O direito de "sentar"

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

* Sargento Carvalho

Dois fatos recentes chamaram minha atenção. Ambos tinham como pano de fundo as mesmas características: sexo, drogas/bebidas, menores de idade e intervenção policial inócua.

O primeiro aconteceu quando a incansável Polícia Militar de Minas Gerais foi convocada pela comunidade ordeira da Cidade de Santa Luzia, a fim de averiguar a regularidade de “evento cultural” denominado “Baile Funk”, que estaria sendo patrocinado por traficantes locais. Terminada a diligência policial, contabilizou-se a apreensão de várias porções de maconha e cocaína, além da condução de 28 (vinte e oito) pessoas para a delegacia, dentre as quais 13(treze) mulheres. Dessas mulheres, 03(três) são menores de idade. Conforme o sargento que comandou a operação, também foram encontrados diversos preservativos usados no local do evento.

O segundo episódio foi a divulgação de vídeos na internet, nos quais uma adolescente de 15 anos aparece praticando sexo com quatro rapazes. De pronto, a Autoridade Policial da Delegacia de Mulheres do município de Santa Luzia (outra coincidência que só constatei ao pesquisar sobre o assunto) lançou sua equipe nas ruas. Em breve empenho conseguiu identificar os protagonistas do filme e apreender o computador utilizado para edição e divulgação das imagens. Ao ser ouvida na delegacia, a menina disse que um amigo lhe deu bebida alcoólica antes da gravação das cenas de sexo coletivo; que não sabia que eles tinham praticado tal orgia, pois estava inconsciente.

Colocadas as devidas referências fáticas, passo à análise crítica dos acontecimentos.

Quando afirmei, na introdução do texto, que a intervenção policial nos dois casos foi inócua não tinha o propósito de desqualificar o árduo trabalho dos policiais. Por outro lado, minha assertiva decorre das versões apresentadas pelos envolvidos (versões veiculadas pela imprensa, frise-se).

Ouvi num programa de rádio a entrevista com uma das adolescentes que foi surpreendida no Baile Funk. Resumo: “Eu estava mesmo no baile; fiz sexo por que quis e só não usei drogas por que não tinha, porque se tivesse não tinha sobrado. A droga que vocês estão vendo aí só apareceu depois que a polícia chegou”. Quando o repórter pergunta para a menor qual a posição dos pais dela sobre o seu estilo de vida, a resposta é de doer o coração: “Meu paizão já tá aqui. Veio me tirar. Ele é de boa, não liga pra nada”.

Assisti num telejornal a entrevista da Delegada de Polícia encarregada pelo caso do filme erótico. Disse que a adolescente prestou novo depoimento. Desta feita, assumiu que estava consciente quando gravou as tórridas cenas de sexo grupal e que tudo transcorreu com sua livre e espontânea vontade. A imprensa também noticiou que a adolescente já havia “estrelado” outras películas cinematográficas caseiras, as quais já estão circulando gratuitamente de celular para celular, de e-mail para e-mail. Cogita-se até que ela própria se encarregava de gravar e distribuir os vídeos.

Não tenho dúvidas que existiram crimes nos dois casos: tráfico de drogas, corrupção de menores, dar bebida alcoólica a adolescentes, divulgar cenas de sexo envolvendo menores etc. De igual maneira, acredito que não haverá punições exemplares aos criminosos, visto que as pretensas vítimas estão “curtindo” toda essa onda. Posso até estar equivocado, mas essa é a impressão que fica. Ao refletir sobre tais mazelas sociais foi inevitável recordar as inúmeras vezes que presenciei crianças e adolescentes se delirando ao som de um Funk que diz o seguinte:

Mãos para o alto novinha
Mãos para o alto novinha
Porque?
Por que hoje tu tá presa, tu tá presa, tu tá presa (2x)
E agora eu vou falar os seus diretos
Tu tem direito de sentar, tem o direito de kikar
Tem o direito de sentar, de kikar, de rebolar(2x)
Você também tem o direito de ficar caladinha

Disso tudo emerge uma triste constatação: a adorável luta das Mulheres pelo direito à igualdade, à liberdade sexual e à liberdade de pensamento está sendo deturpada pela sociedade. Uma parcela significativa das mulheres (crianças, adolescentes e adultas) está mais preocupada é com o “direito de sentar, de kikar, de rebolar e de ficar caladinha”.

E não tentem me convencer que uma inocente criança praticante dessa “dança” pensa que esse “direito de sentar” refere-se ao deleite de acomodar-se confortavelmente em um sofá ou uma cadeira. Tampouco que “kikar” guarda alguma similitude com brincadeiras utilizando uma bola de basquete. A coreografia diz mais que a própria letra do Funk.

E os pais? A maioria “tá de boa”... Já Eh!!!!!!


* Nivaldo de Carvalho Júnior, 2º Sgt PM, e bacharelando em Direito pelo Centro Universitário de Sete Lagoas



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29 comentário(s):

Anônimo disse...

O Sr. tem toda razao.Inclusive seus textos sao otimos.

Ten Oliveira disse...

Simplesmente fantástico este artigo. É uma das abordagens mais sadias que já vi sobre o tema.

Parabéns ao seu autor.

Renata Andrade Pinto disse...

EXCELENTE ARTIGO!
RENATA

Anônimo disse...

Muito bom Nivaldo !! tinha que ser mesmo de 2002. Abração. "Turma do Natanael"

Anônimo disse...

Boa noite! Novamente somos brindados com mais uma excelência do nosso amigo Nivaldo. É com imensa honra que o parabenizo, e me orgulho mais ainda de dizer que faço parte do seleto grupo de convivência diária daquele que é fortíssimo candidato a deixar as fileiras da "Gloriosa" para ingressar na magistratura! Mais uma vez; parabéns meu nobre amigo. Sérgio Marley

Ten Rodrigo disse...

Que texto!!! Resume nossa realidade. Só podia ser do irmãozinho Carvalho.

Anônimo disse...

Muito bom sargento,tem pouco tempo que acompanho os textos do Senhor são ótimos,sucesso e que um dia o senhor faça a diferença.

Anônimo disse...

É Sgt Carvalho (CM)...como sempre, fantástico texto. A mais pura e árdua realidade...eh deste jeito...jah eh!!!

Rocha, Sd PM

Anônimo disse...

Muito bom o texto,e concerteza eu continuo pensando que a educação começa em casa,os pais devem acompanhar os filhos não importa a idade,os pais são responsáveis pela educação dos filhos.

Anônimo disse...

Caro amigo Carvalho boa noite, excelente texto, aliás como tudo que vc faz. Tenho orgulho de sermos contemporâneos do CFS 2005 - Turma D. Li seus comentários no artigo do Ten Claudio Meirelles, que alias, lavou a nossa alma. Forte abraço. 2º Sgt Robinson

Concurseiro disse...

Ótimo texto!
Alguém sabe me dizer se o CTSP MG exigirá curso superior?

Ivan Sales disse...

sou pai de adolscentes e é de tirar o nosso nosso equilíbrio tal acontecimento e comentários. que sociedade é essa que é criada e financiada dentro dos próprios lares? hipocrisia, demagogia e muita falta de pulso e vergonha essa tal" sociedade"; que DE BOA não tem nada.

Anônimo disse...

Hehehehe!!! td isso é pura realidade, ou seja, está havendo uma inversão de valores. Infelizmente.

Sargento Tolotti da Polícia Militar do Estado de Mato Grosso do Sul

Anônimo disse...

Muito bom o texto, deixou de calças arriadas varias classes juntas. Mas o que mais gostei é que a cada dia que passa temos a certeza que os Policiais de hoje estão cada vez mais preparados, para o crime? Também para esse sempre fomos, mas principalmente preparados para a sociedade hipócrita que com certeza mete a lingua no serviço da PM mas quando precisa não se hesita em discar o tridigito 190, e para as autoridades políticas que nada fazem por ninguém a não ser por si próprio e seus familiares. Grande abraço Tenente e saiba que nossa família militar nunca largará a bandeira da vida, afinal "Nossa porfissão, sua vida".... Abraço Sgt de Juiz de fora- MG

Anônimo disse...

Ótimo texto irmão, deveria ser mais veiculado, pois, apesar deste site ser excelente, é pouco conhecido.
Sgt da Polícia Militar de Minas Gerais.

Anônimo disse...

É a mais pura realidade companheiro,a educação tem que começar dentro dos lares, pois quem sabe se a sociedade também fizesse sua parte não teríamos tantos problemas sociais envolvendo menores...
Sd pm do maranhão.

Anônimo disse...

Olá caro colega! Que texto excepcional, parabéns pela sua dedicação e a contribuição nesta revista, que nos deixa sempre bem informado e nos brinda com essas pérolas...

Cabo Almeida
PMRV/SC

Anônimo disse...

LAMENTAVEL

Anônimo disse...

Infelizmente temos uma sociedade que auto se postitui, as Autoridades não investem em educação porque lucram com a ignorância em massa!
Alex Freire Aguiar
discente de Direito

Anônimo disse...

Infelizmente temos uma sociedade que auto se prostitui, vivendo em um mundo surrealista na qual o próprio Estado criou tais circuntãncias, omitindo sua funções básicas, fazendo com que estes cidadãos sofram em um mundo sem condições básicas, sem educação, saúde, lazer, se voltando para o mundo das drogas, tentando se esquecer dos seus problemas, mas que na verdade só os aumenta. As Autoridades não investem em educação porque lucram com a ignorância em massa!
Alex Freire Aguiar
discente de Direito

Anônimo disse...

ENQUANTO A NOSSA LEGISLAÇÃO FOR ESSA "POUCA VERGONHA", A SITUAÇÃO SÓ IRÁ PIORAR. OBS.: AO 2º SARGENTO PM CRVALHO, PARABÉNS PELO SEU ARTIGO.

KEYTELIMA disse...

Boa tarde. Primeiramente, parabéns pelo site. Gostei bastante, inclusive vou fazer a prova para nível médio esse ano para soldado, afinal, meu sonho desde pequena foi de ter a horar de usar a farda e servir. Então, quanto ao asunto, achei isso um absurdooo!!!! tenho 26 anos, uma filha de 3 anos e um de 7 meses, moro no DF. Minha mãe sempre me proibia de sair p "baladas" com meus amigos de escola. Muitas vezes fiquei revoltada, mas aceitava a decisão dela, CALADA. Aprendi que, aprendemos a dar valor nos nossos pais quando somos pais. Hoje entendo, o porque de não sair. Ela tinha medo das más influências. Graças a boa educação que tive, de surras e castigos, hoje sou uma cidadã de respeito, trabalhadora e mãe de família. A mesma educação que minha mãe me deu quando pequena, darei aos meus filhos. Absurdo ter pessoas que se dizem serem pais e agir de tal forma.
Abraço, e que Deus olhe pelas crianças desamparadas de verdadeiros pais.

Anônimo disse...

e um absurdo mesmo, mesmo elas querendo não podem serem liberadas para tais eventos,irresponsabilidades total dos pais, que deveriam ser punidas.

Anônimo disse...

Ufa! Disse tudo - e com grande clareza e ótimo texto- que eu penso, e às vezes sou tratada como "careta", "louca",. Parabéns!

Cláudio Meireles disse...

Carvalho.

Já tinha lido este texto seu antes. Aliás... acho que já li tudo que vc publicou em Blog. Nas férias vou jogar seu nome no Google e ler mais coisas suas.

Apesar de não concordar com a sua opinião sobre o assunto, não concordar com este pânico moral sobre o Funk e as drogas (que está implícita), o texto está excelente, um convite à reflexão.

grande abraço

Cláudio Meireles

Deny disse...

2º Sgt. Pivoto, PMPR, Ótimo texto amigo, fico orgulhoso de saber que temos policiais militares como você, com tanta galhardia e coragem, pois expor idéias como estas hoje em dia é um tanto temeroso, somos sempre criticados, a sociedade num todo esta de olhos vendados, o tal do fank tomou conta das cidades e da juventude que estamos vendo irem a rua quando morre um marginal em confronto com a PM, a juventude que vai as ruas não para protestar por algo sadio e razoável, mas sim para realizar desordens, praticar furtos, roubos, crimes em geral, dizendo que estão protestando - mas e quando no confronto morre um PM, cadê que nós policiais militares podemos ir as ruas protestar? mesmo que seja ordeiramente? mas enfim, Parabéns pelo texto que é exemplo da dura realidade que vivemos.

Anônimo disse...

caramba,,, falou tudo meu caro irmao,,,, onde vai parar essa nossa sociedade que acha normal os filhos dançarem essas musicas ridiculas ,,,

Anônimo disse...

Eu não vejo nada de mal, pois se no país em que vivemos dois homem podem se beijar em horário nobre na televisão, que é normal. Ou se matarem no MMA e tudo é nomal. Por isto eu defendo a censura ou então libera geral, pois existe ma tal Rede Globa que dita as ordem dentro dos lares brasileiros.

Anônimo disse...

Esperar o que desse evento cultural?
Esperar tudo menos inocencia

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