O CANTO DA SEREIA

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

* Nivaldo de Carvalho Júnior

Todos nós, policiais, sabemos que a profissão que abraçamos é bastante complexa. Também estamos cientes que nossas atitudes em serviço, na maioria das vezes, permeiam o limiar entre o certo e o errado; entre o lícito e o ilícito; entre o justo e o injusto. Este texto visa chamar a atenção dos nobres colegas para uma congruência de fatores que nos leva a tender perigosamente para o lado nebuloso do aludido limiar.

Antes, porém, faço uma breve digressão para citar a passagem da mitologia grega conhecida como o “O CANTO DA SEREIA”.

“Uma ilha do Mediterrâneo era habitada por diversas sereias, cujos cantos atraíam os navegantes de forma irresistível. Ao aproximarem-se da ilha, seus barcos batiam nos recifes e naufragavam. As sereias, em seguida, devoravam suas vítimas. O herói Ulisses, desenvolveu uma solução simples porém eficaz: ordenou que sua tripulação tampasse os ouvidos com cera e amarrassem-no ao mastro, não podendo soltá-lo de forma alguma, ainda que ele gritasse para tanto. A idéia de Ulisses partiu do reconhecimento de sua própria fraqueza. Ele sabia que no impulso do momento, poderia ser abduzido pelo encanto das sereias. Sua racionalidade foi capaz de pesar isso antes na balança das preferências temporais, e isso salvou sua tripulação do fatal canto da sereia”.

Esse conto já foi utilizado para ilustrar uma vídeo-aula do competente professor Ricardo Balestreri, o qual compartilha os seus conhecimentos com a família policial, durante os cursos da SENASP.

Pretendo apenas estender a abrangência dessa história mitológica, quando comparada metaforicamente com a segurança pública. Na minha modesta percepção, estamos expostos a três formas de “canto da sereia” durante a atividade policial.

A primeira delas é aquela proveniente da sociedade. É bastante comum ouvirmos apelos emocionados das pessoas, aduzindo que temos que “acabar com a bandidagem a qualquer custo”; que “bandido tem que apanhar da polícia para criar vergonha na cara”; que “menor infrator tem que morrer porque não existe cadeia pra ele no Brasil”. Cuidado companheiros! Aqui está o mais perigoso “canto da sereia” contemporâneo. Basta que o cidadão infrator seja um parente ou amigo próximo, para aquelas pessoas mudarem completamente de idéia e exigirem a “cabeça” do policial que maltratou o ente querido delas. Lembrem-se: A maioria dos infratores tem família ou amigos, sendo que estes sempre os defenderão.


Não poderia esquecer o “canto da sereia” que ecoa dentro das instituições policiais. Hoje em dia, a palavra de ordem é estatística. Este recurso é importante para a definição de estratégias policiais, todavia não pode ser instrumento para pressionar os agentes públicos a atingirem metas que não condizem com a realidade social brasileira. Não é prudente exigir que os policiais alcancem índices europeus de redução de crimes, enquanto temos investimentos pífios na formação policial, na remuneração dos servidores e na disponibilidade de recursos logísticos. Essa cobrança excessiva baseada apenas em “números” é outro fator que entrega nossos colegas à faminta mulher-peixe dos tempos modernos. Sabe-se que muitos policiais já enveredaram nos caminhos tortuosos da ilegalidade para apreender uma arma de fogo ou prender um “criminoso monitorado”. Não custa destacar: não é a pessoa que impõe a meta que responderá pelos atos judiciais, mas sim aqueles que executaram a tarefa.


Também devo mencionar o mais intrigante “canto da sereia” que afaga nossos ouvidos teimosos. Refiro-me à pressão oriunda de nós mesmos. Pergunto-me incessantemente: porque somos tão adeptos a figura heróico-vilã do Capitão Nascimento? Porque ainda consideramos como bons policiais apenas aqueles que pegam o “vagabundo” pela unha; que prendem e apreendem ao arrepio da lei? Porque não valorizamos os policiais que privilegiam o profissionalismo em detrimento desse pseudo heroísmo? Porque cometemos tantos erros em serviço e depois atribuímos as conseqüências aos nossos comandantes que não “seguraram a bronca”? Não ouso responder às ditas indagações, pois também sou refém deste dissimulado “canto da sereia” que habita o seio de nossas hostes.


Nessa trilha de idéias, a única certeza é que não há mais espaços para policiais amadores na sociedade atual. No Estado Democrático de Direito, o profissionalismo deve nortear toda atividade atinente à segurança pública.

Assim, prezados amigos, devemos agir como Ulisses, assumindo nossas fraquezas e procurando sempre tapar os ouvidos dos nossos colegas quando depararmos com o menor sinal do “canto da sereia” - Isso se faz com bastante conversa em equipe para fomentar o discernimento de cada policial. Além disso, agarremo-nos ao mastro maior (Constituição Federal) do nosso navio (Estado de Direito), atuando sempre com obediência aos parâmetros normativos.

Rememoremos: para atender ao clamor popular, cumprir as metas estabelecidas pelas instituições ou fazer aquilo que gostamos (prender criminosos) é imprescindível que todas essas ações estejam em consonância com a lei. Desta forma, passaremos incólumes pelo perigoso “canto da sereia” que tem devorado a vida de diversos companheiros de batalha.


* Autor: Nivaldo de Carvalho Júnior, 2º Sgt da PMMG e bacharelando em Direito pelo Centro Universitário de Sete Lagoas.

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18 comentário(s):

Anônimo disse...

O texto do companheiro Sr. Sgt Carvalho (CM) diz tudo...Deparamos com estes "cantos da sereia" rotineiramente...o fato é que, muitos de nós, ainda incorremos nestas falácias e ficamos, por um bom tempo, com a "batata quente" sobre nossas cabeças...
Rocha, Sd PM.

Anônimo disse...

BOM DIA TODOS OS CAMARADAS DA PM DO BRASIL!!!
LENDO O ARTIGO PUBLICADO NESSE GRANDE SITE COM REFERENCIA AO COLEGA 2o.SGT PMMG NIVALDO DE CARVALHO JÚNIOR - BACHARELANDO EM DIREITO, É MUITO INTERESSANTE PARA NÓS FAZERMOS UMA GRANDE REFLEXÃO QUANDO NÓS TIVERMOS NA DEFESA DA SOCIEDADE EM NOSSA ATRIBUIÇOES, NÃO OUVIR OS "OS CONTOS DA SEREIA" DE ALGUMAS PESSOAS POVO, QUE QUER A TODO CUSTO QUE O PM LABUTE AGINDO NA TORTURA (EMOÇÃO) OU SEJA, SEM A RAZÃO, COMO DEMOMSTRA A FOTO O PM USANDO O BASTÃO NA ILEGALIDADE FORA DA LEI, É PRECISO APRENDER QUE DEVEMOS SEMPRE AGIRMOS DENTRO DA LEGALIDADE, NA HORA DE APURAR O FATO AQUELE QUE GRITOU O CANTO DA SEREIA SOME IGUAL A ÉTER, FICANDO SOMENTE AQUELE QUE DEVERIA AGIR NO PRINCIPIO DA LEGALIDADE, FOI DE GRANDE VALIA O ARTIGO ESTA DE PARABÉNS O AUTOR DO ARTIGO.
ATT,
BEL ACACIO - 2o. SGT PMSE
EMAIL.:acaciofmelo@yahoo.com.br

Anônimo disse...

O melhor texto que já vi neste site. Pena que a maioria nao abre os olhos para essa realidade.

Anônimo disse...

O texto é realmente muito bom,parabéns. Mas sempre temos publicações de altíssima qualidade.Seria difícil dizer que tem o melhor. Gostaria de aproveitar para fazer um cometário, e pedir ao universo policial que lembrasse dos Bombeiros que perderam a vida em Nova Friburgo,salvando vida de pessoas que sequer conheciam. Nossos irmãos merecem uma homenagem do Universo Policial.

Anônimo disse...

Concordo,com o comentário anterior,e recebiam cerca de R$30,00 por dia.

Anônimo disse...

Como seria bom se nossos comandantes lessem este artigo e de uma vez por todas aprendessem que a agir na legalidade não nos torna "muchibas", como somos taxados rotineiramente e ainda, que isso, não nos traga puniçãoes por não atingir as metas estabelecidas.

Henrique disse...

Muito bom Nivaldo, sou SGT da PMDF...é de colegas assim que precisamos, ou seja, que estendem a mão não os que nos empurram.
Continue assim e que Deus o ilumine.

Cb Oliveira disse...

Parabenizo o Sr. Sgt Nivaldo pela experiência e lucidez das palavras.Precisamos nos conscientizar que antes de proteger a sociedade temos que nos proteger.
Não somos super-heróis. Somos cidadãos como as outras pessoas que lidamos no dia a dia.

Anônimo disse...

Ainda existem em nosso meio muitos policiais que fazem questão de ir ao encontro destas sereias, são inconsequentes, acham que são super homens, e quando percebem já estão nas garras do Batman do judiciário militar. Depois lamentam e dizem que não fizeram nada. Antes de tudo não sou moralista mas é o que vejo dentor da nossa instituição. Se prejudicassem só a si mesmos, tudo bem, mas o barco é tripulado por outros que pagam pelo desvio de rota traçados.

Anônimo disse...

O texto só vem ilustrar como a sociedade é hipócrita e como alguns companheiros se julgam donos da instituição. Hoje no final, tudo se transforma em números (quantos veículos abordados, quantas armas apreendidas, quantos presos; etc...). E o fator emocional? E a ergonomia? Palavra desconhecidas por muitos Comandantes, pois a cobrança é enorme e as condições de trabalho deixam e muito a desejar. Parabéns pelo artigo que de forma metódica, nos faz refletir...E ter orgulho de pertencer a esta classe de guerreiros.
Harlen Diogo!

Anônimo disse...

Um dos maiores desafios que enfrentamos no desempenho de nossas funções é nos manter no "ponto de equilibrio" ou seja,uma atitude firme,isenta e profissional.É pressão por parte da sociedade,pressão da administração(PMMG)relativa ao acordo de resultado etc... Diante do tanta cobrança,de tanta pressão, não é raro encontrar o profissional de segurança pública, principalmente aquele na atividade fim com problema jurídico,psicológico,familiar,financeiro etc... Em minhas orações peço a DEUS que abra as portas de nossa intituição para aqueles que verdadeiramente estão dispostos a trabalhar e administrar em prol de um objetivo em comum.

Forte abraço a todos !

Dr cana disse...

Mas...muitas vezes é necessário uso moderado da força,técnicas de imobilização,taser,etc..quando um adolescente ou adulto supostamente sofre abuso por parte da polícia,tem direito de tomar cafezinho com os defensores dos direitos humanos,não que eu seja contra ou recalcado,mas os policiais linha de frente,quando são humilhados,agredidos,baleados,mortos...se não ficar com sequelas dai a palavra direito funciona,pois o braço ou perna ficou direito.. e ainda da para usar o relho no lombo do mau elemento que não entende o diálogo e nem respeita ninguém...use sempre o diálogo e sabedoria..mas nem sempre funciona...Um abraço..bom texto parabéns

Anônimo disse...

Pena que, profissionais de segurança pública como o Sgt Carvalho e outros com competência semelhante não são verdadeiramente reconhecidos ao contrário que, às vezes covardemente são prejudicados através daqueles impositores da tirania em uma instituição que tem o dever de servir e proteger o cidadão quando que, nós mesmos é que necessitamos proteção.Sermos protegidos daqueles que, quanto mais poder adquirem mais lhes faltam carater e personalidade.

Paulo Souza disse...

Parabéns nobre colega Nivaldo de Carvalho Júnior, pelo brilhante artigo.

Pensei que ia transferir-me para a inatividade e não encontraria um policial militar que compartilhasse com os mesmos pensamentos que eu. Sou soldado de policia militar do Distrito Federal, e também abracei essa causa - incutir na cabeça dos colegas de profissão que convém “dar ouvidos” ao nosso ego nem aos apelos apaixonados duma sociedade hipócrita coma a nossa -. Porém, a maioria dos colegas rechação a idéia da quebra de paradigmas.

Paulo Souza, soldado de policia militar do Distrito Federal e cientista da atividade policial de repressão imediata.

E-mail para contato: paulo.psouza@catolica.edu.br/paulo.p.sz@hotmail.com

Sgt Santana disse...

Parabéns Nivaldo pelo artigo, concordo plenamente com você.
Muitas vezes nos deixamos levar por alguns cantos da sociedade, essa mesma sociedade que nos vira as costas quando não agimos conforme seus interesses.
Reconheço que não é fácil tapar os ouvidos ao "canto da sereia", mas, devemos ser fortes e resistir as tentações, caso contrário, seremos devorados pela sereia, (sociedade).

Abraço fraterno,

Santana - 1º Sgt PMBA.

Anônimo disse...

Concordo com o amigo, contudo, discordo na parte em que ele se refere ao Capitão Nascimento com "heróico-vilão", pois na minha concepção, apesar do personagem utilizar-se de meios que vão de encontro aos direitos humanos, ele representa uma pequena parcela dos bons policiais. Policiais de caráter, honestos, incorruptíveis. Policiais que se arriscam todos os dias para defender a sociedade. Sociedade esta que não valoriza o trabalho dos policiais. Uma coisa é quebrar no pau um bandido que pode matar, estuprar, roubar seus familiares, já que não existe justiça no nosso país. Outra coisa é, ao invés de defender a sociedade, o policial passar para o outro lado, no inrtuito de obter vantagens ilícitas. O policial bandido é o pior dos bandidos e, posso dizer com veemência que está cheio de bandidos no nosso meio, e os "facas na boca" são os mais bandidos, e isto com o conhecimento e consentimento dos nossos comandantes, pois esses facas na boca são os que mais contribuem para o cumprimento das metas, mesmo utilizando-se de meios ilícitos. Esses policiais tem o respeito dos comandantes e isto os estimulam a continuarem a cometer ilícitos, só que na hora em que "a casa cai", os comandantes viram as costas para eles e, consequentemante, eles perdem o moral perante os outros colegas, os "muxibas", que procuram trabalhar direito, que nem são notados pelos comandantes, policiais que pensam em suas famílias. O Capitão Nascimento é um justiceiro mas não é corrupto, por isto sou fã dele. Quando surgiram os esquadrões da morte foi para o bem da socierdade. Depois começaram a ser integrados por policiais corruptos e mercenários, por isso teve que se extinguir esses grupos, os quais foram criados para uma finalidade e passaram a ser utilizados para outra.

Anônimo disse...

Caro Nivaldo,

Que maravilha de texto.
Parabéns,todos devemos buscar a legalidade,além da correção de atitudes (principalmente nós comandantes ou superiores hierarquicos! quando exigirmos dos companheiros que são/estão subordinados)
2º TEN PMMG.

Anônimo disse...

TEXTO SÓLIDO EM ESTADO DE LIQUIDEZ.

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