmões. Sinto-me sem minha farda como se tivesse tirado realmente a minha pele. Que DEUS na sua bondade infinita possa abençoar e proteger todos os militares que realmente envergam esta linda e inesquecível pele marron.

Tostão disse...

bom dia,tive o privilegio de trabalhar com o cb Ari e com o sgt Carvalho,duas pessoas incrivelmente maravilhosas e de um carater inquestionavel e alto grau de profissionalismo.O texto que o competente sgt Carvalho expoe,nos remete a uma questao de como comportar se quando chegar a hora da reforma e nao mais vamos vestir o manto sagrado e sabendo que a segunda pele esta em nossos coraçoes e em nossas almas.Convivo com diversos reformados e alguns quase entraram em depressao,pois se sentiram inulteis.Como foi citado no texto,o PM pode estar sem farda que se for necessario aborda alguem,como fez o cb Ari e varios PMs fazem.A farda transmite a paixao que sentimos pela correçao de condutas e no auxilio dos necessitados,mas na pratica a segunda pele,nao tem como descarta la, nem apos sairmos do serviço ativo.Parabens!

Anônimo disse...

Olá Pesssoal,
Reitero aqui o que todos pensamos e, emocionado por fazer parte da melhor polícia do Brasil, digo que tenho orgulho da profissão e não poderia ter escolhido outra senão a PMMG como cerne da minha alma!!!
Enquanto li o documentário e as postagens arrepiei por diversas vezes a "primeira pele" em vitude de ser um miliciano e possuir nossa sagrada "segunda pele"!
Que Nosso Senhor Jesus Cristo abençõe cada um em sua missão!
Obrigado Deus!
Sd Vanderson; 8º Pel PM MAmb/Jaíba-MG

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