Angústia Cotidiana

domingo, 20 de junho de 2010

* Nivaldo de Carvalho Júnior

Dias atrás me encontrei com o amigo José Ricardo (Sgt Monteiro), idealizador do Universo Policial, ocasião em que ele perguntou por que motivo eu não estava enviando mais textos para publicação neste blog. Com muita sinceridade, respondi que havia duas justificativas: falta de tempo (ando dividido entre atenção à família, trabalho operacional, encargos administrativos, faculdade etc) e falta de assunto (já que não participo mais de ocorrências policiais complexas como outrora).

No decorrer da conversa, falamos de assuntos corriqueiros relacionados à atividade policial, e o nobre companheiro, com sua inteligência singular, disse: "olha que tema bom para uma crônica." Neste instante, percebi que a correria do dia-a-dia estava me afastando daquilo que gosto: pensar e escrever.

Pois bem, decidi abordar fatos simples que presenciei, os quais demonstram claramente a angústia cotidiana que acomete as famílias brasileiras. Assim, resumo três ocorrências policiais atendidas por minha equipe.


O primeiro caso trata-se de um crime de extorsão. Um jovem alcoólatra e usuário de drogas ameaçou espancar o próprio avô, caso este não lhe entregasse R$ 50,00 para sustento dos vícios. O idoso chegou a abandonar a própria casa e foi morar noutra cidade em virtude das reiteradas agressões que lhe foram infligidas pelo neto. Não adiantou, pois o adolescente foi atrás do avô em busca de dinheiro fácil. Autuado em flagrante na Delegacia, o jovem foi recolhido para o presídio local. Posteriormente, recebi a notícia que a vítima reuniu todas as suas economias para pagar um advogado e retirar seu algoz o mais rápido possível da cadeia.


No segundo episódio, estive numa casa para atender uma invasão de domicílio. Ao final da diligência, restou apurado que não houve invasão, mas sim que o cidadão que acionou a polícia estava tendo “visões” em decorrência de uso imoderado de bebida alcoólica associada a fartas porções de cocaína. O delirante rapaz desferiu golpes de facão na porta da casa e ameaçou matar a esposa, pois acreditava que tinha visto outro homem dentro da residência e suspeitava ser este um amante da mulher. Enquanto tentava persuadir o jovem, no sentido de desarmá-lo, notei que toda aquela cena fatídica era presenciada pela filha do casal, que tinha apenas dois anos de idade. Após horas de procedimentos policiais, a mulher desiste de representar a queixa contra o marido e ambos voltam juntos e apaixonados para casa.


Por último, cito um fato envolvendo uma adolescente de doze anos. A menina perdeu a mãe (assassinada pelo marido) quando ainda era criança. Atualmente mora com o pai e a madrasta. Fomos chamados por uma diretora escolar, porque essa adolescente comparecia no educandário, mas não assistia às aulas. Ela ficava perambulando pelo pátio. Durante breve diálogo com a menor, percebemos que um misto de revolta e dor exalava dos seus poros. Ora ela gritava, ora ela chorava. Ela não queria estudar, nem voltar para casa, muito menos ouvir meus conselhos. Disse-me que estava morando na rua porque o seu pai é ébrio habitual e constantemente a agride. Sem alternativas, levei a menina para o Conselho Tutelar, onde fui informado que aquele órgão estatal nada podia fazer, pois a adolescente era “problemática” e “atrevida”, motivo pelo qual sofria correção enérgica por parte do pai (traduzindo a frase da conselheira: ela é folgada, por isso é agredida). Certo é que a moça foi obrigada a voltar pra casa e eu não consegui estabelecer a ordem natural dos fatos. Eis a minha dúvida: “A adolescente é agredida porque é atrevida ou ela é atrevida porque sempre sofre agressões”.

Veja que há algo em comum nesses tristes exemplos. Todos tratam de conflitos familiares, que têm como pano de fundo o abuso de álcool e drogas. Fica evidente ainda que as nossas difíceis e dispendiosas providências policiais foram inócuas. Isso nos leva à conclusão que as lides surgidas dentro dos lares brasileiros constitui a força motriz da maioria dos problemas que afetam a sociedade. Não há escola, organismo policial ou qualquer instituição pública que consiga reverter completamente os danos físicos ou morais oriundos da desagregação familiar.


Para os religiosos fervorosos tudo isso são sinais do fim dos tempos. Para mim, que, no momento, sou agnóstico teísta, são provas de que caminhamos apressadamente para a autodestruição da raça humana. Já para soldado Rocha (o bem-humorado patrulheiro da nossa equipe), estamos nos aproximando do momento em que “o poste vai urinar no cachorro e a banana vai comer o macaco”.

A piada é só para ilustrar, pois o assunto é digno de lamentações e merece profunda reflexão, como o fez o filósofo Chaïm Perelmam: “A humanidade, que à míngua de encontrar um guia nas filosofias de inspiração racional, tem de abandonar-se à irracionalidade, às paixões, aos instintos e à violência.”

---- Fim ----

Autor: Nivaldo de Carvalho Júnior - 3º Sargento da Polícia Militar de Minas Gerais e bacharelando em Direito pelo Centro Universitário de Sete Lagoas/MG.



Gostou desta postagem? Então cadastre-se AQUI para receber as atualizações do Universo Policial no seu e-mail ou no seu agregador de Feed/RSS.

14 comentário(s):

José Ricardo disse...

Carvalho, gosto muito dos seus textos, da forma como você narra as histórias. Jesus utilizou-se muito das parabólas (histórias) para ensinar seus discípulos e seguidores, pois elas demonstraram de uma maneira bastante compreensiva a realidade; mostram detalhes que passam despercebidos num texto dissertativo.

Você, como sempre, foi muito feliz em sua "abordagem". Diante de muitos casos, as ações policiais são inócuas, pois a força negativa que move a maioria das ocorrências policiais surgem dos lares, da desagregação familiar, da má relação pais-filhos. Não há polícia, escola, igreja, etc, que, de forma isolada, consiga reverter esse quadro.

Caro amigo, a família é base da sociedade, porém a mídia, principalmente a televisiva, está destruindo esse pilar, está fazendo chacota dela. Outrossim, hoje o casamento virou contrato; não se casa mais para a vida toda. Muitos casais não se respeitam. Muitas mulheres engravidam para ganhar pensão alimentícia. Filhos são criados sem amor (quem ama impõe limites).

Amigo, o que Sd Rocha diz é verdade. O mundo está de cabeça para baixo, os valores estão invertidos. O correto está errado, e o errado está correto. Falta pouco para o poste urinar no cachorro, e a banana comer o macaco.

Poderia ficar o dia inteiro escrevendo sobre o assunto, mas prefiro encerrar por aqui, para não ser prolixo e enfadonho.

No mais, amigo, sinta-se a vontade para escrever para o Universo Policial, pois este blog está sempre aberto para seus contos, crônicas e artigos. Todavia, escreva apenas quando seu coração pedir, quando você sentir vontade de compartilhar suas ideias conosco.

Parabéns por mais um brilhante texto!

Anônimo disse...

Caro amigo Carvalho, aproveito o ensejo para cumprimentar-lhe, pois nos falamos nos idos da formatura do CFS. Sempre acesso este insigne site e de mesmo modo sempre leio seus textos - brilhantes por sinal. Grande abraço do amigo de Uberlândia/MG - Sgt Torres.

Anônimo disse...

Existem passagens biblícas de que tais coisas que hoje ocorrem são sinais de que a vinda do SENHOR JESUS esta próxima,a qual a sua Igreja(O povo de DEUS)será arrebatada(levada)para a nova Jerusalém(A casa onde o SENHOR habita).A verdade e que devemos acordar enquanto ainda existe tempo.Reconhecer que somos pecadores,arrepender e abandonar a prática do pecado,aceitar o SENHOR JESUS CRISTO como o nosso unico SENHOR e SALVADOR e não se esquecer das leis de DEUS.E ai daquele que não estiver com ele de corpo e alma,pura e sinceramente no dia em que ele vier.

Anônimo disse...

Caro José Ricardo,somente JESUS CRISTO,o filho de DEUS,aquele que renunciou a sua glória lá nos céus para sofrer e morrer por nós aqui na terra, pode reverter esse quadro.Basta somente reconhece-lo e aceita-lo como unico SENHOR e SALVADOR de nossas vidas e ele vai libertar de todo o mal,vai curar, vai fazer maravilhas em nossas vidas.

SGT CARVALHO disse...

Prezado amigo Sgt Torres,

Obrigado pelo comentário. Quanta saudade do melhor CFS que a gloriosa já teve hein!!!

Um abraço!

Sgt Carvalho

Anônimo disse...

Não concordo que o mundo está de cabeça para baixo, ou como dizem por ai, piorando a cada dia. Na minha opinião as pessoas estão melhores. Existe menos maldade no mundo, vemos alguns casos isolados de pervercidade. Deixa eu tentar explicar melhor, antes as pessoas, de uma forma geral, eram mais inclinadas ao erro(mal), vide, santa inquisição, várias guerras, descaso total com a natureza etc. Sendo que hoje já percebemos uma mudança consistente, exemplos, direitos humanos(não esse que está deturpado)liberdade de consciência, várias ações em defesa do meio ambiente etc. O que acontece de verdade, no meu ponto de vista, é que a humanidade está passando por um periodo de adaptação, afinal de contas saimos recentemente de um grande período de opressão, injustiças mil, não quero dizer que está tudo bem, porém estamos caminhando para um futuro melhor, daqui a pouco não terá mais espaço para os reticentes, não é algo para daqui 20 anos, precisamos de estar cônscios de que na história tudo acontece lentamente.

Sd Rocha disse...

Aproveito o ensejo para felicitar este grande amigo e articulista, Sgt Carvalho, por mais um artigo que condiz com a realidade.
Parabenizo também este Blog, que é um excelente espaço, onde temos acesso a temas sobre Segurança Pública em geral.
Rocha, Sd PM.

Jorge Henrique disse...

Ao estimado sargento Nivaldo de Carvalho.
Paz e inteligência, seja com todos os guerreiros da cultura da PM, e seus familiares.
Meu nome é Jorge Henrique T. Lopes, sou trabalhador autônomo, atualmente trabalho com obra, porém, trabalhei como: Vigilante; Agente de Segurança; Investigador Proficional.
Cursando Capelania e Juiz de Paz (Capelão Militar).
Conforme os acontecimentos, entendo seu sentimento de incapacidade, mas você fez sua parte parabéns Deus esta vendo, certamente colherás bons frutos em sua familia amémmmmmm!!!
Um pensamento do sociólogo Betinho. Uma queimada na floresta, todos os animais de grande porte que podia fazer algo para preservar seu habitar natural.
Ex: elefante, pesa mais de uma tonelada, foi o primeiro a correr.
Incentivou os companheiros de selva a fugirem também, pensaram os outros animais: Se ele tem o maior poder de armazenar água é o primeiro a fugir, o que podemos fazer?
Respondeu o menor animal da floresta: O beija-flor quatro cm, e, três gm, se cada um fizer sua parte nós conseguiremos apagar o fogo!
Disse outro animal: Fuja você não vai apagar o fogo! ele disse eu sei mesmo assim vou fazer a minha parte.
E voava o pequeno pássaro até o riacho trazendo em seu pequeno bico uma gota de água por vez.
Ouvi esta parábola quando jovem, e, guardo como lição de vida até hoje.
QUEM VOCÊ É SARGENTO, O ELEFANTE OU O BEIJA-FLOR?

Anônimo disse...

Caro amigo, já passei por situações semelhantes, que nos deixam com a sensação de estar "enxugando gelo".
Parabéns pelas narrativas. Um abraço.


Fernando Rodrigues da Silva, Cb PM

SGT CARVALHO disse...

Caro amigo Jorge Henrique,

Comparando-se à parábola que você citou, não tenho dúvida que sou um beija-flor. E assim continuarei sempre.

Devo deixar claro que o propósito do texto não é explicitar falta esperança em relação ao trabalho que exerço e consequentemente aos resultados (ou falta deles) que decorrem da atividade policial.

Minha intensão (e desculpe-me se não fui claro)foi demonstrar o quanto é difícil lidar com problemas familiares, pois existe uma grande carga emocional entre autor e vítima de um crime nesses casos.

Como bem ponderou o Sgt Monteiro, a família está se desintegrando. O casamento tornou-se mero contrato. As pessoas não se respeitam nem no seio mais íntimo, imagine como elas irão se relacionar com o restante da sociedade.

Demais disso, agradeço o comentário. Afinal escrevo para os outros, como forma de compartilhar as esperiências que vivo. Os comentários, sejam críticos ou não, me estimulam a continuar escrevendo.

Um abraço.

SGT Valentim disse...

Boa tarde ,é a primeira vez que participo deste tão interessante meio de comunicação, até então só lia, mas as três ocorrências com características diferentes porem mesma origem me fez comover.Sou policial a 22 anos, há 06 busco um caminhar religioso que me fez ver a vida de forma mais humanitária.Já fui do tipo que achava que todo drogado não passava de um sem vergonha em potencial, hoje reconheço que são verdadeiramente dependentes,e necessitam de ajuda, ajuda esta que só podemos oferecer se o próprio quiser se recuperar. Faço parte de um grupo de oração da Igreja Católica chamado Maranathá, que tem por objetivo primordial a recuperação de dependentes químicos. Aliás fica aberto o convite caso conheçam alguém que precise e queira ser ajudado,está é a nossa missão. SGT Valentim

Sidney disse...

CARO NIVALDO,

Não pude deixar de responder mensagem que me trouxe mais uma vez a reflexão que não cala em minha mente simples e sonhadora: O ALICERCE DA PAZ SOCIAL QUE TANTO PREGAMOS EM NOSSA MISSÃO SÃO FAMÍLIAS ESTRUTURADAS E AMPARADAS PELOS SERVIÇOS SOCIAIS BASICOS PARA INSERÇÃO NO MERCADO DE TRABALHO PAR QUE POSSAM TER BONS MOTIVOS PARA AGRADECER SEMPRE A DEUS NOS TEMPLOS RELIGIOSOS, VALORIZAR A EDUCAÇÃO. A PROFILAXIA DO SISTEMA TEM FALHADO: EDUCAÇÃO, SAUDE E EMPREGO, isso é fato antigo, mas recebiamos treinamento para corrigirmos aqueles que diante do desamparo social escolhiam o caminho do crime por falta de amparo as suas necessidades básicas. Hoje a PMMG, esta transformando e vejo que para melhor estamos evoluindo de uma intituição meramente corretiva para uma intituição participativa.

Estou llhe enviando um anexo do PROGRAMA ENFRENTAMENTO A VIOLÊNCIA DOMESTICA previsto e amparado pela lei 11.340, trata-se de programa desenvolvido para mulher vitima de agressão familiar, isso é a referencia, vejo além cada familia salva e encaminhada representa uma vitoria nas oscilações celestiais, pois salvamos uma mulher a cada famila! Não! Salvamos os filhos, o pai, os avos e os vizinhos que suportam e convivem com o sofrimento do ser humano que mora ao lado.

Caso seu coração peça entre em contato com Cel CPC via intranet e peça para que um grupo de militares venha a bhte para fazer o curso que dura uma semana, para somarem em uma equipe multi disciplinar de segunda resposta que estão contribuindo para o prolongamento da vida e cumprimento de nossa missão: PAZ SOCIAL.

Anônimo disse...

Caro amigo J. Ricardo é na certeza de que está desempenhando um trabalho de credibilidade que, mais uma vez, parabenizo-o pelo blog.
É com muita satisfação que aprecio as dicas, os textos aqui publicados, em especial os do Sgt. Carvalho que por sinal são excelentes talvez pela simplicidade do conteúdo ou pelo fato de suas histórias nos levar a uma reflexão – o que acredito ser fundamental em uma escrita.
A “leitura” é uma das minhas paixões, estou sempre procurando ler textos diversificados, além do mais, pretendo me especializar em linguística aplicada e nada melhor que ler boas narrativas para compreender esse processo da escrita como signos de comunicação.
O que eu gostaria de frisar é que o texto uma vez publicado deixa de ser somente do autor, passa a ter vários significados dependendo do foco de quem os leem. Para Barthes (1979) “A leitura deveria ser vista como uma atividade, um lugar de experiências multidirecionais, onde se estabelecessem conexões, num infinito universo de construção de sentidos”. Portanto, independentemente de qual seja a intenção do autor, um texto lido jamais terá o mesmo significado/sentido para os diferentes leitores.
Segundo Erza Pound, “Grande literatura é simplesmente linguagem carregada de significado até o máximo grau possível” (E.P. 970, p.23). Sendo assim, entendo que o autor apenas relatou fatos corriqueiros na vida de um policial, nada mais. “As várias significações” ficam a cargo de cada um de nós (leitores) o que considero ser um dos pontos interessantes do texto; essa possibilidade de despertar em nós interpretações distintas num processo continuo....
Ademais, Sgt. Carvalho parabéns pelo trabalho e continue escrevendo.
E a você José Ricardo, desejo que o Blog Continue a crescer cada dia mais!

“A expressão é responsável por grandes mudanças sociais”. (é o que prega a sociologia)

SCHNEIDER ESTRATÉGIAS disse...

Se houvesse controle de natalidade no Brasil, o serviço policial seria uma maravilha!!!Parabéns!

Postar um comentário

Comentários - Regras e Avisos:
- Nosso blog tem o maior prazer em publicar seus comentários. Reserva-se, entretanto, no direito de rejeitar textos com linguagem ofensiva ou obscena, com palavras de baixo calão, com acusações sem provas, com preconceitos de qualquer ordem, que promovam a violência ou que estejam em desacordo com a legislação nacional.
- O comentário precisa ter relação com a postagem.
- Comentários anônimos ou com nomes fantasiosos poderão ser deletados.
- Os comentários são de exclusiva responsabilidade dos respectivos autores e não refletem a opinião deste blog.
- Clique aqui e saiba mais sobre a política de comentários.

 
Os pontos de vista aqui publicados são de responsabilidade dos respectivos autores, não representando versões oficiais de quaisquer instituições.
© 2007 Template feito por Templates para Você - Deformado por José Ricardo
▲ Topo